Infinite Vacation

Infinite Vacation

Não deixa de ser admirável que, na sua essência, este seja mais um retrato desse momento intemporal em que um rapaz conhece uma rapariga.

É de aproveitar o lançamento da compilação de “Infinite Vacation”, pela Image – numa belíssima edição em capa dura, diga-se de passagem –, para relembrar estre trabalho escrito por Nick Spencer e com desenho e cor de Christian Ward.

Na realidade de “Infinite Vacation”, mais do que a prova da existência de infinitos universos paralelos, existe a possibilidade de viajar entre eles. Como estamos perante uma realidade muito próxima na nossa (salvo esta pequena/grande excepção), não surge como surpresa que este tipo de viagens tenha escalado rapidamente num negócio – aqui o dinheiro continua a mover o mundo.

Uma vez que a viagem entre universos se tornou um negócio prolífico, qualquer pessoa, desde que tenha a quantia certa, pode ter acesso às suas vidas paralelas, seja para as visitar ou até mesmo comprar, caso estejam disponíveis para isso. Imaginem que se arrependem de uma decisão no passado ou que sempre quiseram explorar outros caminhos. Basta procurar, numa respectiva aplicação, se essa vida se encontra no mercado e, em caso afirmativo, podem adquiri-la à velocidade de um clique. Aqui, o factor mais limitante é a conta bancária. E não se preocupem se mudarem de vida, a empresa responsável por estes serviços disponibiliza-vos toda a informação necessária para o vosso cérebro assimilar as novas memórias. Afinal de contas, não convém tornarem-se médicos sem adquirirem os conhecimentos da profissão. As possibilidades, como já perceberam – nem que seja pelo título – , são infinitas.

Infinite Vacation

É importante referir também que existem universos cujos desenvolvimentos são considerados demasiado perigosos para os outros, nomeadamente um onde todos na Terra são canibais. Para proteger a maioria, estes universos rotulados como prejudiciais são destruídos ou, como a equipa gestora destas actividades prefere dizer, são desdobrados e absorvidos pelos outros universos, continuando a existir dentro dos mesmos… pois, boa sorte com isso.

Embora exista uma variedade infinita de possibilidades, a história teria de centrar-se em alguém e, neste caso essa personagem em particular, é Mark, um viciado neste tipo de viagens que, tendo-se tornado um especialista, nos explica rapidamente tudo que precisamos saber para compreender o funcionamento do serviço. O problema com Mark é que por mais que troque de vida acaba sempre na mesma situação: sozinho e num trabalho ao qual tem aversão. Há um constante vazio que ele não consegue preencher, porque não compreende que o problema não está no meio, mas nele. Aqui é impossível não sentir um certo paralelismo entre esta sociedade obcecada pelas viagens no tempo e a nossa, obcecada pelas redes sociais – com o respectivo distanciamento, as aplicações informáticas no telemóvel são agora o ópio do povo.

Porém, as suas crises existenciais assumem todo um outro nível quando descobre que as suas outras versões estão a ser assassinadas ao longo do multiverso, e tudo porque aparentemente estão à procura dele – especificamente dele. Como diz Mark, passamos uma vida toda à espera que nos digam no meio de tantos (ainda mais aqui) que somos especiais e, agora que aconteceu, não podia ter surgido da pior maneira. É preciso ter cuidado com o que desejamos.

A fim de descobrirem o mistério por detrás destes assassinatos, um grupo de Mark’s começa a trabalhar em parceria, enquanto escondem o Mark protagonista no meio de um grupo de defensores da singularidade. Estes singularistas são um grupo activista contra a utilização do “Infinite Vacation”, onde alguns chegam até a crer na existência de um universo onde não existem outros universos paralelos. Isto pode parecer completamente descabido a início, uma vez que existindo a prova de outros universos é impossível que exista um singular. Mas é precisamente aqui que o argumento de Nick Spencer começa a ser realmente virtuoso, explorando outros conceitos da física quântica, nomeadamente a célebre teoria do gato de Schrödinger e, confiem, tudo funciona muito bem.

Associado ao mistério dos assassinatos surge uma das personagens mais horripilantes a ganhar vida nas páginas de uma BD, uma que aproveita as potencialidades de um multiverso para elevar o terror a todo um novo conceito de politicamente incorrecto e moralmente repreendedor.

Infinite Vacation

Apesar da narrativa de “Infinite Vacation” ser uma injecção tão massiva quanto estimulante de ficção-científica, polvilhada com rasgos de mistério e horror, não deixa de ser admirável que na sua essência este seja mais um retrato desse momento intemporal em que um rapaz conhece uma rapariga, e é tão simples quanto isso. Tudo desenvolvido com uma originalidade e imaginação invejáveis que, certamente, irão distinguir este trabalho entre muitos outros.

Quanto à arte de Christian Ward funciona em perfeita harmonia com a históra de Nick Spencer. O desenhador utiliza um traço muito livre e estilizado coberto por cores vivas que dão um ar muito enérgico e psicadélico a estas aventuras, que se prolongam ao longo de vários universos. Estamos perante um daqueles excelentes casos em que vale a pena admirar a simbiose entre a escrita e o desenho. Existem também páginas onde se utiliza uma composição fotográfica em contraste com o desenho. Estas cenas são correspondentes aos comunicados por parte dos técnicos que trabalham na “Infinite Vacation”.

Com este trabalho, a Image volta a reforçar a ideia de que é uma das editoras norte-americanas mais atraentes da actualidade. Com ideias tão entusiasmantes como esta, só podemos concordar com tal afirmação.



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