Kraftwerk

Os “pais” da electrónica estreiam-se dia 2 de Abril em Portugal.

Existem, e sempre irão existir, músicos e bandas de referência que, de uma ou de outra forma marcaram a música em geral ou um género em particular. Uma das principais influências citadas pelas “novas” bandas que utilizam a electrónica e as máquinas como principal instrumento, vai-se estrear em palcos portugueses, trinta e quatro anos depois da sua formação. Os Kraftwerk já fazem parte da história da música, e aqui na Rua de Baixo, podem ficar a conhecer um pouco da história desta banda e, inevitavelmente, um pouco sobre a história da música electrónica.

A PRÉ-ELECTRÓNICA

As primeiras experiências sonoras com equipamentos electrónicos datam do início do século XX, e os primeiros “músicos” eram na verdade pesquisadores que investigavam como se processava a síntese do som. Os passos que levariam os resultados destas primeiras experiências sonoras para a criação de uma música propriamente electrónica foram dados a partir dos anos 30.

A partir da invenção da fita magnética na Alemanha, foram realizadas as primeiras colagens sonoras, gerando composições que os tradicionais instrumentos musicais não conseguiam reproduzir. Com a rápida evolução dos equipamentos electrónicos à disposição dos artistas, o interesse sobre as possibilidades de composição aumentou e procurou-se criar composições genuinamente electrónicas e não apenas baseadas em sons pré-gravados.

A partir da metade dos anos 60, os instrumentos electrónicos passaram a ser utilizados em larga escala. Esta “adolescência” da utilização de sintetizadores e processadores electrónicos de som teve uma influência muito particular numa geração de músicos alemães que ainda procuravam uma identidade genuinamente alemã nas suas criações, após o vazio cultural deixado pelo pós-guerra. Misturando elementos do rock psicadélico do final dos anos 60 com improvisação jazzística e experimentações electrónicas, surge um género que seria rotulado no meio musical como “Krautrock”. Grupos como Can, Tangerine Dream, Neu! e Faust iriam tornar-se os representantes máximos deste género musical, onde uma absoluta liberdade criativa se fundia a uma absoluta disciplina técnica.

A REVOLUÇÃO DAS MÁQUINAS

É nesta atmosfera que surge aquele que viria a ser um dos mais influentes grupos de música electrónica do planeta, o equivalente neste género àquilo que os Beatles representaram no rock e na música popular. Nascidos na região industrial do Vale do Rühr, Ralf Hütter (20/08/1946) e Florian Schneider Esleben (07/04/1947) eram músicos de formação clássica que frequentavam o mesmo curso de improvisação jazzística no Conservatório de Düsseldorf, em 1968. Insatisfeitos com algumas limitações da música clássica e com opiniões semelhantes a respeito dos recursos que os equipamentos electrónicos poderiam proporcionar às suas ideias musicais, começam a participar em apresentações em galerias e universidades alemãs, afastando-se das concepções tradicionais de composição musical, criando o que seria o embrião do Kraftwerk, o grupo Organisation.

Composto por Ralf (teclados) Florian (flautas e efeitos sonoros), Basil Hammoudi (vocais), Butch Hauf (baixo) e Fred Monicks (percussão), o Organisation lança em 1970 o seu primeiro e único disco, intitulado “Tone Float”, com vendas insignificantes. No mesmo ano, Ralf e Florian criam o seu próprio estúdio no centro de Düsseldorf (o célebre Kling Klang, que se encontra no mesmo local até hoje) e passam a trabalhar na concepção de um novo disco, utilizando instrumentos tradicionais e equipamentos electrónicos construídos por eles mesmos. Assim, no ano de 1970, nascem os Kraftwerk (palavra alemã equivalente a “power station” em inglês), com o lançamento do primeiro álbum com título homónimo, onde já se podiam encontrar as linhas principais do som que iria ser desenvolvido no futuro.

O relativo sucesso do primeiro álbum fez com que em 1971 fosse editado “Kraftwerk 2”. Se nestes trabalhos Ralf e Florian ainda contavam com a participação de diversos músicos, a primeira digressão fora da Alemanha, em 1973, foi realizada apenas como duo. Foi nessa digressão, em Paris, que conheceram aquele que posteriormente seria o quinto elemento do grupo, Emil Schult. Schult, que trabalhava simultaneamente com diversos aspectos das artes visuais (pintura, fotografia, cinema) era também músico e viria a ter influência decisiva na concepção visual e na identidade artística do Kraftwerk, desde a capa dos discos até o formato das apresentações. No início, porém, a sua contribuição era somente musical, tocando guitarras e violinos em alguns espectáculos. Em Novembro de 1973, o grupo lança o seu terceiro álbum (“Ralf & Florian”) já com a participação no grafismo de Schult e um grande passo em frente no som produzido, introduzindo pela primeira vez a modulação de voz (vocoder).

