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Um Estranho Chamado Amor

Uma família disfuncional no Teatro Turim.

Foi a primeira vez que visitei o Teatro Turim. A odisseia da chegada a Benfica é sempre algo digno de registo, quando se viaja num carro cheio de estrangeiros de além-portagem. É importante saber que, no coração da grande Lisboa, um GPS é só um acessório bonito no pára-brisas: não serve para mais nada! Abençoados sejam os nativos que sabem onde ficam os sítios!

Depois dos bilhetes recolhidos, enquanto a rodinha do enfisema se reunia pré-espectáculo… O produtor executivo com a sua terna autoridade, veio dizer-nos que depois daquele cigarro queria toda a gente à porta para se sentar. Obteve o nosso obediente aceno de cabeça e regressou. Parecíamos um grupo de amigos à espera do jantar e não indivíduos singulares.

Uma peça de teatro não é um filme. É um exercício pessoal e individual e diferente de noite para noite: a questão é acertar no dia em que os actores estão mais em sintonia, mais desinibidos, mais arriscados.

“Um Estranho Chamado Amor” é uma adaptação da obra de Renné Taylor e Joseph Bologna, “Love And Other Strangers”, transversal a 5 décadas e cinco casais. Durante o espectáculo somos transportados pelo tempo, no que em nada se compara a sketches (!), mas a episódios demasiado familiares e próximos de todos nós, na pele de cinco casais diferentes. São abordados nesta peça cinco temas-chave, casamento, divórcio, papéis género-sociais, sedução e decisões, expostos à análise de personagens que lá (des)aconselham mais ou menos. Trazemos daqui a intemporalidade destes temas e a forma como – não tanto no fundo como isso – acabamos por ser muito parecidos uns com os outros, mesmo com o passar do tempo e evolução das consciências.

Ainda não consegui deixar de avaliar uma peça pelas palavras que me chegam: Uma coisa é uma peça de época, outra são textos escritos por quem não fala a “língua”. Perco imediatamente o interesse na história se os textos não tiverem sido correctamente desenvolvidos ou se os actores não os “vestirem”, se forem debitados como se as personagens pedissem autorização para falar.

É evidente que se corre sempre riscos quando se adapta textos, mas o risco de NÃO os adaptar é sempre maior. Fiquei com a sensação que a adaptação feita para esta peça se poderia ter afastado mais da tradução do inglês para o Português, MAS – sendo que é uma tradução! – não deveria, então, ter-se limitado à tradução das palavras: devia ter avançado para a “tradução” das realidades… Teria feito mais sentido. Mais sentido teria feito, também, não terminar uma peça (com uma forte nota cómica) com um timbre tão sério. Na minha opinião, os diferentes actos poderiam ter sido organizadas de outra forma: o interesse e a energia esmorecem perto do final quando o último acto não cumpre a nota satírica que dele se vem a esperar (avaliando pelo resto da peça). Colocá-lo algures mais perto do “meio”, onde os juízos sociais face a um casal homossexual teriam sido mais compreensíveis, reequilibrando a nota dramática deste acto com um dos seus precedentes cómicos. Talvez assim se poupasse este elemento do público ao inevitável “ah… ah… AHHH… AHHHH… ehr, já foi…!”

Houve alguma frugalidade no uso de emoção, quase como gestão de experiência, e desvios destes são o suficiente para “inverter” a direcção em que segue o texto.

Nada demasiado grave, mas o suficiente para tornar determinados momentos menos elegantes.

No aspecto cómico… Se calhar dou-me com demasiada gente doida e por isso mesmo não vi “caricaturas”…! Não considerei que os personagens tivessem sido estereotipados para além do necessário. Gostei da linguagem corporal, gostei das expressões e da forma como estas ilustraram os diálogos.

Mesmo tratando-se de um grupo de teatro, que faz várias peças, e ensaia e viaja e janta e almoça e lancha e bebe em conjunto, etc, etc, etc e tal… nem sempre se obtém a simbiose que o GTUL atinge. Não há momentos mortos em palco e os erros de texto são habilmente utilizados.

Atenção: Eu sou um péssimo público! Corro sempre o risco de só ver meio filme ou meia peça. Acho que nasci com um botão de stand by algures no corpo: quando apagam as luzes e me acomodo nas cadeiras, devo pressionar para aqui alguma coisa e… E pronto, é uma questão de tempo. Dizer que estive agarrada à cadeira do princípio ao fim, que não bocejei, que não dei uso ao contrabando de doces na mala para me manter acordada, que não fugi para fumar um cigarro com a desculpa de ir à casa-de-banho… diz muito.

Ah… E conseguiram o que há muito eu não via: esta peça fez uma senhora benzer-se e uma recém-licenciada esconder a cara!



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