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Camomila ao vento #1

Um mês nos Estados Unidos…

Falar dos Estados Unidos da América é recuperar marcas, sítios e referências que nos são trazidos diariamente através dos meios de comunicação social. Do cinema, à música, passando pelos programas de televisão, a cultura norte-americana é algo que todos nós acreditamos conhecer, mas a verdade é que o país do Tio Sam é muito mais do que Starbucks, Hollywood, baseball ou fast-food. Tudo depende do que vamos à procura.

A minha aventura começou em Nova Iorque, uma cidade etnicamente diversificada que tem tanto para ver como para fazer. Frenética como todos a conhecemos, a Big Apple está recheada de locais famosos como a Ponte de Brooklyn, o Empire State Building ou a Estátua da Liberdade. Contudo e porque todos estes locais podem ser encontrados num guia turístico, ou então ouvindo o tema “New York” de Alicia Keys, vou limitar-me a aconselhar-vos alguns pontos distantes da confusão característica da Times Square onde até a M&M’s tem um shopping, imaginem. Para que tenham um dia perfeito, sugiro que comecem com uma caminhada pelo Central Park. Apesar do ar comercial da entrada, garanto-vos que existem alguns lagos e alguns trilhos que valem a pena ser explorados. Se possível, levem convosco o almoço, que podem comprar em pequenas lojas com refeições preparadas a preços bem competitivos, e façam um piquenique enquanto desfrutam do ar fresco, bem mais saudável que o mau cheiro habitual do centro urbano. Da parte da tarde desloquem-se até à Greenwich Village, um bairro com uma arquitectura bem pitoresca, pequenos jardins, bons restaurantes, comércio tradicional e uma sensação de paz invulgar.

Utilizada como cenário para as gravações do filme “O Sexo e a Cidade”, a Greenwich Village tem a vantagem de ficar a caminho do porto da cidade, que é, na minha opinião, uma das pérolas de Nova Iorque. A partir daqui é possível observar o rio Hudson e a Ponte de Brooklyn mas também antigas embarcações que se encontram atracadas para visita. Mais afastado do centro da cidade ficam os bairros do Bronx e Queens, duas zonas culturalmente ricas onde poderão conhecer os hábitos locais e assistir a um bom concerto de jazz ou a um espectáculo de comédia.

O ponto seguinte na minha viagem foi a cidade de Las Vegas ou a Sin City como ficou conhecida devido à sua reputação. Luminosa, extravagante, barulhenta, movimentada, Las Vegas é a cidade das aparências. Aqui joga-se póker até dentro da piscina, gasta-se dinheiro em clubes de strip, aposta-se em cavalos e em tudo o que mexa, bebe-se até cair para o lado, levam-se os sapatos das meninas à mão porque não há pernas que aguentem e no final da viagem o que aconteceu em Vegas ficou por aqui. É esta a filosofia e é por isso movimenta tanto dinheiro. Mas apesar de todas estas loucuras, e de muitas outras que acontecem mas que o turista normal não tem acesso porque não tem conta bancária para isso, a verdade é que Las Vegas pode ser interessante do ponto de vista dos espectáculos que apresenta. Alguns são gratuitos e oferecidos pelos próprios hotéis como é o caso do Bellagio que de meia em meia hora nos faz vibrar com a grandiosidade dos chafarizes à entrada, outros são pagos mas valem a pena. Durante a minha estadia tive a oportunidade de assistir ao La Rêve, um espectáculo que acontece todas as noites no Wynn Hotel e que é há cinco anos considerado o melhor espectáculo de Las Vegas. É imponente, é imprevisível, tem tanto de belo como de ágil e é uma experiência totalmente diferente. Investiguem.

Depois de duas cidades tão carismáticas, a viagem teve como próximo destino Los Angeles. Esta é considerada a maior cidade do estado da Califórnia e acreditem é tão diversificada que podem encontrar montanhas, praias, longas avenidas, a famosa Century City produtora de cinema, zonas comerciais, Chinatown, Little Italy, bairros mexicanos, lagos, canais de água, tudo. Basta escolher o vosso preferido e a parte boa é que o bom tempo parece ajudar quase todo o ano. Aliás deve ser por essa razão que têm uma praia chamada Muscle Beach, em Venice, onde o culto do corpo está tão implementado e a actividade física é tão recorrente. Ou isso ou porque aqui costumavam ser gravadas as cenas da série Marés Vivas que imortalizou Pamela Anderson. Mas voltando atrás, em Los Angeles não deixem de visitar a Downtown.

