Boa Noite e Boa Sorte

O segundo trabalho de George Clooney em análise.

Esta segunda experiência de George Clooney na realização surge numa altura especialmente próspera em filmes de intervenção, políticos ou sobre temas ditos fracturantes, e é claramente um dos que mais importa destacar e valorizar.

Pela inteligência da abordagem, que concentra quase toda a acção no espaço exíguo e fechado duma estação televisiva, imprimindo assim um ritmo trepidante aos acontecimentos que se sucedem, ao mesmo tempo que cria a ilusão de se estar a assistir quase em tempo real ao desenrolar do fascinante duelo de ideias entre o jornalista Edward R. Murrow e o senador McCarthy, na época da «Caça às Bruxas».

Através da objectiva de Clooney, os pequenos dilemas e questões de integridade profissional e de ética com que a equipa de jornalistas da CBS se depara a todo o instante, e que se debatem em pequenas trocas de palavras entre colegas e em intervalos de emissão (que surgem sempre de forma credível e espontânea, numa autenticidade de diálogos que só joga a seu favor), adquirem uma espantosa dimensão universal, na medida em que remetem sempre para valores humanos e políticos que ainda hoje permanecem actuais e, porventura, intemporais. O realizador utiliza como veículo da sua inteligentíssima reflexão política uma reconstituição minuciosa dum acontecimento verídico, quase documental na atenção que tem a todos os pormenores e no cuidado em não manipular os factos para servir qualquer paralelismo com a actualidade.

Na verdade, outro realizador talvez não tivesse resistido à tentação de adoptar tácticas cinematográficas menos sérias, sendo que este projecto poder-se-ia ter tornado muito facilmente num ataque primário e manipulador contra a actual administração Bush – mas Clooney elabora uma narrativa sem concessões e, centrando-se apenas nas motivações e dilemas das suas personagens na realidade dos anos 50, o que se consegue em “Boa Noite, e Boa Sorte” é uma profunda e honesta análise da sociedade actual. Não só sobre os direitos dos cidadãos, como também sobre a responsabilidade dos media numa sociedade cada vez mais dominada pelo poder da imagem (e palavra) no televisor.

E o elemento absolutamente decisivo para a eficácia deste notável feito, é a presença carismática e magnética do actor David Strathairn, que na sua brilhante personificação de Edward R. Murrow consegue transmitir uma imagem de completa honestidade de discurso e compôr uma personagem em que acreditamos sempre, e não uma representação irreal de quaisquer ideais.

A elegância da realização clássica de Clooney consegue criar uma envolvência total do espectador na acção, com fabulosos travellings envoltos em fumo de cigarro e de uma magnífica misé en scene que atinge o seu ponto máximo nas sequências de emissão ao vivo de Murrow, onde este confronta as imagens de arquivo do senador McCarthy nos monitores que se encontram à sua frente. Imagens de arquivo que, em mais uma inteligente decisão artística, compõem a personagem secundária mais memorável do filme.

“Boa Noite, e Boa Sorte” não é, contudo, um filme de carga dramática acentuada, o que para muitos espectadores poderá ser um problema sério. Ainda assim, penso que se trata de um filme sempre bastante próximo das suas personagens, embora seja mais cerebral do que emocional. O que não invalida que neste filme de ideias e ideais, todos os pequenos momentos mais dramáticos sejam apresentados com impacto no plano das emoções – estou-me a lembrar, por exemplo, da belíssima sequência da morte de uma das personagens, em que a câmara de Clooney não abdica do seu registo de sobriedade, e de forma inteligente vai buscar uma canção jazz de Diane Reeves para comentar a acção (algo que acontece outras vezes na narrativa), ao mesmo tempo que, muito serenamente, realça o carácter triste e… emocional da sequência.

Que George Clooney consiga abordar todas as difíceis temáticas de “Boa Noite, e Boa Sorte” em complexidade, com uma classe e inteligência sempre estimulantes, e ocupando apenas uns sucintos noventa minutos de duração, constitui prova de que, para além de todos os seus méritos enquanto actor, nasceu aqui um cineasta que vale a pena seguir com particular atenção.



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