Dirty Beaches @ Galeria Zé dos Bois 27.07.2013

Dirty Beaches @ Galeria Zé dos Bois (27.07.2013)

Dança convulsa

Os Siesta!, duo de multi-instrumentistas valencianos sem a pujança dos Death from Above 1979 (que lembram por vezes) nem a precisão rítmica ou a veia progressiva dos originais praticantes do krautrock (que fazem recordar nas restantes), estavam ainda em palco, quando, cá fora, no pátio da ZdB, se ouve uma rapariga dizer para outra, com audível excitação: “Está ali!” Quem ali estava era Alex Zhang Hungtai, o principal motivo por que todos estávamos ali (se bem que nenhuma outra presença motivasse exclamações idênticas, pelo menos que eu tenha dado conta). Por estas e por outras, a ideia de que muita gente foi ao concerto de Dirty Beaches tanto para o ouvir como para o ver foi-se sedimentando. E, reconheça-se, o moço é bem apessoado. Contudo, o canadiano de origem taiwanesa, parece alheado do furor que provoca. À altura em que as raparigas falavam de si, Hungtai respondia “whisky” à questão colocada por Bernardino Femminielli, o mago do sintetizador que o acompanha ao vivo, que se preparava para ir ao bar, sem reparar que era alvo de tal atenção (o que, provavelmente, poderá também ter a ver com o facto de não falar português).

O alheamento de Alex Zhang Hungtai e a bebida que pediu conjugam-se perfeitamente com a noção de que compôs o duplo álbum “Drifters/Love is the Devil”, lançado este ano, de coração partido (figurativamente) e simultaneamente aproximam-no da personagem de Tony Leung em “2046” de Wong Kar-wai, o seu cineasta preferido, ao que consta. Nada disto interessa muito, da mesma maneira que a ninguém parece preocupar que Hungtai tenha decidido reencarnar Alan Vega, que à hora em que escrevo ainda está vivo (é melhor deixar este aviso, pois nunca se sabe, as pessoas têm tendência para morrer). Se a música dos Dirty Beaches, servida pelo acima mencionado Femminielli (que, a solo, se dedica a um esdrúxulo italo-disco e faz o sintetizador produzir sons impensáveis) e por Shub Roy (guitarrista que pega uma vez na guitarra e passa a maior parte do tempo a marcar o ritmo dos nossos movimentos) é uma versão mais sofisticada dos Suicide, os trejeitos vocais (o gritinho), os efeitos, os ecos, apetece escrever, até o microfone pertencem ao vocalista da banda nova-iorquina. É óbvio que os Dirty Beaches (uso o plural, pois ao vivo os músicos funcionam como uma banda, ou seja, não são meros acompanhantes) não incitam à violência como os Suicide, mesmo quando Hungtai atira o corpo contra àqueles que se encontram em frente ao palco, mas conversam alguma da vontade de exorcismo.

Não só porque aquela música obriga a uma dança convulsa e como que hipnotiza o espectador a participar de uma catarse colectiva. No momento em que Hungtai calça umas luvas de cabedal e dança mais uma vez de punho cerrado sente-se um frisson de fetichismo, mesmo de algo sinistro. Claro que o espectador sabe que está sempre em segurança, o que pode ser apontado como uma falha (ou uma falta) dos Dirty Beaches, no entanto esse toque de insalubridade é inegável. Mas o maior defeito do concerto é ser demasiado curto, não permitindo a completa imersão do espectador, nem explorando os instrumentais da segunda metade do último disco dos Dirty Beaches, talvez a mais interessante. Registe-se ainda a referência ao Casino Lisboa, título de uma das canções, que não é aquele do Parque das Nações mandando edificar por Pedro Santana Lopes e, sim, o de Macau, cidade de muitos neon e perdição que apaixonam Hungtai (e que, de alguma forma, liga o músico a Portugal – muito gostamos nós destas coisas), e o “encore”: duas canções construidas com loops vocais de Hungtai, a lembrarem que Dirty Beaches ja foi uma one-man band.

Dos espanhóis Siesta! pouco mais há a dizer, a não ser que cantam em castelhano, que são uma banda tanto mais interessante quanto mais apostam na percussão, principalmente quando tocada com a potência e precisão de Jonathan Cremades (que eleva os sons à sua volta) e que Pepe Ábalos toca uma guitarra de brincar.



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