Albert Cossery – Mandriões no vale fértil – Antígona

Mandriões no vale fértil

A arte da preguiça

“Mandriões no vale fértil” poderia ser uma peça de teatro. É fácil imaginar personagens como Rafik ou Galal entregues ao sono durante a maior parte do enredo. Mais fácil ainda é imaginar Serag desfalecer de sono cada vez que se propõe a mais um dos seus loucos empreendimentos. Nesta medida Serag seria estaria sem dúvida nos antípodas do português típico que sonha ganhar o euromilhões para não ter de trabalhar, já que, a ambição deste jovem é precisamente essa: trabalhar. Oriundo duma família que cultiva a preguiça com arte e orgulho, e que encara o trabalho como uma desonra, Serag, o personagem principal tenta, por todos os meios possíveis e imagináveis conseguir um emprego. E não estamos a falar de procurar emprego no Portugal de 2014, mas sim no Egipto de meio do século XX, onde, tudo leva a crer que seria mais fácil. Por entre as peripécias do jovem Serag, desfilam personagens que certamente não destoariam numa revista portuguesa, como a alcoviteira, a prostituta, o homossexual ou o comerciante frustrado. Um pouco à imagem de clássicos como “Nem o pai morre nem a gente almoça”, a outra parte da narrativa centra-se nos restantes irmãos de Serag, que tentam impedir o casamento do pai, a fim de não terem de mudar o estilo de vida que levam. E no meio disto tudo, existem ainda paixões assolapadas, crianças assassinas de pardais e hérnias do tamanho de bolas de futebol.

Escrito como uma comédia, “Mandriões no vale fértil” é o segundo livro de Albert Cossery, o maldito escritor egípcio, que defendia produzir apenas uma linha por semana, o que poderá ter sido verdade, já que ao longo de mais de três décadas de carreira, apenas publicou oito obras.

Cossery não só celebra a preguiça nesta obra, como também propõe que se a a única alternativa à pobreza é ser escravo do trabalho, então o ócio como forma de rebelião poderá ser uma empresa valorosa.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This