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Franca França

A bordo do diário.

Acorda, com mais de vinte anos, junto a uma cidade ensolarada a espreguiçar-se através do branco de suas construções: Marselha. Franca França. Quais serão os caminhos a serem delineados junto a esta cidade, tão ao sul? Como será isto de nova ser num país e querer absorver os detalhes todos?

Aterra, coloca a mochila nas costas, sobe ao autocarro, desce ao metro, chega ao Porto Velho. Cafés e conversas com gente a tomá-las, ruas a perder e a achar. Barcos, tantos brancos barcos a descansarem. Chega noite a encobrir o dia, mostra o que não se vê ao claro céu: gente que procura por algo deixado por outrem ao lixo. Anda, anda e, ao longe, vê o gótico estampado em duas torres: a Igreja São Vicente de Paulo, fixada à Rue Adolphe Thries. Senta, embriaga-se das novas imagens e dos carros que passam. Levanta-se, segue à Rue Cours Julien, de onde brotam árvores, pessoas e bares. Demora-se um bocado e vai. Volta ao Porto Velho, põe-se a olhar os barcos refletidos no Mediterrâneo. Frio.

Marselha

Acorda ao dia outro a ver a cidade a descortinar-se aos pés dum antigo forte, mudado à basílica desde 1864: Notre-Dame de la Garde. Tempo fica muito a olhar a cidade do alto; apercebe-se do Castelo de If, prisão desativada desde o século 19, conhecida através das personagens de Alexandre Dumas, no livro “O Conde de Monte-Cristo”. Segue o caminho a chegar ao forte Saint-Nicola: deita, absorve o sol, mira o trânsito lá em baixo. Luz quase a esconder-se, dirige-se ao Porte de L’Orient, monumento erguido em memória de soldados que morreram em norte da África. Vê o sol a ir-se. Faz o caminho inverso, a voltar. Desce escadas, vai à praia e põe as mãos ao Mediterrâneo: duas pessoas a banho tomarem, num universo de pessoas em casacos a sentarem na areia, a ver, rever, olhar. Volta a falar acerca das experiências e saudades com os amigos.

Decidem por ir ao lado outro do Porto Velho: sentam-se em bancos a observarem a chuva a cair e os estabelecimentos a se despedirem. Muito há de se ver na terceira (ou na segunda) maior cidade da França. Um dia faz-se pouco.

De costas na mochila, segue com o comboio à cidade de Montpellier, localizada a aproximadamente duas horas de Marselha. Chega acompanhada do sol à cidade onde as ruas se confundem com as calçadas. Toma um café junto à estação, descansa para se cansar. Saúda o positivista Auguste Comte através da casa onde nasceu, em 1798, na Rue de la Merci. Arranja um mapa e se leva à Antígona. De antiga, Antígona é recente na cidade. Como o nome sugere, o espaço é composto de prédios com estilo inspirado em arquitetura da Grécia antiga. Mergulha em contrastes: da estreiteza das ruas próximas ao Arco do Triunfo à amplitude da Antígona; da quantidade de gente que circula num e noutro local – mais e menos, respectivamente. No entanto, silêncio nos dois lugares. Barulho de sapatos a serem arrastados ao chão, de conversas num tom baixo, quase que num sussurro. Volta e vai, à noite, ao Le Jam, uma das casas de espectáculo que a cidade mais conhece. A programação, por ou não por acaso, era o quarto Festival de Musique Bresilienne. Após sambar, pular e cantar junto, volta, a dormir.

Acorda com o sol ainda baixo, a crescer e nascer, e segue a andar e ver Montpellier. Passa à Prefeitura, à Praça da Comédia e se dirige à catedral Saint Pierre, que até 1565, aproximadamente, se constituía como capela do Mosteiro de Saint-Benoit – hoje Faculdade de Medicina mais antiga do mundo. É um espaço que conjuga faculdade e igreja, portanto. Atravessa o Jardim das Plantas, a ver o nome e das espécies das “meninas” flores – que mesmo ao frio insistem em colorir o verde – e dá a volta na cidade-círculo, permeada de constantes bicicletas e pessoas a versarem acerca de seus assuntos particulares.

Despede-se, alcança o trem e chega numa Lyon anoitecida. Leva-se a andar numa manhã de neblinas: chega à basílica de Notre-Dame de Fourvière, construída com uma visão privilegiada da cidade, em 1875 – aproximadamente. Fica um tanto a olhar as minúcias das construções conjugadas e coloridas, separadas por ruas e rios. Desce o Parc dês Hauters, bem como as escadas do Montée dos Chazeux, e chega à Rua Saint-Jean, que leva o nome da catedral da cidade. Passa por lojas com artefactos turísticos, livros e o que mais quiser se achar, à venda. Toma um café, atravessa o Rio Saône e chega ao jardim do Museu de Belas Artes da cidade, que conta com estátuas muitas afeitas às estruturas da construção. Passa pela Praça Bellecour, onde uma roda-gigante pode ser vista à metade, a ser montada para a Fête des Lumiéres, a se realizar a partir do dia oito de dezembro. Tanto quanto cantos passa, celebra e reflete. A pé, a cidade se descortina aos olhos mais lentamente.

Lyon

Noutro dia, anda e anda a atravessar o Rio Ródano e a conhecer este lado da cidade. Chega ao Museu Lumière, onde se encontram as invenções de Auguste e Louis Lumière, dentre elas o cinematógrafo – primeiro equipamento capaz de gravar imagens em movimento e que, consequentemente, deu origem ao cinema. O museu, que é a casa onde os Lumière viviam e criavam seus aparelhos – não só no que se refere às imagens, mas também a artefactos técnicos utilizados no pós-guerra, como mãos mecânicas –, faz parte do Instituto de Cinema Lumière, que também organiza festivais e actividades ligadas à sétima arte. À noite, é possível frequentar bares que funcionam dentro de barcos à margem do Rio Ródano. Dum lado o rio, do outro o cimento. O que também é passível de um destaque são os clubes de jazz, como o Hot Club, fundado em 1948, localizado numa alcova na Rua Lanterne. Pequenos lugares, de sons a serem ouvidos por pessoas que se sentam, a bebericar, apreciar e aplaudir.

O bairro Guillotièrre também se faz interessante a quem se propõe a perceber uma dinâmica outra da cidade: há o comércio que ferve o movimento, as pessoas que sentam em praças a observar e, ocasionalmente, a pedir dinheiro. Há, ainda, isto de passar a corrente da saudação bonjour, com os dentes a serem mostrados. Há, ainda, do lado oposto da cidade, na Antiga Lyon, as ruínas de dois teatros romanos. Actualmente, o teatro comporta dez mil pessoas, em média, e é utilizado para concertos. O que veria e pensaria sobre a cidade Antoine Saint-Exupéry, nascido da cidade em 1900, de seu avião a andar lá por cima? Princesas e príncipes nascem na delicadeza e aspereza dos dias.

No branco duma folha imaginária, despede-se do texto e destas três cidades que respiram uma gentileza contida, um riso esboçado. O que é diferente? São os ares, as cores, as expressões de um povo de riso e vozes contidas a ocultarem algo de não se sabe o quê.

Fotografias por Isa Paula Morais.



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