IMAGO

A sexta edição do festival multidisciplinar realiza-se entre 1 e 8 de Outubro no Fundão. Não percam a programação deste ano e uma entrevista exclusiva a um dos obreiros do festival.

O IMAGO – Festival Internacional de Cinema Jovem regressa este ano com uma estrutura ainda mais profissional, novas secções competitivas e uma programação recheada de cinema e excelentes propostas musicais. Mais do que um festival de cinema, o IMAGO proporciona um encontro entre diferentes expressões artísticas, colocando a cidade do Fundão no mapa cultural português. A edição deste ano decorre entre 1 e 8 de Outubro.

A estrutura do IMAGO assenta em três secções principais: a secção competitiva, o Heineken Open Space e a Sound & Vision Experience.

PROGRAMAÇÃO – Cinema, Música & Afins

A secção competitiva divide-se em duas grandes áreas. A Competição Internacional e a Docs in Shorts contam com 47 curtas-metragens provenientes dos quatro cantos do mundo, o que mostra o carácter internacional deste evento, que foi uma das maiores apostas por parte da organização que divulgou o IMAGO nos maiores certames da Europa. Existem 10 mil euros para distribuir pelos premiados.

O Open Space estará instalado no Pavilhão Multiusos e é o espaço privilegiado para assistir à nova competição do IMAGO, «Under 25», dedicada a todos os géneros em formato vídeo, realizadores até aos 25 anos e com baixos orçamentos, que não ultrapassem os 25.000 euros. Estão em competição 22 curtas-metragens que disputam um prémio nacional e outro internacional, no valor de mil euros cada.

Ainda no que diz respeito à 7ª arte, existe muito mais para ver no Fundão. Existe um programa especial de homenagem ao realizador espanhol Jess Franco, especial destaque para o trabalho do holandês Rosto e do Monty Phyton Terry Gilliam, bem como a comemoração dos 400 anos de D. Quixote, com um programa inteiramente dedicado a diferentes abordagens à obra maior da literatura espanhola.

Um dos grandes motivos de interesse do IMAGO é também a música. A organização já nos habituou a assistir no Fundão a grandes nomes da música internacional, principalmente de cariz electrónico, que de alguma forma tenham uma ligação com a imagem e o cinema.

Este ano, o cardápio é bastante apetecível. No dia de abertura, 1 de Outubro, o norueguês Erlend Oye , a metade mais prolífica da dupla Kings of Convenience, apresenta-se em dose dupla. Primeiro vai actuar a solo e apresentar “Unrest”, o seu primeiro disco de originais. Depois, o norueguês transforma-se em “Singing DJ” para mostrar porque é o obreiro de um dos mais sublimes DJ Kicks editados pela !K7.

Ainda no que diz respeito aos artistas internacionais presentes, destacamos a presença do canadiano Kid Koala na festa de encerramento, dia 8 de Outubro. O eclético dj apresenta “Short Attention Span Studio Theatre”, um espectáculo que tem montado com mais dois artistas (Jester e P-Love) e que consiste no manuseamento de vários gira-discos, instalados em “estações”, como uma banda, em que cada uma funciona como um instrumento para cada tema.

A representação nacional estará muito bem entregue a Old Jerusalem (que vai fazer a primeira parte de Erlend Oye), Kubik, Norton e Dezperados.

Victor Afonso, aka Kubik, faz-se acompanhar pela Orquestra de Percussão da Beira Interior e pelo maestro Luís Cipriano para aliar o experimentalismo electrónico com a composição clássica. O objectivo é apresentar uma composição musical original, a duas mãos, para o clássico do cinema experimental “Entr’acte”, de René Claire. O encontro está marcado para a sessão de abertura, dia 1 de Outubro.

Os Norton têm como desafio interpretar músicas que se tornaram autênticos clássicos indie e que, de alguma forma, encontraram espaço e protagonismo em diversos filmes. Pelo palco do Casino Fundanense devem passar temas como “Kool Thing”, dos Sonic Youth, bem como a música dos My Bloody Valentine que serviu de banda sonora à viagem de táxi de Scarlett Joahnsson pela noite de Tóquio, em “Lost in Translation”. A experiência está marcada para dia 4 de Outubro, dia em que está também agendada mais uma sessão dos Dezperados, que prometem animar a noite de véspera de feriado.

