“Homo Sacer e os Ciganos” | Roswitha Scholz

“Homo Sacer e os Ciganos” | Roswitha Scholz

Homo sacer par excellence

Ainda se observa, em algumas montras de comércio tradicional, o amuleto que procura afugentar os ciganos e suas más intenções. O inofensivo sapo de loiça é, a título de exemplo, quase uma constante nas lojas da Rua Morais Soares, em Lisboa. Julgado tão eficaz quanto um alarme, reforça o imaginário ocultista em torno do cigano gatuno, repelido graças ao mau agoiro do bicho dos coaxos. Roswitha Scholz, à luz do caso alemão, procura enunciar aquilo que alimenta o estereótipo étnico mais comum e socialmente aceite da Europa.

A autora de “Homo Sacer e os Ciganos (Antígona, 2014) – um conjunto de textos publicados na revista EXIT! Krise und Kritik der Warengesellschaft (Crise e Crítica da Sociedade das Mercadorias) – quer lançar o debate sobre o anticiganismo, debate esse que permanece obscuro, inclusive no seio académico. Os roma e sinti continuam a ser a referência no que diz respeito aos mais reles indivíduos da sociedade. O cigano é, para a classe média, exemplo daquilo a não seguir. Conotado intimamente com o ócio e a criminalidade, o seu cariz nómada foi encaminhado para a sedentarização, forma encontrada para domesticá-lo no século XX. Após estabelecido o modelo capitalista, acentuou-se a marginalização do “homo sacer par excellence” (homem este importado do direito romano – o banido), graças à sua aparente incompatibilidade com o trabalho.

Quem o reprime, o «sujeito burguês», vê o cigano «como o reflexo num espelho, os seus medos primordiais e os próprios anseios hedonistas». O estereótipo fora, em parte, a fonte de conhecimento mais recorrente, sendo a tentativa de genocídio encabeçada pelo nacional-socialismo a expressão máxima da violação dos direitos fundamentais. Se por um lado o antisemitismo se alicerça na generalização do excesso de poder do judeu, o cigano não se desprega do seu estatuto de ralé supérflua, talvez o motivo pelo qual é o grande esquecido do Holocausto. São dois anti que Scholz afirma estarem próximos pela natureza estereotipada, mas polarizados na esfera social.

Recorrendo a bases marxistas, “Homo Sacer e os Ciganos” é uma obra que também crítica a esquerda desorientada, que se lembra de uns e se esquece de outros. Scholz apresenta um ensaio com consciência histórica (não seria um repensar marxista de outra forma), parecendo estar munida de uma ideologia incorruptível. Enquanto, fora dos livros, parte da Europa assume cada vez mais a sua intolerância, este apelo igualitário é demasiado pertinente para ficar ao abrigo do pó das estantes.



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