Ainda temos medo de Virginia Wolf

Estivemos no Trindade na apresentação da peça na capital.

Trazida ao Teatro da Trindade por uns escassos dias de Fevereiro, a peça de Edward Albee Quem Tem Medo de Virgínia Wolf?, encenada por João Paulo Costa, da Academia Contemporânea do Espectáculo/Teatro do Bulhão, do Porto, revelou ser uma autêntica prova de fogo superada ao longo das três horas de espectáculo.

Quem tem Medo de Virgínia Wolf? estreou-se na Broadway em 1962 e é a peça mais importante do dramaturgo norte-americano dos anos 50, Edward Albee, onde quatro personagens incendiárias adensam um conflito matrimonial muito intenso, cujo final será a destruição do que ainda pode restar de um casamento em ruínas. Albee apresenta um texto realista que se encaixa no contexto do pós-guerra americano, já embebido na Guerra-fria, onde imaginação e realidade colidiam permanentemente.

Ao ver-se a peça, entra-se para um tabuleiro de jogo, onde duas personagens – Martha e George – se preparam para uma verborreia de palavras afiadas como facas, cujo destino é a medula do outro. Martha e George entram em casa com a voz dela a cantarolar Quem Tem Medo de Virgínia Wolf, Virgínia Wolf, Virgínia Wolf… prepara-se um jogo bem regado de Gin, Brandy e Whiskey, acompanhado de um jovem casal de visitas – Honey e Nick – convidadas por Martha num acesso de simpatia à saída do jantar da Faculdade onde George e Nick leccionam. Martha é uma mulher exuberante, George um marido frustrado e o casamento de ambos é um limbo constante entre a verdade e a ilusão; como tal, Martha desafia constantemente o marido até lhe chegar aos nervos e o tirar de si; George perde as estribeiras e começa então a manipular os jogos iniciados por Martha.

Para a representação de uma peça tão intensa como esta, é preciso que os actores estejam realmente disponíveis para a entrega de que este espectáculo precisa, e é realmente emocionante estar três horas numa sala onde isso acontece mesmo. O excelente desempenho e a manutenção de uma energia constante por parte dos actores, contagia o público e motiva-o a entrar no jogo destrutivo entre Martha (Glória Férias) e George (António Capelo), uma frenética trituradora, que leva tudo à frente, sem se deixar intimidar pela presença de um par de convidados desprevenidos.

A sala de estar onde se passa a acção tem como elementos-chave um mini-bar cheio de garrafas que vão ser despejadas pelos quatro intervenientes até ao fim do jogo e três sofás, meticulosamente estudados por Martha, para ela se rebolar e mostrar como está à vontade para atacar seja quem for, e que vão ser o grande apoio de Honey, que fica embriagada logo depois do primeiro de muitos Brandys. Embora toda a acção tenha lugar na sala de estar, as entradas para a cozinha e casa de banho, e as escadas que levam ao primeiro andar da casa, conferem ao espaço uma óptima noção de amplitude.

Glória Férias interpreta Martha, a mulher sabida e destruidora criada por Albee, empenhada em jogar jogos muito duros, que remexem profundamente nas entranhas de George, interpretado por António Capelo. Ambos estão com um nível muito elevado, e conseguem, pela sua dedicação, um resultado bastante positivo neste desafio. O mesmo sucede com Nick e Honey, interpretados por Mário Santos e Sandra Salomé, respectivamente, os quais mostram que se apropriaram perfeitamente tanto do espaço, como do texto, e que o grupo se esforçou por desenvolver um trabalho extremamente rigoroso.

Com uma curta (de 18 a 27 de Fevereiro) exibição em Lisboa e pouca divulgação, Quem tem Medo de Virgínia Wolf? abandonou a sala principal do Teatro da Trindade no dia 27 de Fevereiro, deixando os espectadores satisfeitos. Contudo, a escolha do horário é apontada como um dos únicos aspectos negativos pois, já que este é um espectáculo de longa duração (devido à representação do texto na íntegra), se a exibição fosse um bocadinho mais cedo, talvez não tivessem havido lugares vazios depois do intervalo.



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