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Capitães da Areia e João Só e Os Abandonados

Musicbox, 11 de Fevereiro de 2010.

Nunca como na noite de onze de Fevereiro a sala do Musicbox transpirou, que me lembre, tamanha jovialidade, excesso dela até. O motivo da miudagem, maioritariamente concentrada entre os 17 e 22 anos, até à sala lisboeta prendia-se com duas das novas graças emergentes no panorama musical nacional. Capitães da Areia, da independente Amor Fúria, e a mais recente aposta da Valentim de Carvalho, João Só e Os Abandonados foram o programa que alistou na noite tanta nova gente pelo espaço do Cais do Sodré.

Capitães da Areia é nome novelesco ou literário; fica no ouvido facilmente, tal qual a sua sonoridade. E nesta noite apresentaram, mesmo que inconscientemente, resposta ao real motivo pelo qual a pop de 80, que repercutiu pelo movimento new wave, e vice-versa, alguma da sua frescura, ainda poderá fazer algum sentido nesta nova década. A musicalidade que emana do projecto é leve e audaz, leva-nos de uns Heróis do Mar a Duran Duran, passando ao de leve por um certo tropicalismo que gera a ritmica vibracional e instrumental de uns Vampire Weekend. Talvez sejam estas as suas referências, são , pelo menos, as que se instalam no enquadramento imediato e mais sensorial da mente.

«Capitão Bomba» tem na voz do jovem Pedro a afirmação de algum do esplendor que popularizou o espírito catalisador do chamado boom pop rock alternativo nacional de 80. António, no tambor, e Fred, nas teclas, animam o sentido mais intrínseco do estilo, em «Portas do Sol» e «Senhora», que Pedro dedica “às mulheres que não têm a nossa idade”.

«Raparigas» e «Feira» recuperam, especialmente a última, o traço do melhor que a pop teve em gerações anteriores – em sobriedade musical mas também, em doses controladas, reactiva – e que permitiu à música cantada em português uma dimensão cada vez mais europeia.

O projecto que se seguiu – João Só e Os Abandonados- tem presentemente por cá considerável hype em quase todas as rádios. Justo ou não, convirá decerto tentar perceber, ao vivo, porque tal assim acontece.

Bastou ouvir as duas primeiras músicas – «Anda daí», «Cresce e Desaparece» – para se (sub)entender propósito de tanto histerismo. Se, entre outros aspectos, o que sempre cunhou à pop tal designação foram ingredientes como: letras que facilmente se fixam na memória e trauteiam, refrões astutos e um sentido de percepção rápida do que faz uma simples letra soar uma boa canção pop(ular), então João Só está no bom caminho. Todos os predicados que fazem as reconhecidas canções pop parecem reunidos.

Pela sua dinâmica musical sente-se um Rui Veloso ou Elvis Costello. Onde? No modo simples de encarar a métrica, a sonoridade e o enlevo temático que norteiam as suas músicas. Se o objectivo é traçado antes do começo, então João Só e os seus Abandonados conseguem-no e revelam-se bons instrumentistas ao pô-lo em prática.

«A Marte» tem trocadilho audacioso, recurso de estilo ponderado e premente e, ao vivo, João intensificou-o expressivamente.

Ainda se ouviram «Amor Fúria», «Coisas desse Género», «Meu Bem», «Alegrias Disfarçadas», «Canção de Isqueiro» e «Fogo».

Voltariam no encore a repetir, para delírio da jovem plateia maioritariamente feminina, o hit «Meu Bem».

O público acompanhou, dançou, bateu palmas. Esteve divertido num concerto que poderá significar mais duas confirmações na senda musical actual. Uma, saída sob o selo da independente Amor Fúria.



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