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Complexo – Universo Paralelo

Estreou em Portugal o filme de Mário e Pedro Patrocínio, um documentário sobre a favela mais violenta e mediática do Brasil, impenetrável até para os habitantes do Rio de Janeiro.

O documentário dos irmãos Patrocínio é o resultado de 3 anos de vivência na favela mais temida do Rio de Janeiro, o Complexo do Alemão, dito impenetrável por jornalistas e polícias. Durante anos foi o maior reduto de criminalidade, onde sucessivas intervenções policiais só agravaram a situação, momentos de tensão onde os moradores acordavam todos os dias ao som de tiros. Mário e Pedro Patrocínio entraram na favela para realizar um videoclip do Mc Playboy, um residente da favela que conseguiu alcançar alguma fama, e ficaram por lá após terem sido bem acolhidos pelos moradores. Todos as filmagens eram submetidas à equipa de traficantes que gere todo o complexo, e todas as intenções eram expostas em comunidade, mas isso é um aparte, porque Complexo pretende apenas falar sobre as pessoas que vivem na favela de todos os medos, de toda a violência: o que se vê no filme é uma realidade bem diferente.

Esta é uma favela onde vivem pessoas pobres e com estórias sofridas, um bairro social construído sem ordem nem segurança, mas feito, acima de tudo, de pessoas como todos nós, e é nisso que o documentário foca. Aqui não há polícias nem ladrões, embora existam pedaços em que as forças da polícia entram na primeira metade da favela, existem, sim seres humanos.

O documentário foca, principalmente, três estórias: a de Mc Playboy, um artista funk que conseguiu fazer carreira e enriquecer mas que ainda vive no Complexo do Alemão. Seu Zé, uma espécie de gerente do condomínio, um dos mais antigos moradores. Todos os dias, seu Zé preocupa-se com a limpeza da favela, com as pessoas — escuta-as e ajuda-as —, e é através dele que conhecemos um bocadinho mais da estória do Complexo, e Dona Célia, uma mãe de oito filhos que vive no limiar da pobreza e que já esteve numa situação de quase loucura. Estas pessoas abrem a porta de suas casas e é nisto que o filme é rico, nesta invasão de privacidade que é filmada de forma simples e sem tristezas, não é um filme de acção com tiros e tráfico.

E é essa também a sua principal falha, embora o filme seja feito de dentro para fora, e nisso é sublime; há uma certa ligeireza que não é aprofundada e que poderia ter dado ao documentário uma aura de verdadeira consagração. O filme esboça, apenas. Se calhar era essa a intenção, mas tratando-se de um local de difícil acesso para o mundo exterior, seria de esperar um olhar mais forte sobre esta realidade. Como está, Complexo – Universo Paralelo, é uma viagem às vidas das pessoas da favela mais violenta do Brasil, pessoas que, com o pouco que têm e com o medo que vivem cada dia, tornam-se fortes e nunca deixam de ser Humanas, filmadas com uma fotografia apurada em pormenores deliciosos. A maior victória do documentário é ser directo, mas deixa uma certa tristeza por aparentar ser apenas um começo, haveria mais para documentar sem pressionar demasiado no estigma da violência mediática? Talvez, mas Complexo sabe sobreviver ao hype e tornar-se num documento importante dos tempos que correm.



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