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“Después de Lucía”

Abana convicções sem falsas manipulações

“Después de Lucia” é o filme de Michel Franco que ficou pelo caminho na competição da última edição do LEFF (em Cannes teve o devido reconhecimento do prémio Un Certain Regard). Talvez se perceba o porquê: não é um filme fácil e põe o dedo na ferida de uma realidade continuamente desmentida e contudo persistente.

A história é a de uma família que tenta começar do zero após o desaparecimento da figura maternal. Pai e filha mudam-se, então, para a Cidade do México e é aqui que se começa. O pai enfrenta uma silenciosa depressão que dita o seu relacionamento com Alejandra (a filha), enquanto esta procura uma integração na sua nova escola. Cedo as coisas começam a tomar um rumo que abarca uma violência extrema, absolutamente filtrada de modo a manter o frágil equilíbrio do núcleo familiar, que se encontra fracturado.

Poder-se-á elogiar “Después de Lucía” acerca da sua pertinência na abordagem à problemática do bullying – com todo o mérito – mas a verdade é que se vai bastante além disto. Alejandra, uma jovem em plena emancipação trazida pela adolescência, concentra em si um complexo messiânico que assegura um balanço no que resta da sua família – e note-se que é muito pouco, já que a própria relação pai-filha é quase ausente. Assim, é ela própria que carrega a cruz, enfrentando um exorcismo que, em última instância, acabará por destrui-la.

É aqui que o filme entra numa espiral de violência sem precedentes, capaz de abanar convicções sem falsas manipulações: a câmara de Michel Franco acompanha, sim, todas as frentes, mas sempre a uma distância que permite a libertação das suas personagens. O mais desorientador será essa procura de uma redenção que não chega: morre a esperança.



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