“Três Sombras” | Cyril Pedrosa

“Três Sombras” | Cyril Pedrosa

Da sombra nascerá um novo dia

2012 foi um ano excelente ano no que toca a edições de BD, e do autor Cyril Pedrosa em particular. A ASA editou o livro “Portugal” (texto aqui), enquanto a Polvo, por sua vez, nos trouxe “Três Sombras”. Duas edições notáveis, cujos elogios atribuídos nunca serão de mais.

Podemos falar de um livro não revelando absolutamente nada da sua história. Porém, não falar do seu intuito, daquilo que o move enquanto obra, é mais complicado; ao fazê-lo neste caso, demasiado de “Três Sombras” é exposto. Nada disto tira força alguma à história mas, se há véus que devem permanecer tapados e objectivos escondidos, o de “Três Sombras” parece ser um deles. Não querendo privar os leitores dessa descoberta, deixa-se este aviso antes que prossigam na leitura do texto, sublinhando a qualidade desta pequena preciosidade e o quanto é aconselhável a sua aquisição.

“Três sombras” traz-nos a história de uma pequena família de três que vive uma vida feliz, plena e despreocupada no campo. Tudo decorre dentro da normalidade, até Joaquim, o filho do casal – e ainda uma criança -, começar a ser perseguido por três misteriosas sombras. A princípio ignoradas, a persistência das sombras mantém-se, surgindo onde quer que Joaquim esteja.

Os temores começam assim a apoderar-se desta família, a qual lida com a situação de forma distinta, oposta. A mãe, Elisa, prefere procurar respostas e, quando as encontra, aceita dolorosamente o destino da sua família, compreendendo que não lhe pode escapar. Por sua vez o pai, Luís, sempre se negou a seguir esse caminho e, quando confrontado com a verdade, recusa-se a aceitá-la. A fim de proteger o filho das sombras, embarca com ele numa aventurosa viagem, privando mãe e filho dos seus últimos momentos juntos, naquela que é uma das cenas mais emocionantes e poderosas de todo o livro.

Esta é uma viagem que tem tanto de bela como de dolorosa, que tem tanto de vida como de morte. É uma viagem que nos transporta para uma das piores situações que alguém poderá experienciar na sua vida, a morte de um filho. Uma morte mais lamentável que as outras porque quebra as leis da natureza, pois a pai algum deveria ser permitido enterrar um filho. Através de Luís e Elisa, temos duas abordagens muito distintas a esta situação e, se a da mãe poderá ser a mais ponderada, como é que na realidade poderemos reconhecer o momento em que devemos desistir e deixar partir aqueles que amamos? Para Luís essa resposta não só nunca veio, como provavelmente nunca se colocaria. E assim, durante o percurso tenebroso que escolheu, agarrando-se, com toda a sua força, a uma ténue esperança, lá continua o seu caminho com Joaquim, perdendo-se um pouco mais a cada passo que dá.

“Três Sombras” | Cyril Pedrosa

No entanto, nem tudo em “Três Sombras” são trevas, pois a noite é sempre mais escura antes do amanhecer; e se o autor nos consegue emocionar com a perda de Joaquim, também o consegue com igual força e proeza ao louvar toda a magnitude da vida. Pedrosa mostra-nos a felicidade no amor e na família e que os momentos mais negros no nosso percurso não nos devem destruir, mas impelir a continuar, porque há sempre um amanhã e com ele um novo dia. Ao terminar a história não nos admiramos ao saber que o autor se inspirou na história verídica de um casal amigo, cujo filho lhes foi tirado pela doença. Os elementos estão todos aqui, a mensagem intacta.

Neste livro o autor privilegiou um traço fino e o preto-e-branco, conseguindo transportar-nos para um outro mundo, por vezes fantástico, por vezes (tão) real. As suas pranchas contêm uma fervência impressionante – é como se as palavras ‘amor’, ‘medo’ou ‘ternura’se dilatassem até se tornarem meras linhas preenchendo as páginas em forma de belos desenhos, mas mantendo intacta toda a carga que emanavam enquanto palavras. Esta é uma daquelas histórias que, quando terminadas, nos recorda que alguns livros são mais especiais que outros.



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