Contrariamente ao conceito normal de baixa da cidade, aqui quase não há trânsito e quase não há gente a passear na rua, mas em compensação existem locais únicos como o Bradburry Building. Visto do exterior parece igual a tantos outros, mas o seu interior deixa-nos perplexos. Todo trabalhado em ferro, o edifício existe desde o início do século XIX e tem um elevador bem antigo que nos transporta no tempo. Num estilo mais moderno encontra-se o Concert Hall, responsável pelo agendamento de alguns dos melhores concertos de Jazz e World Music da cidade, e a partir do qual é possível ter uma boa vista do centro da cidade. Mas se o objectivo é ter uma boa visão global de LA não deixem de ir ao Griffith Observatory. Localizado bem no topo do Griffith Park, este edifício permite-nos ver a Lua e a superfície de Vénus através dos potentes telescópios disponibilizados a título gratuito, mas também nos permite ter uma visão apoteótica da dimensão de Los Angeles ao final do dia. Finalmente se gostam de praia não deixem de passear por Santa Monica e por Venice Beach que por sua vez fica bem perto da marina e dos canais construídos artificialmente.

Mais uma vez, malas às costas, desta feita para o frio de Seattle, a terra do grunge. Localizada bem a norte, quase na fronteira com o Canadá, nota-se que Seattle não é propriamente um centro turístico como Nova Iorque. Talvez tenha sido este lado mais underground, mais próximo da realidade norte-americana, que me tenha feito gostar tanto da cidade. Aqui, apesar das atracções características como o Experience Music Project ou o Space Needle, a cidade tem um brilho especial na West Edge onde estão localizados os edifícios mais antigos e onde a vida social dos habitantes realmente acontece. Há muitos bares com concertos ao vivo, como o 3rd Door e o 7 Studio, há o Museu de Arte Contemporânea com a exposição de Kurt Cobain em destaque, e há sobretudo uma cultura revolucionária que faz com que Seattle seja a cidade do Hemp Fest. Este é o maior festival a favor da legalização da marijuana, acontece durante um fim-de-semana e a audiência ronda os 30 mil visitantes imaginem. Se tiverem a oportunidade de aqui vir façam-nos. Além de participarem num evento diferente do habitual irão conhecer gente muito interessante e perceber a realidade de um país onde muitos consomem erva legalmente por razões medicinais.

De regresso à Califórnia decidi alugar um carro e percorrer um pouco da costa do pacífico em busca de vilas piscatórias e locais menos turísticos. Fruto de algumas sugestões dadas por amigos que fui conhecendo ao longo da viagem, nomeadamente através do Couchsurfing tracei um percurso que começou em Santa Cruz, a terra dos surfistas, seguiu para Monterey Bay e Carmel-By-The-Sea e terminou no Yosemite National Park. Se Santa Cruz me marcou devido ao Mystery Spot – um local com um campo electromagnético diferente do vulgar onde as leis da gravidade são contrariadas e a noção de equilíbrio parece mudar. Ilusão de óptica? Não me parece! – o Yosemite National Park marcou-me como nenhum outro parque. É místico, é imponente, é espiritual, é uma porta de entrada no coração da natureza para daí retirarmos o que de mais puro e belo tem. A densidade da floresta é de cortar a respiração, existem sequóias com anos e anos de existência, uma enorme biodiversidade de fauna e flora, para não falar que a vista através do Glaciar Point é estonteante. Ah, e se ficarem por lá uma noite, experimentem sentar-se cá fora, embrulhados numa manta só a ver as estrelas. Eu fiz isso mas juntei-lhe uma taça tibetana para que a experiência fosse ainda mais simbólica.

A viagem nos Estados Unidos aqui contada na primeira pessoa termina em San Francisco. Associada ao movimento hippie dos anos 60, esta cidade não tem preconceitos, nem tabus. É a cidade dos gays por natureza, perguntem a qualquer norte-americano que ele dar-vos-á esta resposta, mas é também a cidade com mais desalojados por metro quadrado onde alguma vez estive. Clássica pelos seus altos e baixos, pela vermelha Golden Gate Bridge e pela ilha de Alcatraz em tempos usada como prisão, San Francisco é uma tentação para quem como eu gosta de conversar com a população local. A informalidade com que se é tratado nas lojas, nos restaurantes, na rua é contagiante e por isso fazer amigos aqui é coisa fácil. Eu, por exemplo, com um simples sorriso conquistei uma senhora na casa dos 50 que é uma verdadeira comédia e que em alguns minutos me apresentou a um mexicano, um argentino e uma vendedora norte-americana. Já na Castro District, a zona marcadamente gay, onde também conheci gente bem simpática e divertida, tive uma das experiências mais hilariantes desta passagem pelos Estados unidos. Os bares deste quarteirão têm uns ecrãs que em vez de transmitirem vulgos programas de televisão estão permanentemente a transmitir uma espécie de filme pornográfico gay não explícito que serve de estímulo aos muitos homens que aqui vêm exclusivamente para o engate. Bem, não há dúvida que em San Francisco todos estão autorizados a serem o que quiserem.

No próximo artigo vou desvendar-vos a minha experiência no Burning Man, o maior festival artístico do mundo que serve de inspiração para inúmeros mercados mundiais na área do design, das artes, da moda e da arquitectura, mas também os primeiros dias no estado da Bahia, no Brasil. Estejam atentos!

Ilustração de Isabel Salvado



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