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Grandmaster Flash @ Indústria, 15 de Abril de 2011

Carta Aberta.

Caro Grandmaster Flash,

Eu entendo, é claro, que o Hip-Hop no seu cerne sempre rejeitou quaisquer preconceitos musicais, misturando tudo à face da terra que tivesse a batida correcta em nome daquela magnífica e eterna block party, e que fazer uso de músicas que possam parecer azeiteiras aos supostos heads é uma componente importante disso.

Entendo, também, que um DJ nunca sabe com que tipo de público se vai deparar, e que como tal é compreensível o mesmo optar às vezes por uma linha mais segura, menos surpreendente.

Mas mesmo com todas essas ressalvas, não consigo ver o set que apresentaste no Indústria como qualquer outra coisa que não um insulto a todos que lá foram porque amam realmente o Hip-Hop e queriam ver uma das suas personagens mais importantes a trabalhar nas famosas rodas de aço.

Não estou a falar, devo realçar, do início do set, em que, começando com o «Rapper’s Delight», passaste em revista todos os clássicos mais óbvios da história do Hip-Hop: «Ante Up», «Ready Or Not» dos Fugees, «C.R.E.A.M.», até o «Gangsta’s Paradise» do Coolio. Que seja: é uma forma rápida e eficaz de chamar o público, e se alguém tem o direito de se congratular com a força criativa ímpar que foi o Hip-Hop ao longo destas últimas três décadas, serás tu.

Nem me admirei muito quando, a seguir, começou a dar o «Back In Black» dos AC/DC e o mui samplado «The Big Beat» de Billy Squier; nos tempos da Old Skool os DJs recorriam de forma frequente a LPs de Hard Rock para batidas, portanto acaba tudo por fazer um certo sentido histórico. Mas a seguir, «Sweet Child O’Mine»? «Smells Like Teen Spirit»? A merda do «Fly Away» do Lenny Kravitz???

E só ficou pior a partir daí. Retirei-me para o fundo da sala, e daí para os sofás, mas posso dizer que ainda me tive de levantar umas cinco vezes para chekar se eras mesmo tu a passar o último som de merda. Se uma pessoa achava que o fundo do poço já tinha sido atingido quando se começou a ouvir Jennifer Lopez, rapidamente ecoava o «Single Ladies» da Beyoncé para nos avisar que ainda podia ser pior. Se uma pessoa se sentia incrédula que o Grandmaster Flash pudesse estar a passar o «The Power» dos Snap!, logo metias o «Let’s Get Retarded» dos Black Eyed Peas para confirmar que não há faixa de Hip-Hop frouxa o suficiente para não estar no teu repertório, desde que se insira nas tabelas de êxitos. E à medida que a noite prosseguia, lá entrávamos num degredo tamanho que, quando o azeite do ano «We No Speak Americano» de Yolanda Be Cool começou a ecoar das colunas, uma pessoa já nem tinha a energia de sentir revolta.

E o que é verdadeiramente triste aqui é que nada disso era necessário. Prova disso foram os DJs de abertura que, apesar de um ou outro prego e/ou passagem menos feliz, conseguiram fazer um excelente e ecléctico set, abrindo desde já com uma data de faixas Old Skool e passando em revista clássicos e obscuridades das últimas três décadas num statement coerente e dançável sobre as possibilidades do Hip-Hop. Bem soube ouvir outra vez o «Pop Shots» do Ol’ Dirty Bastard, bem como faixas do “The Grind Date” dos De La Soul, facilmente um dos melhores álbuns lançados por veteranos do estilo na última década. Prova disso também foi o público, cheio de boa vontade e entusiasmo, que facilmente poderia ter sido levado por um caminho melhor. Não reparaste na euforia que se largou pela primeira fila quando passaste Wu-Tang Clan? Não viste que, nessa noite no Indústria, houve raparigas giras em vestidos de marca a reagir ao «Ante Up» dos M.O.P. com o entusiasmo de ex-presidiários de Brooklyn? A Europa, Portugal e o Porto já sabem o que é o Hip-Hop há uma data de anos, e cai mal essa condescendência com que fomos tratados. Quando o Grandmaster Flash pergunta se queremos ouvir algo Old Skool, estamos à espera de Threatcherous Three, Funky Four Plus One, Spoonie Gee – e não do «Stayin’ Alive» dos Bee Gees.

Levaste a sala ao rubro, é certo. Há fãs que perdoam mais que eu, e para além disso há o público que lá estava provavelmente sem fazer a menor ideia de quem tu és, uma coisa inevitável num clube nocturno. Mas duvido que eu seja a única pessoa a quem estragaste a noite e, pela tua cara de estou-aqui-porque-fui-obrigado e pelas monótonas e agressivas ordens para metermos as mãos no ar (sem nos dar sequer a opção de as abanar como se não quiséssemos saber), também não te divertiste por aí além. Para quem tem mesmo interesse em ouvir um set composto pelas faixas mais óbvias e gastas dos anos 70, 89, 90 e 00, há os piores bares da Baixa, que sempre oferecem preços mais competitivos do que os 15 euros necessários para ir ver-te. Não falhou a boa organização da 1ª linha, não falhou o espaço, não falhou o público – falhou o artista. Um último conselho, Grandmaster – se é mesmo esta a tua linha (branca) nos tempos próximos, volta cá lá por Maio; há uma cena chamada “Queima das Fitas”, que deverá ser do teu total agrado.



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