Les Baton Rouge – Entrevista

Les Baton Rouge

A propósito da comemoração dos 15 anos, este sábado no Musicbox, conversámos com a banda

Em 2013 os Les Baton Rouge celebram 15 anos de existência e a festa é já amanhã, 23 de Março, no Musicbox, em Lisboa.

A Rua de Baixo esteve à conversa com dois dos elementos da banda – Suspiria Franklin e James Jacket.

Sendo os trabalhos anteriores editados no estrangeiro, quais as razões que vos levaram a lançar este último de autor, “Canal Express”, em território Luso?

James: Neste momento vivemos em Portugal. Quisemos editar um EP de uma forma completamente independente! Ou seja, a edição não tem território definido, é uma edição do mundo. É um disco não patrocinado!

Suspiria: Creio que as edições de autor e o DIY fazem cada vez mais sentido. Um dos objectivos é futuramente podermos avançar com a nossa própria editora.

De que forma é este um trabalho diferente dos outros? Houve diferentes influências, ou continuam a basear-se na mesma linha?

James: Como músicos, não somos diferentes de nenhum outro indivíduo, as influências mudam todos os dias. Que aborrecido seria se ainda nos baseássemos na mesma linha. A música para nós é uma linguagem abstracta que pode ou não ter um significado concreto. As influências aparecem a um nível subconsciente.

Suspiria: Se ainda continuássemos com as mesmas influências que tínhamos há 15 ou 20 anos atrás significava que não tinha havido evolução, não só musical mas também social, e tudo isso mexe connosco, com a nossa forma de estar, de pensar e de criar.

Qual o balanço de 15 anos de carreira?

James: Há 15 anos éramos uns miúdos que vivíamos num subúrbio de Lisboa onde nada acontecia. O aborrecimento e a não-identificação com o meio ambiente contribuiu em muito para a formação desta banda. As aspirações da nossa banda eram grandes, queríamos ver o mundo… a tocar! Não poderia ser de outra forma. Aliás, queríamos tocar e ver o mundo. A banda tornou-se a nossa maior prioridade! Tocámos em praticamente todos os clubes míticos em que queríamos tocar, tivemos um sucesso enorme nos EUA e Europa que superaram em muito as nossas expectativas. A viagem interior foi igualmente interessante… não é natural tocares 150 concertos por ano enfiado numa carrinha ou num avião mas se, por um lado, o rock and roll te transforma numa personagem irreal de um qualquer cartoon, também te faz viver à velocidade da luz. Temos histórias para escrever um livro de 300 páginas. Ou seja, foi muito interessante!

Suspiria: Realmente, nesse sentido, as expectativas foram todas superadas. Foi muito mais do que estávamos à espera! Todo o esforço foi compensado e valeu a pena, todos os palcos que pisámos, as bandas que conhecemos, os Países por onde viajámos, foi muito enriquecedor e transformou-nos enquanto indivíduos. Hoje em dia continuamos a criar música e a transmitir às pessoas, da melhor forma que sabemos, a importância que a mesma tem para nós e a forma como nos faz sentir.

Independentemente do sucesso alcançado além-fronteiras, consideram importante o vosso contributo no panorama musical rock em Portugal, e porquê?

James: A nossa relação com Portugal sempre foi conflituosa! Nunca o foi com o nosso público! Portugal não fez muito por nós… quando falo em Portugal falo em poder instituído, meios de comunicação, etc… Se fizemos muito pelo panorama nacional? Não sei. Talvez tenhamos influenciado gente mais nova, no sentido de começarem a achar que tudo é possível se o quiserem muito!

Suspiria: Os Les Baton Rouge internacionalizaram-se muito cedo. Numa altura em que as bandas portuguesas ainda não iam tocar de uma forma regular ao estrangeiro. Fomos a primeira banda portuguesa convidada para o SXSW mas fomos sem qualquer apoio de Portugal e na altura reparámos que a maior parte das bandas era patrocinada e representava um determinado País. Não foi o nosso caso. Da minha parte, fico sempre muito satisfeita quando vejo mulheres em bandas que dizem ter tido a minha influência e a nossa música como base. Nesse sentido creio que abri algumas portas e incentivei uma cultura rock feminina.