Ainda fazem parte da lista de artistas presentes no Fundão nomes como Namosh, Alex Leslie-Murray (Chicks on Speed) e Andy Votel.

Para descobrirem toda a programação do IMAGO (que ainda inclui exposições, workshops e master class), basta acederem ao site oficial do festival.

ENTREVISTA – IMAGO INSIDE OUT by Sérgio Felizardo

Para ficar a conhecer ainda melhor o IMAGO, decidimos colocar algumas perguntas a um dos organizadores do festival, Sérgio Felizardo.

RDB: Para quem não conhece o IMAGO, como defines este festival e de que forma é que é diferente de outros?

Sérgio Felizardo: O IMAGO é, acima de tudo, um festival multidisciplinar, que, apesar de ter o cinema como base, atira-se de cabeça a toda uma outra série de universos, tendo sempre a imagem como denominador comum. Ou seja, mesmo na sua vertente musical há sempre uma forte e imprescindível ligação à imagem.

É um Festival diferente. Em primeiro lugar, porque se dedica exclusivamente ao cinema curto feito por jovens cineastas e depois porque, como já disse, aposta na música, nas exposições, nos workshops e nas master class como elementos enriquecedores do programa global. Claro que também é diferente porque se realiza no Interior do país, com uma dimensão algo desfasada do que são normalmente os eventos culturais que por aqui se vão fazendo.

RDB: Durante as últimas edições, o festival tem conseguido ganhar alguma credibilidade dentro e fora de Portugal. Foi difícil arrancar com este projecto?

SF: Foi difícil arrancar, mas sobretudo foi difícil crescer depois de encontrada alguma estabilidade. Lembro que em 2003, depois de uma edição anterior surpreendente e que correu muito bem, o IMAGO viu-se forçado a parar devido à falta de compreensão da Câmara da Covilhã. Essa paragem implicou uma reflexão e a mudança para o Fundão e permitiu-nos avançar em 2004 para um modelo já muito próximo do que se pretendia e que é também este de 2005.

RDB: Ser realizado no Fundão pode ser um entrave para o crescimento do IMAGO?

SF: Só é um entrave se continuarmos a ser olhados com a condescendência constrangedora com que muitos nos olham a partir de Lisboa. Nomeadamente alguns dos possíveis sponsors (em que se inclui, por exemplo, a Antena 3) que contactámos, a quem apresentámos o projecto e que nos responderam com a hoje em dia indesculpável lengalenga do “propostas como esta recebemos nós às dezenas”. Felizmente há quem não pense assim como a Caixa Geral de Depósitos, a Heineken e todos os nossos parceiros que se associaram ao projecto, e entenda que o facto de se realizar no Fundão é mais uma vantagem para o Festival. A cidade sabe receber quem a visita, tem um enorme potencial turístico e gastronómico e hoje em dia está a duas horas de Lisboa por auto-estrada. Tenhamos nós para o ano, como está previsto, a Casa da Cultura concluída e quase todos os problemas derivados da interioridade ficam ultrapassados.

RDB: Como vês o festival inserido na dinamização cultural da região?

SF: Neste momento, o IMAGO é um projecto cultural único na Beira Interior e até a nível nacional. Como tal, consegue atrair gente de todas as cidades à volta e dar uma dinâmica bastante especial à região. Acreditamos mesmo que, neste momento, com a programação que temos, podemos contribuir para uma maior abertura dos jovens à novidade e ao que de melhor se vai fazendo por esse mundo fora em várias áreas artísticas e às quais na maior parte dos casos as pessoas da região são alheias.

RDB: Existe uma tentativa de internacionalizar ainda mais o IMAGO? E os filmes portugueses? Não têm o seu “espaço”?

SF: Os filmes portugueses obviamente que têm o seu espaço, mas, por exemplo na Competição Internacional ou na competição Docs in Shorts são tratados de forma igual aos filmes estrangeiros. Ou seja, na altura de seleccionar não vamos escolher um filme que consideramos mau, só porque é português e não temos lá nenhum português até essa altura. Os filmes portugueses têm o seu espaço se tiverem a qualidade que o comité de selecção entende ser suficiente para ser seleccionado. Todavia, este ano abrimos uma nova secção competitiva, o Under 25, que recebeu muitas candidaturas nacionais e que vai entregar um prémio exclusivamente para a produção lusa em competição (para além de um prémio internacional).

