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daily misconceptions

a mistaken idea or view resulting from a misunderstanding of something

Foi num pequeno quarto nos arredores de Lisboa que a música experimental de João Santos começou a ser criada. Caracterizado por beats electrónicos, efeitos glitchy, melodias suaves e instrumentos tradicionais, o projecto daily misconceptions alia música e ilustrações numa ambiência de profunda subtileza e naturalidade.

Como surge o projecto dos daily misconceptions?

O projecto surge por volta de 2002 em Lisboa, numa altura em que estava afastado das bandas com que tinha inicialmente começado a tocar. O projecto surgiu de forma natural, sem pensar muito em objectivos futuros. A única ideia que tinha em mente era simplesmente fazer a música que me apetecia, sem pensar e sem ter que discutir ou partilhar ideias e opiniões com outras pessoas. Era a minha música e as minhas decisões. Algo por que nunca tinha passado, um caminho novo, desconhecido e estimulante do ponto de vista musical e criativo. Quando o projecto arrancou eu estava ligado, e continuo, a uma colectividade artística chamada “Essay Collective”. Nessa altura houve apoio e divulgação do primeiro EP, “true project”, edição caseira e disponível para download gratuito na internet. Outra pessoa que sempre apoiou este projecto é o designer Hugo Tornelo, que é responsável por todas as ilustrações e artwork dos EP’s.

Como defines este projecto?

É um projecto singular em que a abordagem musical tende a estar de mãos dadas com um campo visual. Neste projecto o objectivo principal é a música e tudo o que nela é importante. A sua interacção emocional com quem a ouve e a satisfação pessoal de quem a faz. Existe também uma preocupação em relação à parte visual. Tento trabalhar, sempre que posso, com o mesmo designer para que exista uma coerência gráfica no projecto. Preocupo-me, também, em trabalhar com pessoas ligadas ao vídeo que gostam da minha música e que se preocupem em criar uma identidade e uma relação próxima com o que está a acontecer musicalmente. Em relação a um estilo musical, é sempre complicado responder, mas acho que posso definir este projecto com glitch pop ou pop experimental. Acima de tudo acho que é pop, mas não me cabe a mim definir um estilo musical para o meu projecto.

A criação destes sons são resultado de muitas experimentações ou normalmente resulta de um momento que viveste, de um momento de inspiração?

O resultado acontece disso tudo isso que mencionaste. Os sons são criados naturalmente. Por vezes, resultado de experimentações que tenho vindo a realizar, e que até podem ficar bem numa ou noutra música, mas sem aquela intenção de “vi esta cena nova e tenho de testar para ver se fica bem aqui”, não é assim que funciono. Tudo serve de inspiração e quando estou a compor não estou a pensar profundamente no que me pode ou não influenciar, é um processo natural das mais variadas experiências vividas, ou por vezes imaginárias.

No site referes que a tua música recorre a “instrumentos acústicos tradicionais e de crianças”. Sentes necessidade de recorrer às raízes, à infância para transmitir sentimentos mais puros?

Esses sentimentos mais puros aparecem naturalmente, fazem parte do processo natural de composição, e não pelos instrumentos usados. Gosto apenas dos tímbres característicos desses instrumentos e da sua simplicidade ao tocar. Não sou um instrumentista virtuoso, gosto de explorar os instrumentos à minha maneira. Este tipo de instrumentos são perfeitos para isso, podem desafinar, não tocar sempre da maneira que gostarias, e isso é o que me atrai ao usá-los.

É fácil chamar a atenção das editoras para projectos desta natureza? Já lançaste algum álbum, ou até agora apenas lançaste EP’s?

Para dizer a verdade, nunca tentei entrar em contacto ou chamar a atenção das editoras. Hoje em dia as editoras podem ter um papel secundário e acabam por não ser o veículo directo para o consumidor de música. Existem tantas oportunidades e maneiras de conhecer e ouvir música nova e diferente, que é um pouco estranho estar à espera que a editora ou a rádio faça esse trabalho por ti. Acontece que adoro o formato do EP, é pequeno, não chateia e dá vontade de ouvir mais ou novamente. É engraçado ter muitos temas e pensar muito bem em quais os que colocar no EP, ou nos que fazem mais sentido juntos, que contam uma pequena estória, um conto musical. Gosto desse desafio. Mas acho que brevemente gostava de experimentar o desafio de editar um álbum.

E o público português como recebe a música experimental? Tens muitos concertos?

Acho que o público reage bem à minha música, o que me dá muito prazer cada vez que toco. Não estou sempre a tocar, pois por vezes não tenho oportunidade de marcar concertos suficientes ou de ensaiar, mas quando me apetece tocar, consigo. E vão sempre aparecendo várias oportunidades.

A par do daily misconceptions estás ligado a outros projectos musicais. Actualmente, estás a fazer algum tipo de colaboração?

Já toquei com muitas bandas e já fiz parte de vários projectos como músico convidado. Neste momento estou a tocar com o projecto Stereoboy, que me está a dar bastante gozo. É um projecto com outras características, necessidades e maneiras e objectivos de trabalho bem diferentes das minhas, mas o que faço para esse projecto é o que faria para o meu, tento dar o meu melhor e fazer musica como se fosse minha. Todos os projectos contribuem para uma evolução musical e criativa, o que é sempre muito bom.

Estudas Música Electrónica e Produção Musical, na Escola Superior de Artes Aplicadas em Castelo Branco, e também já estudaste piano clássico. É importante apostar na formação?

Para o que faço em daily misconceptions e noutros projectos, acho que não, não, mesmo nada. Mas acho que é importante para um desenvolvimento constante e para adquirir novos conhecimentos nesta e noutras áreas. Ao apostar nesta formação, tive o prazer de conhecer, trabalhar e criar projectos com pessoas muito criativas e profissionais neste meio mais académico, o que é muito bom. Adquiri muitos conhecimentos e vontade de trabalhar em áreas que me eram desconhecidas. Neste momento estou a tirar o mestrado em Música Interactiva e Design de Som na Faculdade de Engenharia do Porto.

Quais são os próximos planos para o daily misconceptions?

Hum… Um EP a caminho, ou dois ou um álbum… ainda não decidi. E concertos, claro. Sempre que consiga, estou com saudades de tocar!

Fotografia por Soraia Claro



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