Le Parkour

A RDB, à conversa com um traceur - nome que se dá ao praticante de Parkour - João Ribeiro.

Aviso: crianças não experimentem isto em casa; actividade que, com a prática, pode causar vício profundo.

Já existe há mais de dez anos mas só recentemente se dá a conhecer em Portugal. O Parkour é a modalidade/estilo de vida da qual os media não se cansam de falar. Até uma determinada telenovela nacional acerca de uma jovenzinha inocente portadora de um nome relacionado com plantas teve direito a uma demonstração. Esta mediatização de uma actividade que até poderia ser considerada alternativa não incomoda os praticantes, que esperam assim vir a ser cada vez mais. “Eu só quero é ver toda a gente a saltar”, diz o João, “Podem a falar à vontade no Parkour, desde que não passem a imagem errada”. Para aqueles que pensam que isto são brincadeiras de “putos “ inconscientes, que saltam por cima de muros e prédios, fiquem avisados: o Parkour nada tem a ver com proezas estilo “Jack Ass”. É uma modalidade, se é que assim se pode chamar, que trabalha corpo e mente, e dirige-se a pessoas que não têm medo de enfrentar os seus medos e testar os seus limites. Existem já alguns grupos em Portugal, embora não se possa dizer que seja do conhecimento público; por cá ainda é bastante underground. São núcleos fechados que apareceram sobretudo na periferia de Lisboa, em bairros como Odivelas, Telheiras, Almada entre outros…

As pessoas que passam lançam um olhar oblíquo e curioso às acrobacias executadas pelo João, mas não existe ali. “As pessoas aqui da zona já se habituaram, sabem que não somos vândalos, não é disso que trata o Parkour”. Trata-se de romper com a rotina e os limites que a sociedade nos impôs sem incomodar ninguém. Conferir uma outra utilidade ao “mobiliário urbano”. Filas de espera e outras burocracias impostas pela sociedade e consideradas como comportamentos aceites deixam de fazer sentido. As escadas não são para descer degrau a degrau, mas sim para se galgar. E a mesma ideia se aplica a muros, corrimões e outros elementos da cidade. Para um traceur, a cidade assemelha-se ao cenário de um jogo de acção da playstation: a arquitectura moderna funciona como um terreno de jogo. Nasce aqui uma nova relação entre o homem e os edifícios que o rodeiam. Uma nova inteligência, que cria soluções diferentes e percursos fora de norma.

Parkour, percurso, caminho.

De origem francesa, significa, em linguagem militar, o percurso do combatente. Tem dois grandes percursores: David Belle e Sébastian Foucan. Reza a história que foi a partir de brincadeiras destas então crianças nas ruas de Lisses, arredores de Paris, que o Parkour começou a ganhar forma. Mais tarde, David Belle, militar e adepto de actividades desportivas, desenvolve uma série de exercícios a partir de um livro sobre métodos de treino de Georges Hébert, “Natural Method of Physical Culture”. Este livro, utilizado pelo seu pai na altura da guerra do Vietname, compila várias técnicas que viriam a constituir a base para os movimentos-chave. Para Belle, no Parkour deve ser conseguida uma combinação perfeita de velocidade, fluidez, estética e originalidade. É uma forma de mostrar às pessoas que se existe, de expressar liberdade e energia, uma “necessidade de existir”. Segundo os sociólogos, esta abordagem demonstra a premente necessidade humana de libertação de uma sociedade suburbana sufocante.

Sébastian Foucan tem uma outra abordagem ao Parkour. Enquanto que David Belle se concentra muito na força, destreza e agilidade do corpo, Foucan, fortemente influenciado pela filosofia asiática e pelas artes marciais, foca-se sobretudo na capacidade de evolução. Este estilo de Parkour prega que este é mais do que uma actividade desportiva: é um modo de vida e um estado de espírito. De forma a combater as energias negativas devemos ser “fluidos como a água”. Os seus lemas são “ Não há violência. Não há competição. Não existem grupos. Não existem líderes” e “A arte de deslocares-te de um lugar para ouro com fluidez permite-te de ver o que te rodeia sob uma nova perspectiva. O objectivo é tornares-te parte do que te rodeia de modo a desenvolveres o teu corpo e mente.”

