“More” e “Amnesia” de Barbet Schroeder

“More” e “Amnesia” de Barbet Schroeder

O renascimento de Ícaro em Ibiza

E se Ícaro renascesse ao comtemplar o pôr do Sol em Ibiza? Depois de ter voado tão alto e ter caído em tragédia encontrasse nas luzes e sombras do final do dia no mar mediterrânico esperança e redenção.Barbet Schroeder consegue o feito com as suas duas obras separadas por mais de 40 anos.

Do sexo, drogas e Pink Floyd de 1969 em “More” ao cello clássico em looping nas batidas techno na pista de dança do último filme “Amnesia”, o realizador consegue unir as duas pontas da sua obra em Luz e Sombra e sentimos que o mundo mudou muito em 40 anos e que a luz também pode ser as trevas e o pôr do sol a mais radiosa das imagens.

A estreia simultânea a 19 de Novembro de dois filmes do realizador no Festival de Cinema de Lisboa e Estoril é a certeza de que há uma espécie de primavera cinematográfica do realizador que se estende no espaço que separa as duas obras entre “More” de 1969 e “Amnesia” de estreado em 2015.Falamos de Luz e de Sombra, falamos de “More” que retrata a tragédia debaixo do céu mediterrânico de um jovem alemão que tal como Ícaro propõe aproximar-se do Sol, descobrindo a Sombra inerente do psicadelismo da sua época cujas experiências com as drogas o levam a um trágico fim.Estudante de Matemática conhece em Paris a americana Estelle a quem pode agradecer ter conhecido uma viagem sem volta com a heroína.A beleza física dos dois corpos nus, a quem acresce um terceiro de uma mais que amiga de Estelle sob a luz do mar milenar, confunde-se com o idílico da paisagem numa época longe do turismo de massas em Ibiza.Numa época em que se massificava a pretensão de cartografar o cérebro com substâncias alucinogénicas, o jovem “Ícaro” vai de dose em dose até encontrar o derradeiro túnel da sua vida com saída para os sete palmos debaixo da terra.A banda sonora é experimental e é dos Pink Floyd.

Redentor e pleno de esperança é o filme “Amnesia”.Martha comtempla o mar mediterrânico há mais de 40 anos.Sem eletricidade em casa, com a companhia do seu cello que recusa tocar, do retrato do professor judeu que lhe ensinou o instrumento e que viria a morrer nos campos de concentração, rejeita tudo o que lhe lembre a Alemanha falando em Inglês com o novo vizinho, Jo, um jovem alemão de 25 anos cuja paixão é a música eletrónica e de cuja revolução pretende tomar parte nos clubes de Ibiza, mais do que regressar para uma Alemanha a reunificar-se após a queda do muro Berlim como é vontade da sua família. A acção decorre no início dos anos 90 e Martha e Joe experimentam um relacionamento amoroso e cruzam experiências musicais não tão antagónicas como à partida a partitura clássica poderia sugerir em face dos sons techno.Resultado disso é a aparição de Martha junto à mesa de mistura da discoteca “Amnesia” a fazer ressuscitar o som do cello no meio das batidas repetitivas numa das cenas finais, representando o renascimento da vida nesta mulher depois passar anos a tentar esquecer o Nazismo, ao mesmo tempo que ressuscita a ordem musical de compositores como Bach e esta se mescla com os sons comtemporâneos eletrónicos, num optimismo enigmático sobre o destino daquele dois alemães que parecem tentar esquecer o inesquecível.Ícaro de “More”, como que renasce na pele de um jovem fazedor de sons em “Amnesia” que encontra paz em Ibiza fora do seu país e em que desta vez as suas asas não chegam a queimar pois Jo não almeja o Sol mas sim uma reveladora Luz e Sombra do Pôr do Sol mediterrânico.



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