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Steve Reich @ CCB

Um dos pioneiros da música minimal esteve em Portugal. O concerto foi no CCB e fez parte da programação da 7ª edição do Festival Temps D’Images.

Para a sua 7.ª edição, o festival Temps d’Images convidou um dos pioneiros da música minimalista a Portugal. O compositor americano Stephen Michael Reich actuou no grande Auditório do CCB e, acompanhado do ensemble Bang On A Can e dos seus 73 anos, provou porque é uma influência para as novas gerações de músicos, e uma referência incontornável da música erudita do séc. XX.

À procura de imagens reinventadas em instalações, projecções e espectáculos, o festival Temps d’Images apresentou, durante cerca de um mês (Outubro a Novembro), um sentido único para a intervenção e reflexão artísticas, veiculadas pela forma e função das imagens e do seu movimento. O trajecto foi esboçado por doze espaços culturais diferentes da cidade de Lisboa (Centro Cultural de Belém, Culturgest, Teatro Maria Matos, Cinemateca, Museu do Chiado, Espaço Alkantara, Teatro São Luiz…) e ofereceu mais de vinte programas estéticos aos seus seguidores.

A presença de Steve Reich no CCB, no arranque do festival, foi assistida na grande sala por uma entrada em aplausos. “Clapping Music” abriu o concerto em forma de agradecimento cadenciado, pelo recurso exclusivo ao corpo humano. A dupla interpretação de uma ‘salva de palmas’, com motivos iguais e repetições rítmicas diferentes, fazia adivinhar a singularidade dos temas que lhe seguiriam.

O agrupamento nova-iorquino Bang On A Can acompanhou Reich com a destreza e garra do projecto actual que interpretam. Tão eclécticos como o compositor, demonstraram-se competentes “rockeiros”, senhores electrónicos habilitados ou, se preciso fosse, prontos a subir ao coreto filarmónico de qualquer outro festival mais “popular”.

A inovação musical de Steve Reich passa pela criação de padrões ‘metamorfósicos’, através do recurso a loops e processos simples sonoros, que apontem à exploração de novos conceitos musicais e experimentais. Na “New York Counterpoint”, segunda obra do cardápio da noite, o músico reforça tendências, já conhecidas de alguns dos seus mais precoces trabalhos, como “It’s Gonna Rain” ou “The Cave”, e manipula pré-gravações para solistas com a actuação live do artista solitário, em tempo real.

As obras de Reich repetem figuras, servem projecções vídeo ou recorrem a tempos rítmicos diferentes, para resultarem na composição harmónica de “Piano Phase\ Video Phase”, o terceiro tema do concerto. Com um vídeo de sons de percussão “Midi”, pré-gravado em 2000 pelo percussionista David Cossin, esta peça dá azo a um processo de sintonia e interacção entre os samples multimédia e o acompanhamento ao vivo das “pancadas” que se vão deslocando do vídeo lentamente, até à oitava acima. Indaga a perspicácia dos assistentes ou, no mínimo, “cansa braços” do público mais intrusado.

Não admira que a influência de Steve Reich se estenda à música contemporânea. A peculiaridade dos recursos simples e minimais que utiliza consegue criar fragmentos únicos só com mudança, disparidade ou distanciamento entre compassos. Em “Music For Pieces Of Wood”, obra escrita originalmente para claves (dois bastões cilíndricos de madeira), o compositor enaltece o seu interesse pela percussão, David Cossin adapta-a à bateria e, durante os dez minutos da peça, assistimos a quase 60 mudanças de “motor”. Um “estrondo”.

O quinto “ambiente da noite”, “Electric Counterpoint”, foi composto para um guitarrista a solo e uma cassete com excertos pré-gravados de dez guitarras e dois baixos. O elemento presente completa ao vivo a gravação, com os acordes da décima primeira guitarra, e actuam em conjunto para o arranjo “eléctrico” resultante.

A encerrar a noite, “Sextet”, estreada na América em 1985, foi concebida para três marimbas, dois vibrafones, dois bombos, crotales (ou címbalos arcaicos’), sticks, tantãs, dois pianos e dois sintetizadores. São 28 minutos em cinco andamentos sem interrupção. Mudanças de tempo bruscas no inicio de cada andamento e harmonias que são acordes da dominante com tons acrescidos, criam uma linguagem sombria, cromática e variada. Alguns sons são mais longos, conseguidos pelo vibrafone. Outros registos mais agudos são dados pelos instrumentos tocados com baquetas. A marimba e os vibrafones são compensados pelo registo grave do bombo. Substituem-se batimentos por pausas para construir um padrão entre mais que um instrumento.

Com técnicas oriundas da música africana e a introdução do material melódico dos sintetizadores, que substitui o acompanhamento do piano e é depois substituída pelos vibrafones, a percepção das mudanças de ritmo não passa, na realidade, de uma ilusão.

A exuberância de “Sextet” e, no geral, das composições de Steve Reich, assenta no (des)engano flutuante do ouvinte, música para todos os ouvidos dispostos à ambiguidade de bases melódicas que se repetem, ou “reencarnam” em novos instrumentos e tempos.

Ainda este ano, em Abril, Steve Reich ganhou o Pulitzer (prémio de música) pela sua obra “Double Sextet”. Antes disso ganhou muitos mais mas, sobretudo, dá a ganhar. Anda por cá e por aí a semear obras ímpares, musas de várias correntes musicais. Disse ao Ípsilon, antes de vir a Portugal, que “o minimalismo foi a corrente mais importante dos últimos 50 anos”. E explica o porquê, também na prática.

Sublinha a frase de Alban Berg: “Música é música”, para clarificar a importância e influência da cultura popular na aprendizagem dos músicos, já desde a idade média, e torná-la inseparável da vertente mais erudita e contemporânea da música actual.

Dá ouvidos à música, como um todo, sem desprezar origens ou dar-se a elitismos selectivos e, talvez por isso, nos legue nas suas pautas a riqueza possível de uma ‘aldeia global’.

A História da Música, do Pop ao Rock, do Jazz ao “Mundo”, já conta com Steve Reich na sua banda sonora. E o público agradece, de pé.



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