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Kamasi Whashington @ Tivoli (7.6.2016)

O saxofone é a nova guitarra eléctrica

Algures ao longo do caminho, dos anos 70 para cá, o jazz tornou-se aborrecido, engordou e aburguesou-se. Deixou de se pronunciar sobre a actualidade e esqueceu as suas raízes. Isto aconteceu em grande parte porque o virtuosismo ganhou supremacia face à alma da música.

Por isso louvado sejas Kamasi Washington, tu e a tua mente cósmica, tu e a tua composição espacial, tu e todo o universo espiritual que a tua música atravessa, a qual, mesmo com apenas meia dúzia de gatos-pingados em palco, nunca perdeu a sensação épica do teu disco. Tu és como Moisés regressando do deserto com o bastão divino e a palavra de deus gravada na pedra, reacendendo a fé dos que, há muito a haviam perdido. Na música, na cultura e mesmo na vida.

Porque na passada noite de 7 de Junho, no Tivoli, nenhum dos presentes terá conseguido resistir a entregar-se de corpo e alma à tua prestação, que atravessou o funk irrequieto de George Clinton, o rock progressivo de Cantenburry, o jazz espiritual de Coltrane e a elegância de Debussy. Mas nunca ficaste parado em nenhum dos portos visitados, simplesmente deixaste-te ir à deriva sem preocupação com descobrir um porto seguro. Assim, o magnetismo que emanas torna-se irresistível e a forma como o jazz foi resgatado das mãos dos executivos brancos, com um cocktail na mão e um charuto na outra, enquanto banda sonora para o conforto é demasiado sedutora para que qualquer coração aberto consiga resistir. Porque se não é para elevar os ouvintes até lugares nunca dantes visitados, então não passa de entretenimento barato e disso estamos nós cheios.

Obrigado Kamasi Washington, não pelo concerto, nem pelo disco, mas por seres o combustível para a inspiração dos dias que nos faltam.



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