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Andrew Bird @ Aula Magna

Voo a baixa altitude.

Andrew Bird é um dos mais talentosos músicos da década. Exímio nos arranjos com que veste as suas canções e nas letras que lhe dá, é sem sombra de dúvida um dos mais únicos e notáveis artistas actualmente em actividade, dentro do género. Quem conhece os seus álbuns e quem o viu, por exemplo, no ano passado no São Jorge, sabe bem o quanto isto é verdade; Bird é, simplesmente, único. E é, portanto, triste ter de dizer que o concerto dado pelo músico na Aula Magna não reflectiu, de todo, o seu talento.

Foi numa Aula Magna praticamente esgotada que Bird (a solo, como era de esperar) se estreou numa das mais emblemáticas (e mágicas) salas de Lisboa. Talvez a sala perfeita para este artista, onde facilmente se poderia criar um ambiente de verdadeira transcendência, com o som do seu violino e a intimidade da sala a envolverem o espectador.

Não foi, de todo, o que se verificou, numa noite minada por dois factores: o fraco empenho do músico (o homem está de férias, e isso nota-se), e um alinhamento fraquíssimo. O concerto não foi, claro, aquilo a que possamos chamar de mau, pela simples razão de que Bird, mesmo em baixo de forma, consegue dar concertos que nunca caem no aborrecimento, com alguns belos momentos pelo meio (valeu-nos um ou outro grande clássico do músico). Mas a noite foi apenas um acumular de alguns belos momentos com outros apenas minimamente agradáveis, algo que se deve mais àquele belo assobio e a um violino mágico que propriamente ao empenho do músico. Nunca se teve vontade de sair de lá e ir para casa, claro, mas o sentimento de “Que se passa? Isto devia estar a ser melhor” foi constante. Não podemos chamar o concerto de mau, mas podemos bem chamá-lo de fraco.

Logo no início, após uma abertura com um pedaço instrumental e a fabulosa «Why?», era óbvio que esta seria uma noite de descontracção para o artista. “Não estou em digressão, apenas achei que podia dar um concerto, já que estava por cá”. Palavras que fizeram rir os presentes, mas nas quais assentava a essência do pequeno falhanço que foi a noite: Bird não está em digressão, não toca obviamente ao vivo já há algum tempo, e durante a noite não se preocupou em tentar fazê-lo da melhor forma.

“Hoje vou tocar imensas músicas novas, espero que não se importem. Simplesmente é o que me apetece fazer”, atira ele logo a seguir. E estava apontada a segunda grande falha da noite: o fraco alinhamento, com muitas músicas novas e poucos clássicos. Percebe-se que o músico queira apresentar material novo (que, segundo o próprio, não será sequer editado num futuro próximo; logo, esta foi uma oportunidade única), mas então que o faça sem os vários erros que minaram as suas interpretações, e mantendo um equilíbrio entre material novo e material antigo. E de qualquer forma, qual o objectivo de ir ver um cantor que se adora senão para o ver a interpretar músicas adoradas? As canções novas não soaram mal, de facto, mas faltaram algumas obrigatórias. «A Nervous Tic Motion of the Head to the Left»? «Weather Systems»? «Tables and Chairs»? «Fake Palindromes»? Um concerto de Bird sem nenhuma destas canções é, imediatemente, uma desilusão. Juntam-se os diversos erros ao longo da noite, desde letras mal cantadas a loops mal usados (erros pequenos, mas visíveis), e a desilusão aumenta ainda mais.

Os melhores momentos da noite deveram-se, então, aos hinos de álbuns anteriores. O concerto foi um alternar constante entre músicas novas e antigas; depois de cada canção desconhecida, seguia-se uma antiga (óbvia tentativa do músico de agradar minimamente ao público). Houve até algumas pequenas surpresas, como por exemplo a fabulosa «Action Adventure», que o próprio admitiu já não tocar ao vivo há imenso tempo, ou a lindíssima «The Happy Birthday Song» (esta com honras de encerramento… e com um erro ali pelo meio). Claro que a maior parte das antigas foram repescadas de “Noble Beast”, um álbum que de antigo nada tem (tem cerca de dois anos), e que o músico já no ano passado tinha apresentado por cá. O facto de o músico se ter concentrado tanto neste álbum acabou por minar ainda mais a noite: «Noble Beast» não é, de forma alguma, o melhor trabalho de Bird, e as canções antigas apresentadas não foram, de todo, do melhor que o músico já fez

Bird tem carisma, e sabe encher bem um palco, dizendo sempre aquelas piadinhas quirky na altura correcta, mas a certa altura até as suas pequenas piadas ou interacções com o público começaram a soar mecânicas; teria sido bom se tivesse falado menos e tocado mais. Quando, já perto do final, chama ao palco Depedro, músico amigo seu que fez a primeira parte, para interpretar consigo algumas músicas, tornou-se óbvia a triste verdade: Bird estava a tocar para si mesmo, não para nós. Colocar ali Depedro (que fez uma primeira parte tolerável, conseguindo aquecer minimamente o público) foi apenas um simples favor entre amigos, puro product placement musical; Depedro nada acrescentou às canções, e mais valia ter ficado sossegado lá atrás. Teria sido mais mágico ter visto Bird interpretar sozinho uma das belas surpresas da noite, a magnífica «Scythian Empire», em vez de o ver a interpretar esta grande canção com o apoio de um dedilhar de guitarra que nada acrescenta.

Foi uma noite minimanente agradável (e não o são praticamente todos os concertos?), mas agradável não basta. Bilhetes a 25 euros, uma Aula Magna praticamente esgotada, e a estreia de um grande músico numa grande sala; neste caso, agradável é a mesma coisa que fraco. Ainda mais fraco o é quando já se conhece bem aquilo de que o músico é capaz: quem o viu no ano passado, por exemplo, certamente saiu da Aula Magna cabisbaixo a perguntar-se o que correu mal. Quem o viu pela primeira vez, por outro lado, talvez não fique com muita vontade de repetir a experiência; até se percebe que uma espectadora lhe tenha pedido que interpretasse as músicas tal como estas estavam no álbum. “Isso é praticamente impossível”, respondeu o músico, que aqui não se dignou a brindar-nos sequer com uma interpretação digna das músicas tocadas. Quando no final o público o brindou com uma ovação de pé, ficou-se com a ideia de ter sido mais por tradição que por satisfação; aliás, durante o concerto pairou no ar um sentimento de frieza e desconexão (e como não poderia pairar? O homem estava a tocar músicas que só ele conhecia!). Andrew Bird desiludiu, num concerto mal pensado e perfeitamente inútil; apresentar músicas totalmente desconhecidas em concerto sem contemplar outras mais adoradas, interpretando-as ainda por cima de forma desleixada? Qual poderia ser o objectivo disto, senão talvez o de ganhar dinheiro?

O homem pássaro regressou a Lisboa mas, depois de grandes voos anteriores, desta vez ficou-se pela baixa altitude. Esperamos que, no seu regresso inevitável, as coisas corram de forma bem diferente. O talento está lá, claro; mas, ao que parece, às vezes também gosta de tirar férias.



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