tUnE-yArDs | “Nikki Nack”

tUnE-yArDs | “Nikki Nack”

É maravilhosa a capacidade que Garbus teve para se reencontrar

Há uns meses atrás li no Talk House – recomenda-se a visita se ainda não conhecem – um texto escrito pela Merrill Garbus que começa da seguinte forma: “These days, I’m trying to write a new album. Right now it’s called Sink-o, but who knows if that will remain. It came from my obsession…”. O texto é sobre uma viagem feita por Merrill ao Haiti, com o seu professor de percussão, que é natural do País, a interacção com a população local e a sua música ou, nas palavras da própria: “to situate myself in a non-western musical tradition”. Desde então, o título do álbum mudou mas a viagem, e em especial as vivências e as sonoridades escutadas e apreendidas por lá, ficaram, marcaram e influenciaram. Eis “Nikki Nack”.

«Find a New Away» é sobre procurar novos caminhos. Quer a nível pessoal, quer a nível artístico. Sobre reencontrar-se. No fundo é exactamente a linha mestra que guia todo o álbum. “When I see you changing / It makes me think that I could change too”. Merrill Garbus desenvolveu uma forma única de debitar rimas e palavras. «Water Fountain» é um exemplo perfeito disso; a sua voz é única, inconfundível. Para além disso continua com a língua bem afiada: “Greasy man come and dig my well / Life without your water is a burning hell / Serve me up with your home-grown rice / Anything make me shit nice”.

Após duas canções há coisas que saltam desde logo à vista. O ukelele que tanto e tão bem marcava presença no anterior “w h o k i l l” desapareceu para dar lugar a outros sons. A percussão continua a marcar presença mas é diferente, e os sintetizadores ganham mais protagonismo agora. Já aquele jogo de palavras, umas mais reais que outras, continua lá, embora um pouco mais refinado. O tempo traz consigo experiência e Merrill Garbus não foge disso, e nem o quer fazer. Ainda bem.

«Time of Dark» começa com uma linha de baixo a abrir. É uma canção mais introspectiva e reservada. “I leave all my doubts behind / (See through me) / I’ll give up my sight / I’ll tear it out so I can see the signs”. Surpreende-nos pela forma como nos apresenta Garbus num registo diferente, e em que poderia nem se sentir confortável, mas tal não podia estar mais longe da verdade. É uma grande canção. Já «Real Thing», logo a seguir, tem um toque de jazz, que já estava igualmente presente no álbum anterior.

«Look Around» é como uma almofada para a alma. Uma brisa que nos conforta. “There will be / Always something you can rely on”. E nós sentimos isso. «Hey Life» é um desabafo sobre a falta de direcção por que Garbus passou e contra a qual lutou, enquanto procurava dar corpo a “Nikki Nack”. «Sink-O» começou por ser o nome do álbum, talvez por se aproximar mais dos ritmos que ouviu no Haiti. É uma canção que nos dá vontade de saltar; o ritmo é frenético e por vezes descompassado. Ver e ouvir Merrill Garbus contar histórias a crianças deve ser uma experiência sensacional. Escutem «Why Do We Dine On The Tots?» e vão compreender.

Até este ponto tenho referido apenas a Merrill Garbus, porque é sempre dela que nos lembramos quando escutamos, falamos ou dançamos ao som de tUnE-yArDs. A verdade é que estou a cometer uma injustiça. Nate Brenner é baixista, teclista, letrista (em co-autoria) e cúmplice de Garbus já desde os tempos de “w h o k i l l”. Exala talento e sem ele tUnE-yArDs não soava assim. Fica por isso a devida vénia.

«Stop That Man» é uma canção cheia de sintetizadores e beats. Em «Wait for a Minute» Garbus desabafa: “Monday I wake up with disgust in my head / Could not forgive myself another moment spent in the bed / Monday the mirror always disappoints / I pinch my skin until I see the joints”. Torna-se impossível não admirar a forma como ela consegue colocar em palavras aquele sentimento estranho, que de quando em quando causa um aperto cá dentro. Que dá desconforto. Seja porque estamos a procrastinar e não o conseguimos contrariar ou porque estamos perante um obstáculo que não estamos a conseguir ultrapassar. E depois ainda há sempre alguém a dizer-nos ao ouvido para “esperarmos um tempito que isso passa”…

A única referência directa ao título do álbum surge em «Left Behind». “Nikki Nikki Nack / She told me “never bend back” / That Nikki Nikki Nack”. Uma onomatopeia no feminino. No fundo, é também um espelho daquilo que os tUnE-yArDs nos oferecem. «Manchild» encerra o álbum com um bater de pé e uma tomada de posição que não podia ser mai clara por entre beats e samples: “Not gonna say yes when what I really mean is no / Not gonna say no unless you know I mean it”.

É maravilhosa a capacidade que Garbus teve para se reencontrar. Tenho dito.



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