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Coração Independente

Se uma Joana surpreende muita gente, duas alcançam muito mais. Vasconcelos e Cunha Ferreira: as Joanas de "Coração independente".

Joana Cunha Ferreira realizou, durante cerca de um ano (2007/2008), o documentário “Coração Independente”, uma co-produção da Midas Filmes com a RTP2, sobre o trabalho da artista Joana Vasconcelos. Passou pelo cinema nacional, mundial (Festival ArteCinema, em Nápoles) e pela televisão. Passou também pela cumplicidade que criaram, e mantêm.

Ao “ancorar” no atelier entreaberto de Joana Vasconcelos, não sabemos ainda onde e como pode ser organizada tanta obra com as dimensões das que se conhece da artista. Mas isso, aqui, não chega a ser uma questão: Joana Vasconcelos (JV) resolve de imediato as apresentações (in)formais. Percorremos o espaço, conhecemos o horizonte fluvial dos que lá trabalham e perdemo-nos por salas temáticas e amplas, direccionadas aos diferentes elementos materiais ou humanos, que cada etapa da sua obra requer.

Joana Cunha Ferreira (JCF) já está por lá, e parece que nunca de lá saiu. Passou a fazer parte de uma família laboral, com direito a sala de Yoga matutino, que aqui reside a maior parte do dia, separada por funções, mas organizada por acções.

Estão à espera dos “senhores”, que vêm buscar antecipadamente as obras para a mostra de Paris. Espalhadas pelo chão, ordem arbitrária, dispostas a propósito, cor e assunto ostentados por todo o hall… a equipa de Joana Vasconcelos está pronta para a selecção dos artefactos que vão viajar e habituou-se ao frenesim mediático que costuma assolar o atelier, em vésperas de exposição. Reage com “muita tranquilidade” à falta de tempo e energia que seria de esperar numa condição precoce, como esta, e lidam com alterações ou novidades de última hora, como se já previssem muitas mais pela frente.

E tudo isto… deu um documentário?

JCF: Não foi ideia minha, foi do meu produtor, Pedro Borges, com quem trabalho. A Midas tinha aberto há pouco tempo e ele queria fazer um primeiro filme, de uma série de documentários, sobre jovens artistas portugueses. Fui ter com a Joana ao atelier. Já nos conhecíamos das “vidas lisboetas”. Fui-me pondo num cantinho até se habituarem a mim. Foi assim.

JV: Já tínhamos sentido a necessidade de haver um documentário, que registasse os episódios que iam acontecendo no atelier. Com a falta de recursos e tempo, tínhamos pena de não ter algumas coisas gravadas. Foi preciso um período de habituação. Não estávamos acostumados à câmara, mas a Joana foi-se deixando estar por ali e, ao fim de uns tempos, a câmara já era normal, já fazia parte das nossas vidas. Foi com muita calma e paciência para nos aturar… E eu sei que não é fácil! Já aconteceu não se conseguir criar uma relação entre equipa e câmara.

JCF: Eu comecei sozinha, para não ser demasiado impositiva a presença duma equipa de rodagem num atelier com pessoas que estão a trabalhar: é perturbante; e para que se habituassem ao facto de ali estar, e que as coisas fossem feitas porque têm de ser feitas, não por eu ou a câmara estarmos presentes.

JV: Toda a gente achou que devia ter sido mais cinema, menos realista. Essa foi a grande crítica ao documentário. Mas o que aconteceu foi que a Joana viu e fez parte de coisas que nunca ninguém de fora tinha visto ou presenciado. São elementos que no cinema não aparecem e que aqui, a certo ponto, se tornaram numa sinceridade e generosidade recíproca. O documentário é autêntico e despretensioso.

“Só desisto quando é impossível fazer”, dizes no “Coração Independente”. Ainda te enervas com a expressão “Não dá!”?

JCF: A Joana enerva-se com tudo, e com a idade só vai piorar… (risos)

JV: Não… o “não dá” cria uma série de dificuldades. O melhor exemplo disso são os 200 portugueses inscritos, num recente concurso para astronomia, candidatos a astronautas! Todos os projectos com pés e cabeça, que tenham possibilidade de existir, devem ser deixados crescer. Há de facto uma série de condicionantes (económicos, espaciais, temporais) que o podem contrariar, mas começar-se pela negação é cortar-se um projecto à nascença. O fazer é fundamental. Se na minha cabeça o projecto já está fechado, se já fiz todo o processo mental… como é que não dá? O que é difícil é fazer as pessoas acreditar em projectos que nunca antes foram feitos e não têm nada igual com que se comparar. Aconteceu inúmeras vezes: com a construção do sapato, com a Torre de Belém, com os castiçais, etc. Para mim já não é um desafio… se já o estou a ver, já está feito. Quebram-se barreiras até conseguir realizar a obra, ou até não conseguir avançar mais. Uma coisa é não ser possível fisicamente; outra é ser possível, mas não ter os meios (dar até dava).

JCF: Como realizadora, se trabalho com alguém que me diz que não dá, eu não forço. Espero que dê; mas são áreas diferentes.

Para ser artista (não) é preciso ser especial?

