Mariano Marovatto | Entrevista

Mariano Marovatto | Entrevista

Mariano Marovatto nasceu e crescei no Rio de Janeiro mas em 2016 decidiu adoptar Lisboa como segunda cidade. O seu último álbum, “Selvagem” está prestes a ser editado por cá, já no próximo dia 3 de Fevereiro e nós aproveitámos a ocasião para fazer algumas perguntas.

Cantor, compositor, poeta, guitarrista, arquivista literário e apresentador. É um cartão de visita e tanto mas há algum deles em especial que mexa mais contigo que os restantes? Porquê?

Talvez por conta do momento, mas creio que o cantor/compositor acenda uma luz, não a mais, mas uma luz diferente dos outros trabalhos: um comunicação mais eficaz,  um estar presente tanto fisicamente quanto intelectualmente diante do outro. Mas tudo caminha junto, afinal é tudo uma mesma pessoa.

Num passado recente tem-se observado a um movimento migratório curioso que tem trazido muitos e talentosos novos compositores brasileiros para Portugal e, em especial, para Lisboa, seja para ficar a viver ou para compôr e gravar um álbum. Porque achas que isto tem acontecido? E no teu caso, o que te trouxe até Lisboa?

Interessante pergunta. Por razões práticas poderia dizer que há uma melhor organização, muito mais assertiva do que a brasileira, da indústria musical portuguesa. Isto sem contar a recepção generosa e amorosa dos ouvintes portugueses em relação à música brasileira. Isso é um chamariz muito forte para que alguns de nós atravessem o oceano.

O que me trouxe aqui creio que tenha sido a possibilidade de aproximar os dois lados, entender como podem Portugal e Brasil funcionar sem estar em comparação ou oposição, dentro destas minhas áreas de atuação. Tem sido muito importante descobrir e dialogar com a música e com a literatura portuguesa que não alcança o lado de lá do Atlântico.

Falemos um pouco sobre o teu álbum “Selvagem”. Acho que, a par do nome, houve outro aspecto que me chamou a atenção foi a duração. São apenas 14 minutos mas a verdade é que, quando o ouvimos, parece mais longo, talvez pela forma com as canções nos envolvem. Qual a história por de trás do título do álbum? E porque saiu um álbum tão curto, se compararmos com outros álbuns?

Acho que podemos fazer hoje em dia álbuns com a duração que quisermos. O tempo talvez não importe mais tanto quanto o conceito. Havia outras canções que ficaram de for a porque esse pequeno grupo de oito faixas tinham um diálogo muito mais coeso entre si, no fim das contas. Acho que funcionam mesmo muito bem juntas e servem para serem reouvidas. Acho que toda nova audição aumenta sim a duração do disco. Como um poema que gostamos e voltamos sempre. A releitura é tão ou mais importante do que a primeira leitura. Eu sempre escutei discos dessa forma. O nome Selvagem acho que se adequa a esta ideia de não querer, não conseguir, não desejar se adequar a qualquer formato pré-estabelecido.

Como surgiram as letras de “Selvagem”? Sabias o que procuravas?

Acho que não. Talvez eu soubesse o que não procurava. Havia, por exemplo, nas mesmas compilações de recolhas de onde tirei as faixas de Selvagem, imensos temas religiosos. Afinal de contas a lusofonia espalhou-se pelo mundo graças também à força da igreja. Embora muitos destes temas sejam realmente belos, os evitei porque acredito que a música, bem como a língua portuguesa (sua formação, sua dinâmica, etc) sejam maiores do que qualquer imposição de credo.

Algumas das canções tem um significado mais especial para ti? Qual?

Todas. No momento tem sido muito especial cantar “Chamada de Aricuri” por ser a canção mais diferente do conjunto: é de origem indígena (e ainda assim em português!)

A sonoridade do álbum é muito peculiar. Nalgumas canções parece que sentimos uma alma lusitana nelas, seja na forma com a guitarra é tocada, seja na forma com cantas algumas das canções. Isto surgiu naturalmente, foi um pouco consequência da origem de algumas das letras? Fala-nos um pouco sobre este processo.

Acho que a simplicidade dos arranjos desnudou uma característica comum entre os dois países, para além da língua: toda viola caipira brasileira é filha da viola portuguesa, seja ela braguesa, campaniça, etc. Isto veio mesmo por acaso. Ótima observação!

Está a ser boa a experiência de viver em Lisboa? Esta pergunta surgiu depois de ler o blog do teu site e ler as tuas palavras, escritas na perspectiva de um observador externo mas extremamente atento.

Lisboa é tão pequena e tão imensa. Cabe dentro da minha cabeça e estende pontes para todos os meus lugares prediletos. O Rio de Janeiro é de onde vim, onde nasci, onde cresci, mas ele nunca coube inteiro, nem na minha cabeça nem nele mesmo. É a cidade maravilha mutante, é preciso adaptar-se todo dia a ela. Lisboa está sempre plácida e pronta, o que me faz ter mais tempo para gastar em outros assuntos: o que tem sido vital para mim neste momento. Só tenho a agradecer.



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