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“O Mundo no Arame”

O espelho da realidade.

O prolífico realizador Rainer Werner Fassbinder não se coibia de trabalhar em televisão, que não considerava menor, e fazia-o com a mesma intensidade com que realizava os seus filmes. A maneira absolutamente extraordinária como filmou “O Mundo no Arame” — é tudo cortado em câmara, raramente se repetem planos, nunca há master shots, mas há movimentos de câmara baléticos (Michael Ballhaus, o director de fotografia, teve também um papel importantíssimo) — demonstra-o. “O Mundo no Arame”, uma série televisiva de 1973, foi recentemente restaurada e estreou em sala em 2010 (passou em Portugal no final do ano passado).

Muito avant la lettre, “O Mundo no Arame”, adaptado do romance de ficção científica “Simulacron-3”, de Daniel F. Galouye, explora os mesmas temas de “Existenz”, de David Cronenberg, ou “Matrix”, dos irmãos Wachowski; a existência de vários planos de realidade, mundos que se desdobram como bonecas russas, em que o real se começa a confundir com o virtual, com a ilusão. O tema, na verdade, é muito antigo e já foi explorado noutras artes e no domínio da filosofia, e é aí mais do que na ficção científica que esta obra de Fassbinder se coloca — vejam-se as diferenças para “The Thirteenth Floor”, filme de 1999 baseado no mesmo livro e realizado por Josef Rusnak.

A primeira parte, ou seja, o primeiro episódio (“O Mundo no Arame” dividia-se em dois, de cerca de uma hora e meia cada) é particularmente espantoso. Nele, o protagonista vai-se dando conta de que algo não está bem — pessoas desaparecem e de repente já ninguém se lembra delas, outras aparecem do nada — e a investigação leva-o a pôr em causa a sua própria vida e a de um Deus que a controla, como ele controla o mundo abaixo dele. Mas é principalmente a realização que mexe com (“titereira”) o espectador: os reflexos constantes; os espelhos que devolvem imagens das personagens, que, por vezes, lembram bonecos/estátuas de carne e osso (Barbara Valentin à cabeça); os glitches da música electrónica; aquele futuro, que se assemelha muito aos anos 70 em que foi filmado, e, apesar ou por causa da arquitectura moderníssima que o alemão foi buscar a Paris e dos computadores mastodônticos, é perfeitamente datado ou datável e acrescenta, visto hoje, uma outra camada a esse mal-estar, a essa sensação de irrealidade.

A edição em DVD de “O Mundo no Arame”, da Clap Filmes, não tem quaisquer extras, mas esta portentosa obra basta-se a si mesma.



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