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Spitx

Estreou no Maria Matos Teatro Municipal, no passado dia 18 de Dezembro, a peça “Spitx”, da Mala Voadora, estrutura de criação associada à ZDB, com direcção de Miguel Loureiro.

Em “O decisivo na política não é o pensamento individual, mas a arte de pensar a cabeça dos outros (disse Brecht)”, de 2008, a Mala Voadora, aglomerou, num texto único fragmentos de discursos políticos, escolhidos entre os mais populares de líderes de todas as facções, do que resultou a sua perda de sentido e consequente anedotismo.

Em, “Spitx” somos, mais uma vez confrontados com o universo da retórica partidária. Porém, agora, a Mala Voadora opta por explorar a faceta humana do discurso, ou seja, a fragilidade dos seus autores, a incoerência entre expressões grandiosas e revolucionárias e as figuras de carne e osso que as enunciam.
“Spitx” evoca as figuras de Salazar, Mussolini, Allende e Bonaparte. Utiliza apenas palavras quase soltas, ou frases muito curtas. Os dispositivos utilizados para imprimir dramatismo à peça são da esfera da cenografia e da gestualidade, mais do que da palavra.

A sala de ensaios do Maria Matos, Teatro Municipal veste-se de branco. A analogia com o white cube da História da Arte é inevitável. Esse espaço fechado e neutro que empresta sacralidade a tudo o que nele é exposto, é mimetizado para acolher uma mesa, uma cadeira, um homem e uma mulher, também eles automaticamente imbuidos de uma aura de “sobrehumanidade” ou “hiperhumanidade”. No entanto, a interpretação destas figuras mediáticas é tão simplesmente quotidiana, que o espaço e os personagens entram em conflito, criando uma tensão que enriquece a peça.

Aqui o que interessa é o homem (ou os homens) imaginado no espaço íntimo do seu gabinete a preparar momentos que (hoje sabemos) mudarão o curso da História. Assim, todo o enredo se desenvolve em torno da noção de preparação e ensaio, logo, da noção de ficção ou, no extremo, de falsidade.

Em cena no Maria Matos Teatro Municipal até 21 de Dezembro, “Spitx” evidencia o hiato entre palavras e acções, intenções e resultados, que tem vindo a marcar o percurso das “pólis” modernas e contemporâneas.



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