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Michachu & The Shapes @ The Loft

Comprimidos de futuro.

O espaço industrializante da discoteca The Loft, em Lisboa, acolheu a 21 de Novembro os projectos que vão tecendo, com as suas experiências, o futuro da música popular.

A actuação de Micachu & The Shapes foi um dos pontos mais altos d’O Baile – evento recém-importado da capital inglesa – com o seu desfile de objectos musicais inclassificáveis que fazem de “Jewellery”, o álbum editado no início do ano, um rosário sonoro incontornável para a pop dos anos zeros.

Os ouvidos mais informados estariam, provavelmente, sintonizados na mesma direcção quando a notícia do concerto irrompeu na imprensa no final deste Verão: Micachu viria a Portugal pela primeira vez.

Nesta altura, já muitos teriam tomado conhecimento da dimensão do fenómeno, que recolhe elogios de autoridades musicais como a cantora Björk, a revista Clash ou o músico Matthew Herbert, que acumula, com o papel de fã, o de produtor do disco de estreia.

Não partamos, no entanto, de pressupostos simplistas. Para os mais desprevenidos, quem é Micachu? Dizer que é o nome artístico de Mica Levi, uma jovem londrina de 21 anos, com formação musical ecléctica – da tradição musical erudita ao grime com o qual convive na sua cidade-natal – pode soar redutor num mundo globalizado, feito de milhares de one-hit-wonders que se esquecem com mesma rapidez com que se consomem. E isso não seria justo para a potencial pedrada no charco que encontramos no seu cocktail sonoro.

Na formação actual, em trio, juntam-se a Mica Levi a teclista Raisa Khan, ex-colega de escola na Guildhall School of Music and Drama e Mark Pell, baterista, com uma carreira paralela no drum’n’bass, os dois vértices conhecidos como Shapes. Reza a lenda que vêm dar continuidade, por oposição, ao projecto de Mica assinado como Shapeless (em português, disforme) incluído na mixtape “Filthy Friends”, em que experimentava com texturas sónicas fora do contexto da canção.

Foi, no entanto, com pouco mais de uma dezena de canções pop que obtiveram a notoriedade, e eram essas as que uma audiência que poderia chegar à centena quis ouvir no armazém de Santos.

Envergando a t-shirt com formas abstractas geométricas coloridas que serve de farda ao grupo, de cabelo curto com caracóis em desalinho sobre a testa e figura arrapazada, Micachu acaba por ser uma vocalista de impacto pelos motivos menos óbvios.

Mattew Herbert já o tinha avisado e nessa noite confirmámo-lo: é genuíno o prazer com que interpreta as canções que compôs, e essa audácia, combinada com a sua atitude afável, é o melhor catalisador de atenções. O início tímido com «Not So Sure» evoluiu, em crescendo, para a distorção de «Curly Teeth» e tem o primeiro auge da noite com «Vulture», tema de abertura do disco onde a experimentação é suficientemente dançável para pôr a massa humana em movimento.

Nem tudo, no entanto, fluiu com a segurança inabalável que nos leva a ouvir Jewellery da primeira à última faixa ininterruptamente. O volume excessivo, aliado ao ambiente naturalmente disperso duma discoteca – por oposição ao dum auditório ou sala de espectáculos clássica – prejudicaram em grande medida a fruição da experiência, tanto nas adulterações que impunham aos temas interpretados (demasiado notórias para serem relativizadas) como nos interregnos de comunicação (nos quais dificilmente se compreendia uma frase completa dirigida ao público, tal era o burburinho circundante).

Apesar destes percalços, o conjunto sólido de canções que apoiam o trio é motivo suficiente para um saldo positivo do seu desempenho: depois de «Waste», um alinhamento que incluiu «Eat Your Heart», a breve mas intensa «Lips» e a desafiante percussão de «Wrong» dificilmente deixaria impassíveis os ouvintes. Num contexto diferente, mas com a mesma frescura, vemos recriar-se, pela mão destes jovens, uma nova vida do ideal punk do it yourself: como resposta ao fim do mito da originalidade encontramos a resposta subversiva da apropriação assumida como instrumento. Todos os brinquedos são válidos no grande recreio em que se transformou a cena musical, das esperadas guitarras e baterias a instrumentos inventados com garrafas de vinho e sons de aspiradores domésticos, sem esquecer o poderoso instrumento que é a voz humana.

E é a este tipo de respostas que não nos cansamos de dedicar os mais efusivos aplausos, os mesmos que a inédita «Low Dog», apresentada quase no final do alinhamento, lhes granjeou. Um único encore devolve o trio ao palco para a interpretação da contagiante «Golden Phone», que reluz em palco com a mesma opulência com que surge no disco, bem como a cadenciada «Hardcore». Ao fim de pouco mais de uma hora estão feitas as despedidas.

Uma hora passada com demasiada rapidez que deixa no palato um travo de gula por satisfazer e que desconfiamos que num espaço mais favorável teria mantido o grupo mais tempo em palco. Posto isto, o concerto de estreia transforma-se igualmente numa efeméride: o início da contagem decrescente para a sua próxima visita, em que, em vez de ingerir cápsulas com doses moderadas, possamos saciar-nos com uma dose lauta destas iguarias pop.



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