O seu método é baseado na autonomia, no jogo e nas energias positivas. Aqui, o objectivo do treino do Parkour é testar a capacidade humana de adaptação e evoluir, em qualquer contexto. Não é necessário equipamento especifico: apenas uns bons ténis de corrida, roupa confortável e muita força de vontade.

João, o “nosso” traceur , identifica-se claramente com esta ultima vertente. “Tem mais a ver comigo. Prefiro treinar sozinho, não me sentir pressionado pelos outros. Essa é a melhor forma de te auto-conheceres e poderes seguir o teu ritmo, sem stress”. Oriundo de Odivelas, é aí que treina, graças a um amigo que há uns tempos lhe falou no Parkour.

As principais dificuldades para iniciantes resumem-se ao medo: de cair, de falhar o gesto… tal como no dia-a-dia, o medo impede-nos de superar-nos, de darmos o máximo, porque achamos que não vamos conseguir.

Costuma treinar sozinho ou então com o grupo de Odivelas. “Aqui não se trata de competir mas sim de melhorar as suas próprias capacidades independentemente dos outros… não é para impressionares as pessoas na rua mas sim para te sentires bem contigo” Os treinos têm uma duração média de quatro horas, nas quais há um escrutínio de todas as zonas passíveis de serem palcos de treino. “Já não me lembro bem de como foi o meu primeiro treino, mas já evoluí bastante entretanto… e ainda tenho muito que aprender”, diz-nos entre saltos certeiros. “Ainda não conheço os meus limites no Parkour, não me coloco em situações limite, só sei que eles estão sempre a mudar e que cada dia ponho a fasquia mais alta…mas agora vim de férias e piorei imenso. Tenho que me pôr em forma outra vez”.

Diz já notar repercussões do Parkour na sua vida. Não só fisicamente mas também a nível psicológico, ajudando-o a encarar a vida com mais stamina, mais coragem. “Sinto uma grande energia, força e também prazer. Penso: “Bolas se consigo saltar estes lances todos de escada com certeza que também vou conseguir fazer isto… ”o Parkour mostra-te que és mais forte do que pensas, que aquilo que pareciam obstáculos intransponíveis não passam de desafios. É uma forma de auto-conhecimento: uma constante prova às tuas capacidades tanto físicas como psicológicas, sendo que esta última domina a primeira…”

– E o Futuro do Parkour em Portugal
?

O parkour ainda está nos seus primórdios, ainda não se sabe como se vai desenvolver mas é por esse motivo que não existe grande intercâmbio com o estrangeiro.

Já em relação aos praticantes, qualquer pessoa pode fazer Parkour, em qualquer lugar, desde que esteja disposta a ultrapassar obstáculos e descobrir novos caminhos. O Traceur não tem perfil, só precisa de respeitar as regras do jogo e entregar-se à cidade. Os traceurs não são mais que crianças reguilas: o parkour vai buscar a agilidade que naturalmente temos desde crianças, a tendência e a curiosidade, inteligência animal física, feita de reacções, agilidade, movimentos esquematizados, encadeados, fluidos.

“Realmente não se veêm muitas raparigas não sei bem porquê, temos que tratar disso… Porque não vem treinar uma vez para ver como é??”

Este convite é também para vocês. Aproveitem a cidade.

Pequeno guia RDB de Parkour para iniciantes

Como começar o treino:

1. Pesquisar sobre o assunto

2. Arranjar um amigo e ir para a rua praticar as manobras mais simples ou até ir mesmo sozinho. Aconselha-se a treinar sozinho. Antes de mais nada, no parkour contas contigo, com a tua força física e interior… treinar os movimentos mais simples, ver bastantes vídeos e ler alguma coisa sobre a modalidade. Depois ir para a rua, o playground versão gigante destes trepadores cosmopolitas.

3. Aperfeiçoar uma manobra antes de partir para a próxima, por ordem crescente de dificuldade.

4. Não invadir propriedade privada nem deteriorar matéria urbana durante a prática do parkour: não é vandalismo nem quer ser confundido com tal.



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