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Dead Combo @ S. Luiz

Em noite fria e com perigo de chuvisco, os Dead Combo convidaram-nos para um passeio pelo jardim… de Inverno. Lisboa, 21 de Novembro de 2009.

Primeira de duas noites de concerto dos Dead Combo no Jardim de Inverno do Teatro S. Luiz e, verdade seja dita, o espaço assenta-lhes como uma… cartola.

A elegância, amplitude e altitude do espaço e a sua relevância cultural, conjugadas com o jogo de meia-luz e as velas sobre as mesas redondas, davam ao espaço uma atmosfera romântica, porém sombria e intimista, em que as rosas vermelhas e a moldura a preto-e-branco em cima do palco nos transportavam para um ambiente quase familiar.

O jardim estava quase cheio, pelo menos era essa a ilusão que dava. Tornava-se difícil arranjar lugar perto do palco, não por inexistência de espaço, mas pelo desconforto de ocupar um lugar numa mesa que já era de alguém.

Eis que entre a conversa moderada de copo na mão, as luzes apagam-se um pouco mais, ouve-se uma voz-off de filme western e entram dois “playboys lusitanos” pelo corredor que havia entre as mesas e direito ao centro do palco, sobre um coro de palmas. Forma peculiar de entrar no palco, negando o camarim, e negando também as portas, pois musicalmente entraram pela «Janela». A típica guitarra semi-acústica carregada de delay de Tó Trips, estava aqui acompanhada de um contrabaixo de Pedro Gonçalves tocado com arco, o que lhe dava uma cadência melancólica. Conseguiram trazer o público para dentro do contexto, para de seguida dar o golpe incisivo com o hit «Putos a roubar maçãs», música numa cadência bem mais locomotiva que a interior, em que a guitarra crescente e o contra-baixo marcado desvendavam de vez o imaginário country-western-spaguetti-rebelde-virtuoso-intimista-porém-muito-tuga que esta banda nos oferece. Fica quase um travo a valsa, uma valsa rebelde. O público estava atento e pouco conversador e a sua presença fazia-se notar apenas pelas palmas por entre músicas. A banda, essa não falava e muito menos cantava. Toca agora a «Rak song» num clima ainda mais western spaguetti com subtis pancadas nas cordas da guitarra, que provocam estalidos, por entre um refrão a fazer lembrar fado. De seguida a bota cowboy de Tó Trips marcava acentuadamente o ritmo no soalho, para uma boa guitarrada à Dick Dale, assaltada por uma melodia meio latina durante a progressão. Caso houvesse dúvidas da “portucalidade” destes rapazes o nome desta música revela o alimento português indispensável para qualquer cowboy que se preze. Falamos de «Sopa de cavalo cansado».

Depois da sopa, já há forças para uma primeira interacção vocal com o público. Agradecem-se presenças e apresentam-se canções. Até aqui a opção foi a formação original da banda com a dicotomia Tó Trips na Guitarra e Pedro Gonçalves no contra-baixo. A partir daqui a banda iria reinventar-se na forma e no conteúdo, revelando um especial cuidado com o pormenor e não deixando que o imaginário e estilo vincado inerente à banda tornasse a actuação enfadonha. Em a «A menina dança?» os Dead Combo são um dueto de guitarras e criam um certo Groove de banda de salão que serviria de antecâmara para «Cuba 1970», música em que a banda se alarga tornando evidente a reviravolta no âmbiente mais latino e jazz. Entram Alexandre Frazão para a bateria, Joana Araújo para o piano e uma secção de metais composta por 3 elementos cujos nomes não consegui anotar, tocando trompete, saxofone e saxofone alto.

Seguem com «manobras de Maio» e uma muito inspirada «Desert Diamonds», que usa e abusa de uma bateria forte e ritmada, com um crescendo de guitarra apoiada em baixo e metais, chegando a um auge altivo e barulhento com direito a voz-off de filme (sabe bem ouvir vozes). Faz lembrar o renascer de um qualquer herói por entre as cinzas. Durante a progressão, a sombra da cartola de Tó trips sobressai na parede de fundo. É um momento quase cénico.

Tó trips apresenta «Like a Drug» (versão de Queens of the Stone Age) como uma “música de restaurante chinês”. De facto a melodia tem algo de oriental sem perder a identidade da banda, mais virada para o faroeste. Chamar-lhe-ia um estilo western chop suey. Pedro faz slides na guitarra e Tó faz os “tlins tlons” à chinês. Os QOTSA iriam gostar (digo eu).

À décima música, temos a “despedida” com Tó Trips a ter o palco todo para si numa música particularmente melancólica. O concerto atinge a sua veia mais intimista e o palco fica entregue a Joana Araújo que toca ao piano «Radiot» e «Rua das chagas» em versões competentes e evidentemente diferentes das originais dos Dead Combo. Algumas pessoas aproveitaram a mudança de clima pra ir buscar uma bebida. Eu fiz o mesmo.

O regresso dos Dead Combo – versão 7 elementos – faz-se com «NAT» onde predomina ainda o piano, agora enrolando-se com a guitarra e contra-baixo e com um trompete acentuado no final. Tudo sem estardalhaço. Ficam novamente Tó e Pedro para uma canção baseada no assobio de Vasco Santana em «O Pátio das cantigas». Segundo Tó, “estes dois gajos fizeram nesta harmonia, isto”. E começa-se com a reprodução do assobio passando para uma harmonia western/surf music com Pedro a assumir a guitarra mais aguda. Tudo isto vai desaguar numa malha dedilhada e intrincada na viola que fazia lembrar Carlos Paredes. Ainda só os dois, tocaram o tema título do último álbum «Lusitânia Playboys», música inspirada no seguinte acontecimento: “dois gajos do jazz vão ao Cais do Sodré e acabam à pancada com dois marinheiros”.

Regressam os 5 elementos para a «canção do trabalho» num registo algo pesado, em contraste com o swing ofertado em «Rodada».

Em «Old rock’n’roll radio» temos um instrumental irrequieto e cómico com piano e bateria a terem destaque e com a alternância de Pedro Gonçalves entre contra-baixo e o seu theramin escondido a colocar a cereja no cimo do bolo. Anunciam o fim com «Malibu fair» num ritmo quase punk, mais “a abrir” do que qualquer coisa apresentada antes, e depois de uma chuva de palmas, voltam para um encore em jeito de revisão da matéria dada com «Cacto» (das primeiras músicas da banda) numa toada surf music com duo + bateria; «Esperanza» com duo + piano revisitando a vertente branda e intimista com direito a slide guitar vertical tocada por Pedro Gonçalves e para encerrarem as hostes com «Lisboa /Berlim» com duo + sax alto numa toada Word jazz.

Os Dead combo escolheram bem o local para encerrar a tournée e deram um grande concerto onde se mostraram uma banda competente, adulta e inteligente porque sabe tratar de forma original sons e ambientes de outros tempos e locais, dando-lhe um toque de world music mas sobretudo de música e cultura portuguesa. São músicos de excelência, experientes nas lides musicais e na forma abrangente como abordam o espectáculo e os seus vários momentos, mas sem por isso deixarem de querer ser uns “putos rebeldes”. O público brindou-os com uma merecida ovação, agradecidos pelas quase duas horas de concerto. Venha o novo álbum.



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