“O Guardião do Rio” Fotografia-Pedro-Vieira-de-Carvalho

“O Guardião do Rio”

As vozes nas nossas cabeças

Um rio — conta-nos o empolgado protagonista — é uma entidade caprichosa e poderosa, capaz de irrigar campos, mas também de arrasar tudo no seu caminho.

Por isso, inventou-se um cargo. É o dele, solitário e celibatário Guardião do Rio, personagem amargurada e esquecida e que não pode, nunca, ausentar-se da sua função. Dentro das aparentemente poucas pretensões iniciais, que se viam circunscritas ao intervalo entre a água e a estaca nela enterrada, pouco a pouco tudo vai escapando dessa moldura e retornando à mesma com frequência.

Através de um divertido exercício de esquizofrenia vão surgindo personagens impregnadas de uma ampla fiscalidade plástica e que vivem de um esmerado universo gestual.  Um espetáculo que tem o frescor de uma piada inteligente, com o intuito de acordar as pessoas do marasmo e onde toda a diversão fica por conta dos trejeitos e caracterizações dos personagens caricatos, todos eles inventados, todos eles com uma performance melhor que a do anterior. O texto não pretende chocar e também não lhe atribuímos uma grande desenvoltura, mas é através das sadias gargalhadas que nos vai roubando que, por entre e uma outra, as marionetas vão dizendo umas quantas e boas verdades.

Se porventura podíamos temer que este Guardião acabasse por resultar num personagem algo repetitivo, continuamente sobrecarregado pela orquestração dos materiais, vale salientar a primorosa interpretação de Ivo Bastos, que através do seu excelente trabalho nos brinda com uma peça extraordinariamente visual, evocativa e muito bem coadjuvada por todos os elementos que constituem o preço da sua própria solidão.

Com texto e encenação de Ricardo Alves e interpretação de Ivo Bastos, música original de Rodrigo Santos e direção plástica de Sandra Neves, “O Guardião do Rio” é uma comédia com uma abordagem leve e divertida e que tem o poder de nos instigar com uma espécie de… motor para a invenção de novas condições de (sobre)vivência.

Ao final de contas, não existirá em todos nós um bom motivo para darmos ouvidos às vozes na nossa cabeça? Aborrecemo-nos sempre tanto com tudo o resto…

A peça estará em cena até 9 de Novembro no Teatro da Trindade, de 4a a Sábado às 21h45 e Domingo às 17h00.  



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