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O espelho da Humanidade

“Uma Vida Alemã” chegou à tela do Cinema Ideal, tendo estado em sala entre 6 e 10 de junho, e chega agora também o momento de o espetador se predispor ainda mais à reflexão.

O documentário gira em torno da vida de Brunhilde Pomsel, a centenária mulher mais conhecida por ter sido a estenógrafa e secretária do Ministro da Propaganda nazi Joseph Goebbels.

Hoje Brunhilde já não existe fisicamente, porque morreu aos 106 anos em 2017, mas deixou um imenso testemunho em forma de livro de memórias e posteriormente através do documentário de Christian Krönes, Roland Schrotthofer, Florian Weigensamer e Olaf Müller.

“Uma Vida Alemã” é tão simples quanto complicada a relação de cada um com a sua memória e escolhas ao longo da vida. Escolhida a mais simples das estéticas, o documentário opta por se focar naquele rosto de uma mulher que podia ser e era uma mulher qualquer, uma mulher alemã que só por acaso testemunhou quase a totalidade do século XX e uma parte do século seguinte como se nada fosse.

Brunhilde Pomsel encara a câmara como encarou a vida, segundo o seu próprio testemunho, com a naturalidade e inevitabilidade do destino a que ninguém consegue fugir. A tempos, deixa escapar uma ou outra frase mais emotiva, mas em parte do tempo o centro do documentário parece ser outra pessoa que não a própria.

A capacidade analítica e uma memória excecional fazem questionar o quanto Brunhilde escolheu ou não ignorar. É essa a beleza e, ao mesmo tempo, o tremendo choque de “Uma Vida Alemã”, o saber-se que qualquer um pode alhear-se do mesmo modo e pelas mesmas razões.

Brunhilde Pomsel é um testemunho importantíssimo para uma época negra da Alemanha, da Humanidade coletiva, e os autores do documentário escolheram deixar o máximo possível da sua mensagem passar sem intervenção externa, daí se explica o facto de não haver uma entrevista clássica de perguntas e respostas – talvez desse modo não tivessem chegado às cerca de 3 horas de material, que editaram em quase 2 horas de filme.

Muitas vezes a câmara apenas se deixa fascinar pela personalidade magnética da secretária de Goebbels, que é diferente da Brunhilde que desejava sobretudo ganhar bom dinheiro, subir na carreira e viver confortavelmente. Num preto e branco expressivo, sem banda sonora qualquer que seja, no centro o rosto marcado pelo tempo, contrastado, repleto de rugas e trejeitos, no preto e branco que a própria faz questão de vincar que não existe, insistindo que o cinzento é uma área em que se vivia naquela Alemanha.

Por muito que seja um testemunho importante e marcante, Brunhilde é ao mesmo tempo apenas uma pessoa entre tantas outras e uma pessoa que se pergunta como pode ter sido tão superficial e cobarde e é essa, simultaneamente, a sua grande força e fraqueza. Uma simples mulher no fim da sua vida que aceita expor as suas memórias de forma crua e sem artifícios e admite que é humana.

Quando diz que não sabia dos campos de concentração parece mentir, o espetador inevitavelmente questiona-se que tipo de pessoa poderia não saber ou não fazer absolutamente nada – mas Brunhilde é a mesmíssima mulher que tem em mãos um documento secreto e não abre os olhos para sequer espreitar porque lhe deram ordem para isso e fica orgulhosa por obedecer cegamente.

As questões que Brunhilde Pomsel se coloca de forma tão realista e alerta, no meio das suas memórias de infância rígida e repleta de bruxas no escuro do corredor, são um poderoso espelho de consciência para qualquer uma das vidas que a observam e que podem cair na tentação de julgar com os olhos de hoje.

Há um quase desespero para explicar como o contexto da vida da altura era completamente diferente da atualidade, mas ao sair-se do cinema ou ao ver-se o filme em casa, a análise à atualidade deixa concluir que a História tende a repetir-se e repete-se descaradamente debaixo dos narizes dos espetadores do filme.

Até que ponto toda e cada uma das vidas se questiona sobre a informação que recebe, especialmente no mundo das notícias falsas e da guerra das redes sociais, e age de forma real e interventiva sobre os assuntos que se passam até no quintal ao lado? Quantos dramas e atrocidades não se passam mesmo ali ao lado e não se sabe de nada?

