A mamã ,os rapazes e eu

“A mamã ,os rapazes e eu”

O Mito de Androgynos

O Mito

No “Banquete” de Platão, encontramos referência a um ser chamado Androgynos, que não só reúne as características masculinas (Andro) e femininas (Gyno), como em razão das suas contradições se torna num ser de enorme  poder. Algo que leva os deuses a ficarem incomodados  e a tomarem a decisão de dividir essas entidades em duas metades, que desse momento em diante se buscam para encontrar a plenitude, sempre incertos acerca do sentido da vida em geral e de si mesmos em particular.

O Artista

Guillaume Gallienne , é com 42 anos, um já aclamado actor (membro da Companhia de Comédia Francesa desde 1998) que se estreia nesta muito interessante auto-biografia tornada peça de teatro, tornada filme, como realizador e argumentista.

Guillaume apresenta-nos um filme que não renega a sua inspiração teatral e em vários momentos somos  colocados perante o actor no palco em expressivo solilóquio, dando-nos conta das particularidades da sua vida e da sua visão acerca do mundo e das pessoas à sua volta.

Aproveitando as descrições das situações contadas no palco, o filme vai mais longe e permite-nos observá-las com pormenor, o que torna a experiência ainda mais rica.

I Acto

Nascido numa abastada família francesa, burguesa e cheia de maneirismos, desde cedo Guillaume se apercebe que não é visto pelos seus pais da mesma maneira que os seus irmãos. Mais particularmente a sua mãe, que como o título em francês deixa claro, divide os filhos entre : Os rapazes e Guillaume.

O jovem é pouco dado às actividades ditas masculinas e vive em grande parte através do seu mundo interior, bastante rico e cheio de fantasias onde Guillaume assume frequentemente personagens femininas. A sua atenção extrema a tudo o que diz respeito à sua mãe (também interpretada por Guillaume Galienne), leva-o a ser capaz de a imitar em todo o pormenor. Algo que é recebido com ambivalência por parte de sua mãe, que apesar de por vezes parecer algo incomodada com o comportamento do filho, não deixa nunca de aceitar e até incentivar a sua notória diferença relativamente aos seus irmãos.

Posição diferente tem o seu pai (André Marcon),  que acredita que através da prática desportiva e  o internato em vários colégios internos consegue fazer despertar o rapaz másculo que ele espera que Guillaume tenha dentro de si.

 

II Acto

Uma  experiência mal sucedida num colégio interno francês  , leva Guillaume até Inglaterra, onde começa uma fase muito importante na sua caminhada de descoberta de identidade.

Nesta fase apaixona-se , desilude-se , experimenta , descobre e aprofunda a sua devoção por tudo o que é a natureza feminina.

A sua mãe começa a parecer a seus olhos, algo diferente que aquela representação inicial de modelo a copiar e Guillaume descobre a beleza do mundo interior feminino em todas as mulheres.

Aparentemente a sua identidade sexual começa a ser assumida….

III Acto

Sobre o 3º acto não posso dizer muito, pois facilmente posso estragar-vos o filme…

Epílogo

A Mamã, os Rapazes e Eu“, é um filme de qualidade, com excelentes diálogos (a realidade em geral supera a ficção), cómico e dramático nas medidas certas  e com um Guillaume Gallienne estratosférico!

Não apenas como actor multifacetado, mas como contador de histórias e até como realizador. O filme é relativamente pequeno (85 minutos) mas parece ainda mais pequeno, fruto do ritmo e dos planos geralmente muito vivos e intensos.

É bastante possível que nos surja na cabeça a seguinte pergunta : Isto aconteceu mesmo?

A resposta provavelmente não será tão importante quanto a enorme vontade de acreditarmos que sim. Porque se de facto as coisas aconteceram desta forma, é possível acreditar que mesmo quando as pessoas à nossa volta tentam dizer-nos quem somos, ou quando nos intoxicamos  com as verdades e carências dos outros…ainda podemos exorcizar os nossos fantasmas pessoais perante todo o mundo  e sair com um sorriso nos lábios.

Provavelmente este filme vai ser usado durante bastantes anos nas faculdades de psicologia, assim como têm sido películas  tão marcantes quanto :“Melhor é Impossível” ou “12 Homens em Fúria”, pois retrata a dimensão psicológica humana como poucos.

O filme tem sido um sucesso tanto de bilheteira( 2,6 milhões de pessoas já foram assistir ao filme) como tem sido elogiado pela crítica em França, tendo mesmo recebido cinco Césares recentemente, nas categorias : filme, filme de estreia, actor (Guillaume Gallienne), argumento adaptado e edição.

Sinceramente espero que em Portugal venha a ter o mesmo sucesso….merece.

Sai com um Satisfaz Plenamente!

 

 



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