JV: Não tenho penas, nem vim de Marte. Estudei, mas nem fui especialmente boa aluna. Há quem tenha boas ideias e consiga concretizá-las. Há quem nunca consiga. A grande diferença é a capacidade de trabalho e a vontade de trabalhar. Nós as duas tivemos, temos, e acho que vamos continuar a ter essa vontade. O importante é o trabalho, a perseverança, abraçar um projecto e ir até ao fim. No meu caso, as minhas peças, no caso da Joana Cunha Ferreira o documentário… são 90% de esforço, 10% de inspiração.

Onde vão às compras e o que procuram?

JCF: Não é fácil, ela regateia muito… (risos)

JV: Quando se observa tudo o que se rodeia, está-se sempre atenta. Não sou uma consumidora louca, nem colecciono tudo aquilo que me querem oferecer. Compro aquilo que está predestinado para fazer uma peça. Ando nas feiras, compro crochés, tachos, sapatos… Há sapatos em todo o lado, todo o mundo. Eu e o meu marido, por exemplo, quando vamos a qualquer lado, estipulámos ir sempre ao cinema e comprar, pelo menos, um par de sapatos.

Procuram objectos que as pessoas já não usam?

JV: Não. Vou buscar objectos cuja identidade possa estar a ser esquecida, ou não, mas que fazem parte da nossa cultura. São ícones da cultura do mundo, da identidade humana. Por exemplo: o castiçal, é um objecto conhecido em toda a Europa, mas os japoneses não têm castiçais; sabem o que é o Saqué, nós também, mas por cá não o bebemos, ou só raramente. Há questões que são identidades locais, mas que são transversais nacionais, e reconhecidas por outros povos. Um tacho de arroz há em todo o lado, não é discurso nacional, mas tem um lado de discurso aberto: é sempre um tacho, em qualquer parte do mundo. São peças figurativas e eu particularizo a sua figura etnográfica para um discurso mais amplo. Cá seria uma garrafa de vinho, no Japão o Saqué, em França o Champagne… Não sou uma nacionalista, mas parto daqui. O interessante é mudar a coisa de contexto, de cenário, trocar-lhe as voltas, e as peças aguentarem e manterem a sua dignidade e a potência. Com o sapato foi assim: será que aguenta num jardim? Num museu? Numa feira? E numa galeria… será que vai aguentar? E aguentou. É na abertura de discurso que se descobre a qualidade da peça: quanto mais amplo é o discurso mais a peça comunica.

JCF: Uma coisa pode ser tão particular que se torna generalista.

É importante para um artista “ter obra”. No cinema, ou nas artes plásticas, como se faz para ter obra?

JCF: Eu sei que não comecei como outros começaram. Provavelmente começa-se novo, a ser terceiro assistente numa coisa; vai-se trabalhando, um dia tens uma ideia, consegues escrevê-la, arranjas subsídio, ou um produtor… são processos longuíssimos. Imagino que quanto mais cedo começares, melhor. Há pessoas que só fizeram uma coisa na vida e é maravilhosa… não sei como se faz. Começa-se quando há vontade de começar. Se de facto queres começar, vais atrás das coisas que te interessam, aguentando, aprendendo, acumulando experiência, como em qualquer profissão. No nosso caso, dos cineastas, pode até não haver uma relação directa.

JV: Anda-se à procura de soluções para conseguir trabalhar. O drama é sempre igual: onde é que está o dinheiro? Uns são mais criativos que outros, uns têm mais ou menos sorte, outros subsídios… mas no fundo a grande dificuldade é ter obra. Só quando começas a ter o corpo da obra é que começas a ser visto como autor. Não há uma lógica; o difícil é trabalhar e ter condições para o fazer. E o importante é a qualidade do trabalho. No atelier tento comunicar com todos as pessoas que apareçam. Por encomenda ou inspiração, depende, nada é preestabelecido, mas tento que tudo o que venha à rede seja obra.

É fácil explicar o que se quer, no seio da tua equipa?

JV: Quando as coisas correm mal a primeira coisa a perguntar é “Onde está a Clara?”. É ela que tem as costas largas. (risos)

Desenvolver e ver soluções para as peças é um processo muito difícil. Passa por um trajecto complicado de execução até a peça existir: discutir tecnicamente cada aspecto da montagem, analisar todos os pormenores de construção… Eu parto da realidade para criar uma irrealidade. Depois é o processo ao contrário. Tenho de voltar à realidade para lá chegar. É um confronto meu para conseguir levar um projecto em frente. A ideia da cobra [do sapato], por exemplo, estava dentro de mim, mas não tinha explicado a ideia da escama para a cobra… Às vezes tens as coisas dentro de ti, mas não consegues exteriorizá-las. As minhas peças caminham para uma escala encontrada durante o processo criativo, e afastam o mais possível o bibelô da obra. Por isso tive de encontrar a escala da panela, para poder chegar à escala do sapato. A inveja e o bibelô deviam desaparecer, não servem para nada! (mais risos)

Não foi um “mar de rosas”, nem é, e demorou 15 anos até aqui chegar. Contagia tudo e todos, incansável, fala cinco línguas e tem “pena” de não falar mais. Inspirou o “Coração Independente” de Joana Cunha Ferreira, dos portugueses, e do mundo. Para quem acha que em Portugal “não dá”, Joana Vasconcelos diz que “dá!”.



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