O poder de “Uma Vida Alemã” reside nessa simplicidade que Brunhilde carrega consigo, mesmo que com isso pareça admitir que foi um monstro, pelos preceitos de quem assiste sentado aos acontecimentos passados há 70 ou mais anos.

Esse é também o poder da História, constrói-se com a distância, viver dentro dela e ser visionário não está ao alcance de todos, Brunhilde admite uma fraqueza, a de ter feito parte integrante do zeitgeist da vida de quase todos os alemães comuns.

“Uma Vida Alemã” não mostra apenas o testemunho de Brunhilde, já que tem por detrás de si um enorme trabalho de arquivo cru a que os autores do documentário tiveram acesso no Arquivo de Steven Spielberg, depois de se depararem com muitas das imagens já editadas, usadas e reutilizadas.

As imagens mostradas entre os vários momentos do testemunho da secretária contrastam altamente com a descrição da sua vivência alegremente ignorante, apesar de não haver qualquer tipo de comentário ou intervenção direta.

Contudo, esta escolha é uma intervenção, é uma voz silenciosa, tão silenciosa como a de Brunhilde, que escolheu não dizer nada, que escolheu viver a vida de uma alemã comum ou fingir que era uma alemã comum. O modo de vida confortável de que usufrui irrompe de quando em vez nas suas memórias, sem se questionar qual o preço disso e sem saber, no fundo, a realidade de muitos alemães que viviam com extrema dificuldade.

A história de Brunhilde é a de uma cidadã alemã, uma de entre as muitas vidas que se encontraram na Alemanha nazi e que não viveram no fausto e na riqueza e pagaram depois o preço por ainda terem de se confrontar com o que se passou debaixo dos seus narizes ou na propriedade ao lado.

“Uma Vida Alemã” é um documentário, neutro, mas a neutralidade e a isenção sabem-se muito dificultadas quando se fala de seres humanos e até mesmo Brunhilde na sua enorme capacidade de rememorar analiticamente a sua longa vida tropeça na falácia da inocência que sossega a consciência.

Esporadicamente, apercebe-se de que talvez não tivesse sido tão inocente como julga e ao alegar desconhecimento irá remexer na tacanhez da sociedade alemã, o conservadorismo, a mente fechada, a necessidade de aprovação e de coisas boas, boas roupas, bom convívio social.

A questão que “Uma Vida Alemã” coloca em última instância é a de quão são inocentes as pessoas na sua generalidade. A assombrosa honestidade de Brunhilde coloca o espetador no seu banco dos réus pessoal, se quiser mergulhar nas profundezas das contradições que o compõem.

O documentário é sobre uma mulher, muito mais que a secretária de Goebbels, cujos pormenores de vida mal são aflorados e de modo intencional, e é apenas uma das versões da História, um documento fundamental e importante, em primeira mão, de alguém que testemunhou um dos períodos mais horríficos da História recente.

Brunhilde é História, mas a História é feita de inúmeros ângulos, a maior parte deles muito pouco abonam a favor da Humanidade e é com isso que “Uma Vida Alemã” consegue deitar por terra a gigante necessidade de purificação porque tanto anseiam os seres humanos.

A afirmação da inocência através da ignorância que tantas vezes é alegada é legítima, a sociedade move-se por espírito comum e funciona também como espelho e se muita gente se nega a falar sobre um acontecimento, chega a ser possível que se questione se ele teve realmente lugar.

O choque da sociedade alemã no rescaldo do fim da guerra ao ver as pilhas de corpos dos judeus é o mesmo choque de consciência de Brunhilde: de que espírito aquela sociedade estava imbuída para permitir aquilo?

“Uma Vida Alemã” é um documentário tão simples, por deixar a sua “estrela” falar sobre memórias do dia-a-dia como se não passasse tudo naquele contexto, e, por isso, pode parecer que não acrescenta muito ao debate. Afinal, Brunhilde fala sobretudo da sua vida quotidiana, normalíssima, primeiro de mulher, desvalorizada por isso, depois de mulher burra e fútil sem opinião sobre o que se passa à sua volta. Sem ideologia, alistou-se no Partido Nacional Socialista e trabalhou lado a lado com as maiores figuras de um dos Estados mais criminosos da História recente. No fim, era só uma estenógrafa e secretária, cobarde, fruto de uma infância repressiva, de uma sociedade fechada.

É preciso olhar para hoje com os olhos do amanhã e essa reflexão, entre muitas outras, é um tesouro que “Uma Vida Alemã” traz para a atualidade de forma tão perspicaz quanto assustadoramente simples.



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