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TEMPOS de VISTA

Seis perspectivas em torno do lugar. Até 31.01.2010

Para os que não conhecem o jardim das amoreiras onde encontramos o Reservatório da Mãe d’Água, começa logo desde aí uma descoberta de uma cidade um pouco diferente daquilo que podem estar habituados. Ao passar as arcadas do aqueduto, entrando no jardim, deparamo-nos com prédios baixos, um museu e um coreto que nos oferece café, calor e muita calma. Parece que o Largo do Rato, caótico como poucos, ficou a quilómetros e podemos finalmente respirar. É aí, no Largo das Amoreiras que vamos encontrar a entrada para a exposição TEMPOS de VISTA.

O Reservatório da Mãe d’Água (1834) é, por si só, um espaço merecedor de visita onde podemos apreciar a austeridade da arquitectura em perfeita consonância com o romantismo transmitido pela água ou pela cascata ao fundo.

A exposição é uma apresentação de trabalhos de uma recente colectiva de seis artistas (Alexandra Mangorrinha, Inês Teles, Joana Gomes, Maria Sassetti, Magda Delgado e Margarida Mateiro) recém-licenciadas pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, que por afinidades conceptuais decidiram juntar-se e brindarem-nos assim com os seus trabalhos. A linha de pensamento é marcante em toda a exposição, sendo de louvar, que embora cada uma destas artistas se mantenha totalmente fiel à sua linguagem, exista um fio condutor.

Inicialmente projectada para o Reservatório da Patriarcal (por baixo do jardim do Príncipe Real), esta exposição tem característica de site-specific, onde, como nos diz Carlos Vidal (Professor convidado a fazer o texto de apresentação) no catálogo da exposição “(…) não entendo o objecto se não entender o lugar que o cerca e onde ele está integrado.”

Embora transladada para o Reservatório da Mãe d’Água, e tendo isso levado  à necessidade de criar algum trabalho de raiz, devido ao carácter de site-specific, a exposição mantém-se envolvida pela ambiência e vida que havia no Príncipe Real. Os habitantes, os jardins, os transeuntes, se não os mesmos, são característicos daquela zona lisboeta permitindo que as influências que tanto inspiraram as artistas se mantivessem presentes.

TEMPOS de VISTA é sobretudo sobre o jogo entre interior – exterior, entre intimo e público. A vida exterior ao edifício, seja ele qual for, torna-se, visto pelos olhos desta colectiva, tão importante como a vida interior. As artistas escrevem-nos no catálogo “se em cima [podemos ler fora] se escutamos espaços, o jogo das damas, a correria no parque infantil, em baixo [dentro] tudo é um silêncio amarelado e húmido, povoado dos ecos do exterior.” A exposição é então como que um mostrar o espaço enquanto esponja do que em volta se encontra.

Quando entramos no espaço somos recebidos por dois trabalhos de grandes dimensões de Inês Teles. Esta artista revela-nos que o espaço, aquele espaço, a influenciou a trabalhar. Assim, procura a terra do jardim, o elemento arquitectónico, a água, para nos mostrar a sua sensibilidade e a sua imagética. Caracterizado por uma grande limpeza e simplicidade, os trabalhos de Inês Teles falam a mesma linguagem do silêncio que “ouvimos” no reservatório.

Maria Sassetti, mostra-nos a sua vivência do espaço. Com uma linguagem muito particular e intimista, conta-nos a história de vida de pessoas que realmente habitaram os espaços envolventes à exposição. Torna público o que seria privado, aberto a todos o diário de um avô amado, e relação deste com o seu cão Fritz. Estas duas personagens permitem-nos passear por onde estes passearam e entender o espaço, quase cheirá-lo. Talvez uma das peças mais marcantes desta artista seja a que nos revela uma árvore simplesmente por nos levar a entender o seu pensamento. A árvore, marca dos passeios de seu avô e de seu cão, marca de lugar, marca do que é público, mas também ela marca das raízes, da família, do passado e do que é intimo e somente dela.

Margarida Mateiro apresenta-nos imagens que se dobram em reflexo na água do reservatório, como que entrando no próprio negro das águas. Mostra-nos imagens que a principio não entendemos o que vemos, mas que nos levam a visitar as espécies habitantes do Aqueduto das Águas Livres.

Magda Delgado traz o jardim para dentro da arquitectura, trazendo o mundo da fantasia e da reclusão. Podemos ver o seu trabalho como uma janela dentro de uma caixa, uma fuga para dentro.

Joana Gomes, conta-nos uma história onde a água é uma das personagem / intervenientes, expondo o seu interesse por tentar entender os limites da privacidade e da intimidade. Imagens muito bonitas que de tão leves e singelas se tornam assustadoras e nos deixam aquele gosto amargo, não sabendo porquê.

Por fim, Alexandra Mangorrinha revela-nos um caminho pela arquitectura do espaço e pelo seu silêncio e austeridade. Trabalhos limpos e de uma feminilidade acentuada, sublinham e jogam em total consonância com o espaço.

Uma exposição a não perder por todas as razões que vimos e por ser de aplaudir o esforço destas jovens artistas de procurarem mudar um pouco o rumo habitual das coisas. Com vontade de deixarem a sua marca no mundo intelectual, mas também no próprio sitio onde expõem, na sua população, são nomes que devemos seguir e estar atentos.



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