Continuam a ter projectos paralelos?

James: Sim, neste momento eu toco nos The Watchout Sprouts, a Suspiria tocava até há pouco tempo nos Spaziergang e o Bruno (que se vai estrear como nosso baterista) toca também com os Club Sin.

Suspiria: Com o fim dos Spaziergang durante o ano passado, neste momento estou dedicada aos Les Baton Rouge a 100%.

Na vossa opinião, o que faz falta mudar no cenário musical português?

James: Deixa-me respirar fundo antes de responder a essa questão… Falta tanta coisa! Algumas coisas são características do nosso País, outras da nossa era. Mais clubes de música ao vivo e menos festivais de Verão – que só servem para vender cerveja e marcas de telemóveis. Maior associativismo, um movimento alternativo e independente forte, robusto, cheio de anti-corpos! Mais gente interessada em descobrir bandas por 5 ou 10 euros e menos gente interessada em comprar bilhetes de 60 ou 70 euros. Mais gente em clubes e lojas de discos e menos gente em casa a ver o anúncio a um concerto do Justin Bieber.

Suspiria: Acho que o James disse tudo! Os festivais de Verão serviram para atrair algumas bandas que dantes nunca vinham a Portugal e agora apenas o fazem atraídos pelo sol e pelo dinheiro. A música deixou de ser o principal foco de atenção e, quando isso acontece, passamos a ter festivais de publicidade, de entretenimento e de alienação.

As vossas preocupações enquanto indivíduos incluem que temáticas?

James: Preconceitos. Horizontes curtos. Idiotice. Passividade. Esta época, em que tudo parece ser um simples bem de consumo!

Suspiria: Preocupa-me o facto de hoje em dia ser tudo tão efémero, estéril. Preocupa-me o facto de não haver uma preocupação e consciencialização política. Preocupa-me o facto de não haver uma sede pura pela cultura, de não haver uma constante procura de conhecimento, curiosidade. O querer saber tudo. Preocupa-me o futuro da sociedade e a perda de moralidade.

Tendo em conta que vivemos tempos conturbados a nível económico-social, a música faz ainda mais sentido? De que maneira?

James: A música faz sentido como arma de arremesso, como forma de dizer “estamos fartos!” Contudo, o tempo de antena continua a ser dado unicamente a bandas fofinhas e politicamente correctas. As pessoas, e muitos músicos, parecem-me continuar a viver com muito medo de perder o que têm, mesmo que tenham pouco.

Suspiria: Pelo que me apercebo, são poucas as bandas que actualmente ainda escrevem letras de cariz político, com poder de intervenção, com raiva exposta. E hoje em dia faz tanto ou mais sentido quanto fazia no 25 de Abril de 74, onde os músicos tinham uma força e um poder de expressão enormes, e não faziam disso um circo ou um tv show para auto-promoção, mas sim porque sentiam que era urgente a mudança.

Depois de 15 anos, o que os motiva e que objectivos ainda pretendem alcançar na vossa carreira?

James: Queremos tocar e divertirmo-nos. Lançar discos, tocar! E se possível mandar umas pedras para o charco!

Suspiria: Para o bem ou para o mal, sempre gostámos de meter o dedo na ferida. Costumo dizer que sou uma mulher com muita sorte, porque sempre fiz o que queria e continuo a fazê-lo. Não me imagino em outro universo que não esteja ligado às artes e às mais diversas formas de expressão.

O que podemos esperar do concerto dos 15 anos dos Les Baton Rouge?

James: Vamos tocar músicas do início da nossa carreira, músicas deste EP e músicas que vão entrar no nosso próximo álbum. Não vão haver artifícios, poderão ver três pessoas a tocar como se não houvesse amanhã!

Suspiria: Nunca tivemos um live set tão abrangente quanto este. É estranho celebrar 15 anos, parece que foi ontem. Vai ser uma boa festa, sem dúvida!



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