header2

Murdering Tripping Blues

Musicbox, 11 de Junho de 2010.

“Share The Fire” – o novíssimo trabalho dos lisboetas Murdering Tripping Blues – como oferta e mais uma bebida a quem comprasse o bilhete para assistir ao espectáculo do trio blues rock que contava ainda com a participação especial de Boz Boorer e o one man band Mr. Bones – na primeira parte – parecem não ter sido ingredientes suficientemente persuasivos em fim-de-semana de festas de santos populares na capital.

Numa sala pouco preenchida, o impulso emocional que domina o fogoso universo sónico dos anfitriões não se perdeu, mas poderia talvez, se o molde humano – ainda que escasso – se descomplexasse em manifestações condizentes com a crueza despojada do trio, ter feito jus à intensidade musical do projecto, que não fosse o poder dominante dum baterista e a performance frenética dum vocalista perder-se-ia no todo.

Há um lado experimental despojado na forma de estar da banda assaz interessante; ao vivo é como se as energias contidas neste segundo álbum se libertassem de modo tão puro e pouco dado a floreados como ingenuamente rebelde.

Entre a consciência daquilo a que querem soar e um desprendimento dos maneirismos intrínsecos de instrumentos usados no disco – saxofone , na colaboração de Terry Edwards – e ao vivo – com a participação de Boz Boorer – cresce e evolui o espírito musical de uma banda que resulta especialmente bem ao vivo.

Apesar de tudo, se por um lado a anímica deliberada do baterista – Johnny Dynamite – e a lide performo-vocal de Henry L. Jonhson deixam clara a densidade e inquietudes em que a onda musical do projecto encaixa – e que viaja insistentemente  entre o blues americano e o dark rock, o experimentalismo propositado e, em doses menos acentuadas, o hardcore e mesmo trash metal – as teclas e voz de Mallory Eye, pouco audíveis e sensitivas – salvo um ou outro momento- parecem, por vezes, dispensáveis ao brilhantismo de grupo.

Ganham espaço e abertura mais notável ao vivo que em disco as «Share The Fire», «Hooked On You» e «My Lust». «Broken Lovers» e «Dead Cats On The Line» talvez atinjam melhor e maior significados em disco.

Uma nota ao “despacho” na produção e masterização do músico/produtor que parece ter caído na graça de algumas das bandas nacionais actuais (Bunnyranch também), Boz Boorer. Especialmente conhecido, entre outros, pela produção do britânico Morrissey, parece assentar nos últimos tempos que nem uma luva aos interesses de projectos de músicos com vibrações próximas e/ou semelhantes! Talvez fosse interessante às novas bandas que vão aparecendo terem as funcionalidades capazes de alguns produtores e técnicos sobejamente reconhecidos por cá ao seu alcance. Tempo, maturação e conhecimento mais aprofundado das ideias e criação são decerto mais benéficos para os que, mais que um nome mediatizado pelos outros nomes que acompanha, se preocupam com isso.

Em alta esteve o one man band Mr. Jones.

O que traz Mr. Jones não é de facto novo, mas a mestria do toque deste one man show talvez tenha sido mesmo o maior trunfo desta noite.

Músicas e mensagens que assentam numa atmosfera próxima da Memphis Blues e rock´n´roll mais puristas e que remetem num contexto nacional, inevitavelmente, para alguma da forma musical que conhecemos em The Legendary Tigerman. Numa altura em que a maioria do panorama persiste na revisitação, este não é, nem deverá ser entendido, necessariamente como um aspecto menos positivo, até porque instrumentalmente Mr Jones foi, ao vivo, uma revelação a reter com natural agrado.

«Human Attraction», «Cold Love», «There She Goes», «Bang!» e «Dance is the Blues» são tocados de modo basilar e ganharam expressão carismática na voz deste one man band.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This