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Correntes d’Escritas

“Cada escritor é um elo”, diz o vereador Luís Diamantino.

Estas correntes são libertadoras… Libertam histórias, criatividade, amizades. E de ano para ano abraçam mais pessoas. “É sempre difícil voltar ao dia-a-dia depois das correntes”, comentava um escritor no último dia do encontro de literatura que decorreu entre 24 e 27 de Fevereiro na Póvoa de Varzim. Só pode ser difícil. Porque o Correntes d’Escritas deixou de ser um encontro. É uma celebração da literatura que reúne uma família com uma elevada taxa de natalidade.

Nos quatros dias da sua 11º edição, o auditório municipal da Póvoa de Varzim não tinha espaço para albergar todos os que queriam assistir às mesas de debate entre escritores, programa central do encontro. E debate será um termo incompleto, porque ali houve espaço para muito mais. Manuel da Silva Ramos, por exemplo, fez uma pequena performance munido de um capacete mineiro, Malangatana cantou, e Onésimo de Almeida fez sitdowncomedy.

Fora do auditório, o Correntes prolongava-se por uma feira do livro que decorreu ao longo de todo o evento, visitas às escolas do concelho, exibições de documentários e até pelo hotel oficial do encontro onde, ao fim do dia, os convidados recitavam poesia, jantavam, tocavam guitarra e cantavam antes de ir dormir (pelo menos os que dormiam).

Os números ilustram bem o sucesso desta edição. Foram 64 escritores, 23 livros lançados (muitos em 1ª edição), 10 mesas de debate, um prémio de edição, e três prémios literários. Destes, há que destacar o prémio Casino da Póvoa atribuído ao romance “Myra”, de Maria Velho da Costa, que não pôde estar presente na cerimónia (por constrangimentos meteorológicos o comboio Lisboa-Porto onde a escritora seguia não chegou ao destino).

O vereador da Cultura da Póvoa, Luís Diamantino, principal impulsionador do encontro, explicou à Rua de Baixo como foi possível transformar o sonho de alguns na realidade de muitos.

O que é o Correntes d’Escritas?

O Correntes d’Escritas é um encontro de escritores que utilizam como matéria prima a língua espanhola e a língua portuguesa. É também um encontro de pessoas que contam histórias, histórias que vêm da América Latina atravessando este mar imenso que nos liga a todos, histórias que trazem as cores da África, e histórias daqueles que estão aqui na Península Ibérica.

É quase uma família…

É mesmo isso, é uma família unida pelas duas línguas que aqui cria elos muito fortes. Cada escritor é um elo que no ano seguinte traz mais escritores. O Mia Couto dizia que “quando estamos aqui sentimo-nos todos acorrentados uns aos outros”… E é verdade, sentimo-nos acorrentados pelos afectos.

Ouvi alguém dizer, há pouco, que é difícil sair das correntes e voltar ao dia-a-dia…

Sim, porque isto é quase um mundo à parte. Embora real, é também um mundo de ficção. Aqui os dois caminhos cruzam-se constantemente.

Como correu esta edição?

Acho que o balanço pode ser feito mais pelos participantes. Mas a organização ficou satisfeita por ver um auditório esgotado em todas as sessões com pessoas sentadas no chão, nas escadas, encostadas à parede…

Têm que arranjar um espaço maior…

De facto, em 2012, vamos ter um espaço novo. A câmara adquiriu o cineteatro Garrett que está a ser totalmente reconstruído e vai ter uma capacidade de 500 lugares sentados, com um palco enorme, um sub palco, espaço para exposições… Além disso é no centro da Póvoa pelo que os escritores poderão passear a pé e ter uma vivência muito maior com a cidade do que agora, porque o auditório municipal é um pouco periférico.

O que mudou desde a primeira edição no ano 2000?

O que mudou foi a projecção que o evento teve. Neste momento temos uma projecção enorme, os meios de comunicação não ficam indiferentes ao Correntes d’Escritas. Posso dizer que nesta semana dei mais entrevistas para órgãos de comunicação, possivelmente, do que dei em toda a minha vida. E está a aumentar de ano para ano, é exponencial. Mudou também a participação do público que todos os anos aumenta. Este ano tivemos seis pessoas que vieram de propósito do Brasil só para assistir ao encontro.

Sem serem convidados…

Sem serem convidados. Marcaram o hotel, estão na Póvoa a assistir ao Correntes, e no fim do encontro vão voltar para casa. Isto é admirável. Há um grupo que vem de Aveiro, de propósito, para vir às Correntes, há pessoas que vêem do Algarve, de Trás-os-Montes. Já é quase uma peregrinação.

É difícil construir um evento desta dimensão?

Quando eu fui para o pelouro da Cultura acreditei que era possível criar um grande evento na área da cultura. A partir daí foi preciso acreditar. Não sou daqueles que têm o discurso do fado, da fatalidade. Não. Temos de acreditar, e quando acreditamos as coisas acontecem. Mas também temos que fazer acontecer. Temos que procurar, que escavar, que arranjar patrocinadores, parcerias…

Quando sair [do cargo de vereador] saio de consciência tranquila  porque acho que deixámos ficar alguma coisa para a continuidade daqueles que vierem e tenho a certeza que nenhum vereador será capaz de acabar com este evento.

Que balanço faz das 11 edições?

Aqui comemoramos os livros, as escritas, de África, da América Latina, de Portugal e Espanha. Tudo misturado. E esta é a grande força das Correntes. As mesas vão muito para além dos temas. O Malangatana, por exemplo, deu-nos um espectáculo que nunca mais ninguém vai esquecer, desde a leitura de poemas, da história “encantatória” que nos contou, da canção que nos cantou. Nas Correntes acontece tudo… para além das actividades paralelas como documentários e exposições, porque a literatura não se esgota no livro.

O que representa o Correntes d’Escritas para a Póvoa?

Em 11 anos de Correntes d’Escritas tivemos para cima de 300 escritores e mais de 250 livros lançados em 1ª edição em Portugal. Mesmo ao longo do ano temos lançamentos contínuos, todos os escritores que vêem a Portugal vêm também à Póvoa de Varzim. O Sepúlveda vem sempre cá, o Mia Couto, o Germano de Almeida. Para nós é um orgulho.

Penso que os municípios devem olhar para a cultura como um meio de excelência para divulgar o seu município. Se eu tivesse que gastar a verba que gasto nas Correntes em publicidade na televisão, nos jornais e noutros meios de comunicação social, não teria o retorno que tenho com a mesma verba neste evento. E portanto há aqui trabalho, dinamização e também uma divulgação cultural da Póvoa de Varzim. É o turismo cultural e temos de apostar cada vez mais nisso.

Qual é o segredo do sucesso das Correntes?

As pessoas que estão na organização fazem-no por puro prazer. O presidente da câmara costuma olhar para mim, nestes dias, e dizer: “ tu tens quatro dias de felicidade plena”. E é verdade. E as outras pessoas, os motoristas, a produção, todos se dedicam de alma e coração. O segredo é este: gostarmos do que fazemos, acreditarmos no que fazemos. E também a simpatia e o prazer que temos em receber com afecto as pessoas que aqui vêm. As pessoas saem daqui com saudades. E depois querem voltar.



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