Em 1974, o baterista Wolfgang Flür (Frankfurt, 17/07/1947) foi integrado no grupo, e logo a inventividade e a atitude inovadora que sempre diferenciou os Kraftwerk, mostrou os seus primeiros frutos. Em conjunto com Wolfgang Flür, desenvolvem uma percussão electrónica baseada em pequenos sensores de metal ligados a geradores de áudio, e que seria a precursora das baterias electrónicas fabricadas por empresas como a Roland, anos mais tarde.

De facto, Flür pode ser considerado um dos primeiros bateristas electrónicos da história da música moderna, e a utilização destas baterias seriam uma das marcas registradas dos Kraftwerk nas suas apresentações ao vivo. Além de Wolfgang Flür, em 1974 seria também integrado no grupo o violinista Klaus Roeder. Este ano marcaria uma mudança radical em termos comerciais e musicais, com o lançamento de seu quarto álbum, intitulado “Autobahn”, o primeiro grande sucesso do conjunto, principalmente devido ao single com o mesmo nome, que é um dos clássicos da banda.

“Autobahn”, para além de ter sido o grande impulsionador da sua carreira, marcou o início dos álbuns conceptuais, onde as faixas têm todas um tema em comum. O álbum é uma celebração das sensações que acompanham uma viagem de automóvel pelas auto-estradas alemãs (autobahns), e foi a primeira música do grupo a contar com letras e vocais cantados. Não era muito comum uma faixa totalmente electrónica de 22 minutos de duração alcançar tamanho sucesso comercial, e o facto tornou-se um marco para a história da música pop.

Em 1975, Klaus Roeder deixa o grupo, sendo substituído pelo percussionista Karl Bartos (31/05/1952). Com a entrada de Bartos, completava-se aquela que é considerada a formação clássica dos Kraftwerk, com a qual os seus melhores álbuns foram produzidos. “Radioactivity” (1975), relaciona a radioactividade com as ondas radiofónicas, “Trans Europe Express” (1977), transporta-nos a uma viagem pelo mítico comboio europeu e “The Man Machine” (1978), aborda a dicotomia entre o homem e a máquina.

A ERA DIGITAL

O período entre 1979 e 1981 foi o ponto de viragem da banda em termos musicais e estéticos. A evolução do som da banda que se tinha feito notar de álbum para álbum, ganha um novo sentido com o registo que serviu de fronteira entre sonoridades – “Computer World”. Este álbum marca um novo percurso da banda e é um dos clássicos obrigatórios da electrónica contemporânea.

Depois de um maxi-single – “Tour de France” – em 1983 (uma das primeiras utilizações de samples), ocorrem os processos de migração da banda para a era digital. Os seus estúdios são remodelados e as componentes analógicas são transformadas em digitais surgindo assim o primeiro registo da era digital – “Electric Café”.

A era digital trouxe aos Kraftwerk muitas possibilidades e também alguns problemas. A insistência de Ralf e Florian em digitalizar todo o material mais antigo, entrou em linha de choque com os outros elementos da banda que queriam produzir novos álbuns. Em Janeiro de 1990, Wolfgang Flür anuncia a sua saída do grupo, insatisfeito com a rotina e com os rumos tomados. Para assumir o seu lugar, a escolha natural recai sobre um dos engenheiros do estúdio, Fritz Hilpert, que começa a participar nas digressões em que os samples e a digitalização dos temas, começa a ser testada. Foram os últimos espectáculos com a presença de Karl Bartos, que também anuncia sua saída do grupo, em agosto de 1990.

Depois de lançarem um álbum de novas versões dos antigos temas, em 1991, a banda decide fazer uma digressão Europeia onde participa o português Fernando Abrantes no lugar de Bartos, mas apenas nos concertos em Inglaterra, tendo sido posteriormente substituído por Henning Schmitz, completando a formação que permanece até hoje. A década de 90 é totalmente dedicada à adaptação às novas tecnologias informáticas, como a emulação de instrumentos e edição de som. Embora o próximo registo discográfico tenha apenas surgido em 1999 (quando contratados para criar um tema para a exposição de Hannover de 2000), a banda nunca esteve parada e os espectáculos iam acontecendo um pouco por toda a parte.

VIVE LA TOUR

Finalmente, em 2003 e depois de 15 anos sem terem editado nenhum álbum, surge o mais recente registo da banda – “Tour de France: Soundtracks”. Aproveitando o centenário da prova (Ralf Hütter é um fanático por bicicletas), surge uma obra totalmente conceitual, trazendo temas que envolvem o ciclismo e a famosa corrida francesa. Os destaques ficariam por conta das faixas novas, como “Vitamin”, “Aéro Dynamik” e “Elektro Kardiogramm”. Para esta última, Ralf Hütter gravou os sons das batidas do seu coração e utilizou-as como base para desenvolver o ritmo da música. O resultado é uma sonoridade densa e marcante, um dos pontos altos do álbum.

Serão estes temas que irão animar grande parte do concerto marcado para dia 2 de Abril no Coliseu em Lisboa, mas os grandes clássicos não irão ser esquecidos. Foi preciso esperar mais de trinta anos para os ver ao vivo, por isso não percam esta oportunidade de assistir ao espectáculo do grupo que ajudou a escrever a história da música electrónica moderna, elevando-a à categoria de arte.



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