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Camomila ao vento #7

Unidade na diversidade. Selva Amazónica.

Tantas vezes apelidada de pulmão do planeta Terra, a selva amazónica compreende a maior biodiversidade de fauna e flora do mundo e representa um legado cultural e histórico difícil de igualar.

A minha viagem começou nos Estados Unidos, mas a descida à Amazónia sempre foi uma das metas a alcançar. Tantos documentários assisti sobre esta região do globo, tantos artigos li sobre a sua espiritualidade, tantos testemunhos ouvi de viajantes que se fizeram ao caminho que não faria sentido passar ao lado dela. Tanto o Brasil como a Bolívia albergam parte da grande Amazónia, apesar de a mesma ter características bem distintas em cada um dos países.

A floresta amazónica boliviana é densa, difícil de trilhar e, por isso, reserva alguns perigos. Contudo, é incrivelmente bela, rica e poderosa. A amazónia brasileira, por sua vez, é mais receptiva a turistas porque nos tempos que correm e pelas dificuldades em manterem o poderio dos territórios, os xamãs das tribos têm aberto a comunidade a este contacto com viajantes que se deslocam até aqui para viajarem dentro de si mesmo e retirarem um pouco desta espiritualidade que a natureza proporciona.

A minha experiência não podia ter sido mais incrível e passo a contar.

Durante o período em que fiquei em La Paz conheci um casal de couchsurfers franceses que ficaram hospedados na mesma casa que eu. Gerou-se uma empatia interessante e como tal fomos fazendo alguns dos percursos estabelecidos juntos. Foi precisamente numa dessas visitas que conhecemos um outro viajante, grego, professor de física e tradutor em várias línguas e que se revelou uma dos maiores amantes da vida que alguma vez conheci.

A nós juntou-se um uruguaio, produtor de artesanato, e que estava temporariamente a viver em Coroico, às portas da selva amazónica, numa casa totalmente isolada da civilização. Naturalmente não pude rejeitar o convite de lá ir passar uns dias. A casa não tinha casa de banho nem electricidade. Não havia sinal de telemóvel e muito menos internet. Não havia quartos, apenas alguns colchões antigos espalhados no chão. Havia água porém. Aparte alguns dos aspectos já enumerados, lá estávamos nós, viajantes de diferentes países, desconhecidos praticamente, mas unidos por um gosto comum à natureza, ou se preferirem à pachamama, como lhe chamam nos países sul-americanos de língua espanhola.

Compramos diversos alimentos e muita água na última vila que ficava a caminho da casa e assim fomos abraçando cada planta que encontrávamos, montando puzzles com todas as cores que íamos coleccionando, ouvindo todas as melodias que os animais nos ofereciam, sentindo o toque aveludado do vento, respirando o ar puro.

À chegada à casa o sol praticamente já se tinha despedido. Experienciamos uma noite à luz da fogueira, trocando ideias e projectos, mas sobretudo partilhando o quanto aquela experiência estava a ser reveladora e especial. Mal sabíamos que o melhor estava para vir.

As sensações afloravam a cada momento e a vontade de assistir ao amanhecer impediam-nos de adormecer. Alguma razão haveria para isso. Quando os primeiros raios de sol espreitam por entre as nuvens a beleza desta floresta começa a mostrar de si.

As flores começam a desabrochar lentamente num despertar tranquilo, as folhas desenrolam-se para receber o sol. Ao longe vêem-se as montanhas a libertar o vapor de água e pequenos aglomerados verde fluorescente onde o sol já bate com intensidade. As plantas de coca surgem em cada colina e a fruta nasce em cada árvore, sumarenta e pronta a ser degustada.

No céu as águias exibem o seu porte e na terra ouvem-se javalis roncar. Cá em baixo no vale a água do rio corre sem parar, purificando a água que é habitat para centenas de espécies diferentes. Tudo parece coabitar numa perfeita fusão.

Quase não há habitantes por aqui e os poucos que restam são indígenas resistentes que não abdicam desta tranquilidade. É incrível perceber o quanto são felizes com pouco. Caminham descalços, com penas coloridas presas ao cabelo, comem do que a terra lhes dá, vivem em pequenas casas construídas com recursos locais e muito esforço, e incrivelmente não se queixam de nada.

Fumam tabaco natural que colhem e cortam aos pedaços, usam folha de banana para enrolar o cigarro, acendem com um pedaço de cinza da fogueira. Poucas coisas constituem obstáculos quando se tem o mais importante: sabedoria. É certo que esta é empírica, mas no fundo uma teoria só ganha realmente importância quando provada na prática.

Posso hoje afirmar que ter estado aqui me fez mais que nunca ficar em paz comigo mesma. Reencontrei-me, reencontrei as minhas raízes, experimentei o quanto é necessário ouvirmo-nos a nós mesmos e às necessidades de um eu colectivo que sou eu, são vocês que estão a ler, é a natureza.

Lembrem-se temos que promover a unidade na diversidade e isso é a lição que tiram de uma passagem pela selva amazónica.

Ilustração de Isabel Salvado



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