“Joe” de David Gordon Green

“Joe”

Anatomia de uma alma torturada

A vida pode revelar-se como uma estrada de sentido único com algumas bifurcações. São as escolhas, as opções tomadas em determinados momentos, que podem revelar-se certeiras ou dar origem a pequenos redemoinhos anárquicos.

É nessa ténue linha que divide a racionalidade do caos que vivem as personagens de “Joe”, o mais recente filme de David Gordon Green, que traz um Nicolas Cage como há muito que não o víamos, como um personagem inteiro, de corpo de alma, interpretação que lhe valeu – bem como ao restante elenco e realização – excelentes críticas nos Festivais de Veneza e de Toronto.

“Joe” assume-se mesmo como uma aposta ganha para realizador e ator principal e, esperemos, um ponto de viragem em carreiras que começaram em terrenos mais indie mas que, paulatinamente, conduziram Green e Cage para experiências menos conseguida e a roçar a banalidade cinematográfica, salvo raras exceções.

Tendo como base narrativa a adaptação de Gary Hawkins face à obra literária de Larry Brown, “Joe” relata a vida de Joe Ransom, um ex-condenado que aos 48 anos tenta fazer a redenção de uma vida à beira do limite, abraçando a liderança de um grupo de homens cujo trabalho centra-se no envenenamento de árvores que mais tarde serão abatidas por uma empresa madeireira.

A ação situa-se algures no Estado do Texas, terra que está longe da máxima que os Estados Unidos da América tanto proclamam. Aqui, a esperança é pouca e a liberdade é desafiada pela crescente miséria, económica e humana.

Numa das suas visitas à cidade, Joe vê uma família que procura alimentos vasculhando o lixo. Um homem, uma mulher, dois filhos. Ele alcoólico, ela perdida dentro de uma disfuncionalidade latente. Os mais novos sobrevivem como podem. Gary (Tye Sheridan) é um rapaz de 15 anos sem medo do que a vida possa representar e que jurou fidelidade à sua irmã, emudecida pela vida, e mãe. Wade (Gary Poulter), seu pai, é o protótipo de alguém em fim da linha. Violento e constantemente sob o efeito do álcool, tenta retirar o máximo possível do alheio nem que tal signifique violentar (física e psicologicamente) ou roubar a própria família.

Enquanto Joe luta contra os seus fantasmas e enfrenta mais uma dura jornada, Gary surge na sua vida. O jovem procura trabalho, Joe precisa de ajuda. Ainda que nada o pudesse fazer prever é o início de uma fortíssima ligação que vai unir as vidas destas duas pessoas que têm em comum um dilacerante e profundo estado de solidão e em constante rota de colisão.

E é mesmo a solidão que David Green mais trabalha em “Joe”. A câmara filma pessoas simples, de forma competente, e oscila tal como a vida dos personagens, umas vezes mais agitadas outras completamente ensimesmadas. A raiva com que Gary e camaradas de luta batem nas árvores, por forma a envenenar a sua seiva, é sinónimo dos murros que a vida pode presentear as almas mais incautas.

Fora do âmbito metafórico, Green filma a violência de forma gratuita, seca, pungente, pois os seus personagens assim o necessitam. A brutalidade é para estes homens uma forma legitima de atingir um fim. A dor torna-os mais fortes, a cada dia. A vida é um caos mais eles têm de a superar, vencer.

Por sua vez, a disfuncionalidade familiar não está apenas presente debaixo do teto de Gary. Também Joe não assume qualquer relação “palpável”, para além das constantes visitas ao bordel local, e remete toda a sua paixão para a sua cadela de estimação, mas tal não quer dizer que Joe não tenha amor para dar.

A sua bondade, e dignidade, leva-o a acolher em sua casa, Connie (Adriene Mishler), uma jovem que tenta refúgio depois de ser molestada pelo amante da sua mãe e que deseja ser a companheira de Joe nem que seja enquanto este finge que dorme. Como que pratos de uma desequilibrada balança afetiva, Gary e Connie completam um triângulo que tem em Joe a figura central. Green filma os laços emocionais deste trio como uma corrente que prende a alma num local profundo onde a luz (esperança) tarda em aparecer.

Para além dos seus fantasmas interiores, Joe e Gary têm de lutar contra a maldade e mesquinhez alheia. Se Gary tem na figura do pai a sua própria ideia de diabolização, para Joe a instabilidade assume a figura de Willie (Ronnie Gene Blevins) um vingativo “camarada” de bar que está sedento de vingança face à humilhação que Joe o sujeitou numa luta à base de muito álcool.

Tanto Wade como Willie são personagens cujo código genético tem como base a miserabilidade, uma soberba cobarde em desafiar o mais fraco sentindo-se, apenas e só dessa forma, respeitado e “humano”. Não é de todo inocente que David Green construa uma doentia relação entre Wade e Willie de forma a adensar uma existência movida a ódio.

A narrativa trágica deste poderoso filme revela-nos momentos de uma cumplicidade a toda à prova e muito do seu sucesso está na relação entre Gary e Joe, assim como no realismo de personagens como Wade, interpretado por um não-ator pois Gary Poulter não era mais nem menos que um sem-abrigo achado por Green numa rua dos Estados Unidos. Lamentavelmente, o regresso de Poulter à mendicidade levaria à sua morte, meses depois de terminadas as filmagens.

Ainda que camuflada, existe uma mensagem de esperança em “Joe”. O forte sentimento que une Gary e Joe, principalmente nas cenas em que os personagens procuram a cadela (de seu nome “Cão”) ou que Joe oferece a velha carrinha ao seu protegido, um prémio decrépito que pode funcionar como o maior dos troféus.

Na busca de tentar perceber como somos, realmente, a existência pode, de forma mais ou menos inesperada, mostrar-nos um reflexo de alguém que nunca pensámos ser. “Joe” funciona também como um exercício espelhado, como um percurso sem princípio, meio ou fim. Se, em alguns casos, condenar uma árvore à sua morte pode ser encarado como um início, uma segunda oportunidade, o mesmo pode suceder quando se ajuda outra a crescer.

“Joe” não é um filme fácil, mas David Green, Nicolas Cage e Tye Sheridan formam uma divina trindade dentro de um universo desesperançado. Longe de procurar uma ideia de futuro, “Joe” é, acima de tudo, uma ode ao presente, cru, nu e sem rede.

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