RDB: Porquê a escolha de Jess Franco para esta edição do IMAGO?

SF: Jess Franco surge nesta edição do IMAGO um pouco devido a uma série de acasos felizes. Quando decidimos avançar para um programa ligado ao D. Quixote, depois de escolhermos o Terry Gilliam como figura central da Retrospectiva “EarlyYears…” e de nos apercebermos que existia um documentário sobre a tentativa falhada de Gilliam filmar o Quixote, demos conta de que Franco tinha finalizado (em polémica absoluta) o D. Quixote de Orson Welles. Decidimos passar este filme e pensámos que, num ano em que estreamos a competição Under 25, fazia todo o sentido convidarmos o mestre dos filmes de baixo orçamento para estar entre nós e explicar aos futuros realizadores deste País como é que isto se faz. Ele aceitou e não quisemos perder a oportunidade de o incluir no Júri da Competição Internacional e apresentarmos um programa especial escolhido por ele, onde poderemos ver a ante-estreia absoluta da sua nova película: “Snakewoman”.

RDB: Explica-nos a importância e necessidade das secções “Under 25” e “Europe in Shorts 8” num festival como o IMAGO.

SF: O «Under 25» surge da necessidade que sentimos de não fechar as portas à produção vídeo. Todos sabemos quão difícil é filmar em película, principalmente em Portugal, e que hoje em dia os novos suportes digitais são acessíveis a um número muito maior de pessoas, o que aumenta consideravelmente a produção. Pelo que se tornava imperativo termos uma secção competitiva aberta ao vídeo e, consequentemente mais propensa a receber produtos nacionais.

Quanto ao «Europe in Shorts», advém do facto de pertencermos à Rede Europeia de Festivais de Cinema e de, assim, podermos aceder a um programa que nos mostra o estado do cinema experimental de formato curto que se faz um pouco por toda a Europa.

RDB: Como surgiu o nome de Alex Leslie-Murray (Chicks on Speed) para júri da secção «Under 25»?

SF: A Alex foi a convidada da festa de apresentação do novo site do IMAGO, em Maio, e gostou tanto que na altura deixou bem claro que queria estar presente no Festival. Ela adora cinema, está muito ligada a pessoas que trabalham nesta área em Barcelona onde reside actualmente e foi, por isso, uma escolha quase óbvia da nossa parte.

RDB: A música sempre fez parte integrante do IMAGO. O que destacas de toda a programação do festival?

SF: Penso que este ano temos uma programação musical bastante forte e é-me difícil destacar nomes. Mas, obviamente que tenho de destacar as estreias absolutas em Portugal do Kid Koala e do Erlend Oye a solo (já esteve várias vezes como DJ, mas nunca para tocar a solo e em concerto acústico). Também em estreia vão estar os Toolshed, de Graham Massey dos 808 State, e os Sirconical, projectos da editora de Andy Votel e Badly Drawn Boy, a Twisted Nerve, que apresentam filmes-concerto que prometem ser surpreendentes. E, claro, destaco ainda o Namosh, o projecto Ana e o DJ set da Alex, que decorrem numa festa patrocinada pela revista espanhola NEO2 e os portugueses Old Jerusalem, Dezperados, Musgo e Norton, estes com uma apresentação especial de versões de músicas indie que fazem parte da banda sonora de vários filmes.

RDB: Quais são as vossas expectativas a nível de público?

SF: Em 2004 estivemos perto de atingir os 10 mil espectadores, entre cinema, concertos e outras actividades. Este ano, obviamente que esperamos aumentar um pouco esse número. Essencialmente esperamos ter casa cheia em todas as actividades que propomos e que, tal como em 2004, uma larga percentagem do público venha de vários pontos do país e do estrangeiro.

RDB: Planos para o futuro? Mais e melhor IMAGO ou outras novidades na manga?

SF: Com as obras na Antiga Moagem do Fundão a decorrerem a bom ritmo, acreditamos que para o ano possamos ter a Casa da Cultura a funcionar em pleno e, como tal, certamente iremos ter as condições ideais para que possamos ter um IMAGO mais forte e com maior qualidade, já que a nível de estrutura geral do Festival pensamos ter encontrado o modelo que queremos e que vai de encontro ao que consideramos ser uma necessidade no panorama dos festivais de cinema em Portugal: originalidade e novidade.



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