Born a Lion

A América na Marinha Grande.

E se Johnny Cash tivesse nascido na Marinha Grande?

A pergunta, lançada assim de forma desarmada, pode parecer absurda. Mas se escutar o álbum de estreia dos Born A Lion, a coisa começa a fazer sentido.

Os Born A Lion são, provavelmente, a grande revelação rock de 2006, um colectivo que nos chega da Marinha Grande em formato power-trio, com o (pouco usual) baterista-vocalista Rodriguez, o baixista Nunez e o guitarrista Melquiadez.

Se os blues necessitassem de uma espécie de licença para serem tocados – uma espécie de curso ou isso –, os Born A Lion seriam daqueles que a tirariam em dois tempos. E essa relação estreita que a banda mantém com os blues, fazem-na manter uma relação de proximidade com todas as suas ramificações.

Os Born A Lion reclamam para si a influência dos clássicos do rock, dos Led Zeppelin aos Black Sabbath, mas também referem os nomes mais recentes de gente como os The Immortal Lee County Killers ou os Danko Jones, por exemplo. E esta referência ao rawk’n’roll nota-se na moldagem suja e crua que fazem ao blues-rock clássico.

Depois de terem sido finalistas da última edição do Termómetro Unplugged e de terem feito a abertura dos Art Brut, os Born A Lion estreiam-se finalmente em disco, com “John Captain”, álbum que sai sob o selo da Rastilho Records, que teima em aparecer ligada aos mais interessantes projectos rock portugueses que têm surgido recentemente.

Em “John Captain” destaca-se o blues-rock de origem claramente norte-americana, não só formal, mas também esteticamente, também em muito devido às composições letristas, que recuperam o imaginário litúrgico norte-americano, o velho oeste e o amor despedaçado pela tragédia humana.

Mas se «John Captain», o single de apresentação do álbum homónimo, desce aos mais profundos recantos da alma americana, temas como «My Black Horse» aproximam-nos mais do rock marcial de uns Sons And Daughters, enquanto que «Lonely Guy» vai beber à fonte hard-rock dos Danko Jones.

Mas o momento alto do álbum chega com «67 Cadillac», segundo tema do disco a contar com a presença de Paulo Furtado (o outro é «My Black Horse», onde o líder dos Wraygunn empresta a sua slide guitar), onde os níveis de electricidade atingem níveis perigosos, perto da histeria blues-punk dos Blues Explosion. E para rematar “John Captain”, nada como experimentar o gospel, com «Jailbraik», canção onde quase conseguimos escutar os coros afro-americanos nos campos de algodão do Mississipi.

Johnny Cash não nasceu na Marinha Grande, mas os Born A Lion poderiam muito bem ter nascido nos Estados Unidos. Por cá, arriscam-se a tornarem-se num caso sério no cenário blues-rock português. Paulo Furtado já não está sozinho.

Tendo como pretexto o disco de estreia, a Rua de Baixo esteve à conversa com os Born A Lion:

Quem são os Born A Lion? Terá o nome alguma coisa a ver com os Danko Jones?

Grande parte das nossas influências provêm de bandas maioritariamente das décadas de 60 e 70. São mesmo as nossas maiores influências, em termos de hard-rock e o heavy metal setentista. Temos também muitas influências do blues mais profundo, que é ainda mais antigo. Todos crescemos a ouvir esses tipos de música. Contudo, não era só antigamente que se fazia boa música… Há imensas bandas actuais que nós adoramos! Danko Jones é uma dessas bandas. Mas respondendo à pergunta, não nos chamamos Born A Lion por influência de Danko Jones!!!

E o John Captain, quem é?

John Captain é um pouco de todos nós… É o homem que sofre com um desgosto de amor… o maior desgosto da sua vida. Penso que todos nos identificamos um pouco com o John Captain.

No vosso disco fala-se de armas, cavalos, corações despedaçados e pactos com o Diabo. Em suma, fala-se de blues, gospel e american-folk. Como é que um trio da Marinha Grande trava um contacto tão próximo com a América profunda?

Como disse anteriormente, essas sempre foram as nossas influências. Por isso é natural que a música que retratamos se baseie nesses tipos de música.

Como é que surge a participação do Paulo Furtado no vosso disco?

Neste momento, no panorama musical nacional, o Paulo Furtado é, sem dúvida, o nosso artista preferido, pelo tipo de música que faz. É excelente! E foi logo a nossa escolha como convidado. Foi uma grande experiência! Adorámos!

Com um disco de estreia como “John Captain”, parecem-me com validade mais do que suficiente para responder a uma pergunta complicada: como está o rock em Portugal?

O panorama musical português, incluindo o rock, encontra-se numa fase muito positiva. Muitos projectos de grande qualidade têm surgido nos últimos tempos e esperamos que essa tendência continue. Contudo, notamos ainda muitas dificuldades em vários aspectos, como a divulgação, a falta de boas casas para fazer concertos pelo país, etc.

Ainda há muito trabalho pela frente para melhorar o estado da música em Portugal. O talento existe, sem dúvida. Agora falta o resto. E temos que ser cada um de nós a lutar para que isso mude!

Poderá a internacionalização ser uma solução?

Sem dúvida!

Já alguma vez vos criticaram de alguma forma por cantarem em inglês?

Não… e não vejo razão para o criticarem. É uma opção. Não é nada contra a nossa língua, ou o nosso país. É apenas isso. Uma opção!

Este ano, ainda antes do lançamento do álbum, abriram a actuação dos Art Brut, após um respeitável terceiro lugar no Termómetro Unplugged. Quais são agora os próximos passos dos Born A Lion?

A actuação com os Art Brut é algo que nunca nos iremos esquecer. Até porque ficámos amigos deles. Foi uma oportunidade única dada por um grande amigo nosso, o Carlos Matos, organizador do festival Fade In.

A participação no Termómetro também foi inesquecível! Foram todos acontecimentos que nos serviram para enriquecer como banda e como pessoas. Os próximos passos serão, sem dúvida, continuar a trabalhar como temos feito até aqui. E lutar para conseguir fazer aquilo que mais gostamos.

E das experiências que têm tido até agora, como tem sido a recepção do público a “John Captain?

Regra geral tem sido boa. Está ainda no início, mas está a ser bastante positiva. Esperamos que continue assim. E que ainda fique melhor!



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