Ex-Machina

Ex-Machina

Um dos filmes de ficção científica mais originais e inventivos dos últimos anos.

Existem inúmeros filmes à volta desta temática: um cientista brilhante, talvez um pouco louco, cria uma nova forma de vida artificial, que poderá ou não ter uma consciência própria. Filmes de “robôs” são tão antigos quanto a história do monstro de Frankenstein.

No entanto, classificar “Ex-machina” como um mero filme de “robôs” seria redutor: é um dos filmes de ficção científica mais originais e inventivos dos últimos anos.

A estreia do escritor e argumentista Alex Garland como realizador não podia ser mais bem sucedida. Garland foi argumentista de vários filmes, entre os quais “A Praia”, com Leonardo DiCaprio, mas esta é a sua primeira vez na realização. Em vez de tentar impressionar com planos elaborados, filma de forma precisa e subtil, um pouco à maneira de David Fincher, oferecendo a tradução visual perfeita do que se passa no interior dos seus personagens. Sabe criar tensão ao longo do filme sem nunca perder o ritmo da história, deixando-nos presos à cadeira.

A história é simples e concisa: Caleb Smith (Domhnall Gleeson) trabalha na Blue Book, companhia responsável por um motor de busca global (tipo Google). No início do filme, Smith ganha o primeiro prémio num sorteio da empresa, o que lhe permitirá passar uma semana com o multi-milionário CEO da Blue Book, Nathan Bateman (Oscar Isaac).

O visionário líder vive numa estilosa casa isolada nas florestas do Alaska, acompanhado apenas pela enigmática assistente japonesa Kyoko (Sonoya Mizuno). O claustrofóbico bunker modernista de Nathan tem uma grande influência no tom do filme, que a espaços faz lembrar uma obra prima situada também num espaço fechado e tenso: “The Shining”, de Stanley Kubrick.

Após a chegada, ficamos a saber que Caleb não está ali para passar férias. Nathan criou uma mulher-robot chamada Ava (Alicia Vikander), uma máquina com inteligência artificial, dotada de um corpo com a capacidade de sentir. Pede a Caleb para tentar perceber se Ava tem realmente uma consciência de si própria, ou se a sua inteligência não passa de uma elaborada simulação de comportamento humano.

A cada dia Caleb tem uma “sessão” com Ava, e faz um relatório a Nathan. Á medida que a semana avança, a visão de Caleb vai mudando, e a nossa com ele. As conversas, filmadas e escrutinadas por Nathan, tornam-se cada vez mais íntimas. Durante uma quebra de energia, Ava avisa Caleb para não confiar em Nathan.

Nathan é um personagem carismático: cabelo rapado, barba farta, e uma presença física e psicológica intimidante. Um hipster eremita, afável mas sinistro, é Oscar Isaac no seu melhor. Garland diz que uma das inspirações para Nathan foi o Coronel Kurtz, interpretado por Marlon Brando em “Apocalypse Now”.

Também se destaca o trabalho do actor que interpreta Caleb: Domhnall Gleeson passa do entusiasmo para a confusão e medo de forma contida e credível, descobrindo ao mesmo tempo que nós os contornos mais sombrios da história.

Mas a verdadeira estrela do filme é a fascinante Ava. Em termos de design, é uma criação fantástica. Com uma presença delicada e bela, está muito distante da imagem mais “metálica” que costumamos associar aos robôs. O seu corpo parcialmente transparente parece um produto da Apple, e a actriz sueca Alicia Vikander tem uma performance notável. Tendo sido bailarina, empresta à andróide movimentos elegantes e precisos que ajudam a tornar plausível a sua existência.

“Ex-machina” é um “film noir” assente nas relações e nos enganos entre os seus protagonistas. Ao mesmo tempo convoca questões profundas de género, identidade e consciência. Faz pensar, mas sem deixar de ser envolvente e imprevisível: as reviravoltas são muitas. Sem dúvida um dos melhores filmes do ano, “Ex-machina” está destinado a tornar-se um clássico.



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