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Sobre Carris

"The Taking Of Pelham One Two Three", de Joseph Sargent

Marilyn Monroe, em “The Seven Year Itch” (Billy Wilder, 1955) diverte-se a esperar à superfície pela passagem dos metros que criam correntes de ar que lhe sobem pelas pernas acima levantando-lhe o vestido branco. Enquanto lá em baixo “as pessoas parecem sempre tristes e sozinhas”, como nos lembra e canta Anna Karina em “Bande À Part” (Jean-Luc Godard, 1964), ou o anjo de Bruno Ganz em “Der Himmel Über Berlin” (Wim Wenders, 1987), que lê pensamentos ansiosos na cabeça dos passageiros. Já em Sånger Från Andra Våningen (Roy Andersson, 2000), filme cinzento, as pessoas cantam o seu desespero, favorecendo o conforto colectivo, raro nas travessias subterrâneas. “Kontroll” (Nimród Antal, 2002) passa-se inteiramente debaixo de solo, no qual o metro de Budapeste representa a violência de todo o mundo subterrâneo em contraste com a claridade diurna.

De facto, o metro é um local comum, ou um “não-lugar” identificado por Marc Augé como um espaço constituído com o único fim de transportar pessoas, orientadas e restringidas por sinais e frases como “circule pela faixa da direita”. Dá cada vez mais matéria aos sociólogos e antropólogos analisarem, quanto maior for o medo e a ocorrência dos ataques terroristas e sequestros, mesmo que, felizmente, não seja uma coisa tão frequente quanto isso. Por todo o mundo dito civilizado são cada vez mais os avisos e proibições. Se em Londres o número de câmaras tender para ser inversamente proporcional ao número de caixotes de lixo à volta das estações, é provável que o número de mochilas no metro para caberem sacos para transportar lixo também aumente, ou seja, mais suspeita, uma bola de neve.

No entanto, há quem consiga, entre o calor insuportável das plataformas e o frio absurdo do ar condicionado nas carruagens e todas as distracções multimédia das estações, recorrer à imaginação. Muitos filmes jogam com tudo o que foi dito, com as características, estrutura e funcionamento do metro, mas poucos o tomam como tema principal e o tornam num argumento completo. “The Taking Of Pelham One Two Three” (Joseph Sargent, 1974), o original e não o remake de Tony Scott que chega neste mês aos cinemas, é um desses poucos exemplos.

Baseado no livro homónimo de John Godey, o título refere-se ao comboio que parte de Pelham à uma e vinte e três, em Nova Iorque. O receio de algum engraçadinho tentar repetir o que se passa na ficção, e para acalmar a mente dos passageiros, fez com que durante uns tempos nenhum comboio partisse àquela hora daquela estação. Este filme é um autêntico heist, um dos melhores da década de setenta, intemporal e com um enorme potencial para sucessivos visionamentos.

Quatro homens de gabardine, com uns bigodes falsos hilariantes e malas que escondem metralhadoras, entram no Pelham 123 em diferentes estações. Dão início ao golpe de sequestrarem o comboio inteiro até chegarem a uma zona morta, longe da estação, onde libertam todas as carruagens excepto a primeira, porque é mais fácil de vigiar, controlar e mover uma única carruagem do que um comboio inteiro. E porque uma carruagem contém um número de reféns suficiente para exigir uma quantia avultada de dinheiro. Os sequestradores tratam-se por Mr. Blue, Mr. Green, Mr. Grey e Mr. Brown (foi aqui que Quentin Tarantino foi buscar a inspiração para os nomes das personagens em “Reservoir Dogs”) e exigem um resgate pelos passageiros num curtíssimo espaço de tempo. As suas motivações e origens vão-se conhecendo através das conversas que têm com Zachary Garber (Walter Matthau), um polícia que trabalha na rede de metropolitano de Nova Iorque. Os diálogos são um dos valores maiores do filme, criam tensão, jogam com o pânico em contra-relógio, sempre equipados com um humor subtil.

“The Taking Of Pelham One Two Three” goza de um argumento inteligente, sim, mas sobretudo audaz pela forma como se apropria do imaginário em volta do metro de Nova Iorque. Um local que deu muitas ideias durante a década de setenta a inúmeros filmes e cenas míticas, antes de se tornar um cenário ideal para esconder a bicharada de “Teenage Mutant Ninja Turtles” (Steve Barron, 1990), “Godzilla” (Roland Emerich, 1998) ou “Cloverfield” (Matt Reeves, 2008). É de recordar a fabulosa cena de perseguição de “The French Connection” (William Friedkin, 1971), uma das mais descontroladas e dementes de sempre, quando Gene Hackman deixa escapar o seu homem para dentro de uma carruagem e resolve persegui-lo de carro, por baixo da plataforma do comboio. Ou ainda “The Warriors” (Walter Hill, 1979), filme de culto incontornável, quase todo ele passado em viagens de metro, sobre um gang – os Warriors – que numa noite têm de atravessar Nova Iorque inteira, até Coney Island, de metro, enquanto são perseguidos por outros gangs da cidade.

Um pouco mais atrás, e em Paris, há Le Samourai (Jean-Pierre Melville, 1967), obra imensa que influenciou tanta coisa, desde os inúmeros heist da década seguinte até John Woo, onde de uma só vez se constrói uma fabulosa cena no metro e outra de perseguição, a pé, usando e abusando de todas as características do espaço (o abrir e fechar de portas, as diferentes saídas, o controlo policial da localização do comboio, etc.) na construção de um momento basilar do género.

Mas é em “The Taking Of Pelham One Two Three”, como em nenhum outro, que tudo surge no seu esplendor. Em que os pormenores nos contam a história e em que as características do seu funcionamento são usadas magistralmente em favor da acção, num golpe que tanto tem de genial como de assustador. Felizmente, todo esse engenho e perfeição só têm vida no cinema. E os filmes que passam pelo metro dão-nos motivos para nos rirmos mais nas nossas viagens quotidianas.

Ilustração de Isabel Salvado



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