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Os Improváveis

O público decide e os actores improvisam. Fomos à Casa da Comédia perceber o fenómeno do Teatro Desporto.

A chuva de rosas que cai no palco durante todo o espectáculo confirma o sucesso. Os Improváveis enchem salas de sorrisos e boa-disposição, num espectáculo que se quer intimista, porque aqui é o público quem comanda a noite. E, se ainda há quem duvide do futuro do teatro de improviso português, a participação no Chicago Improv Festival, já este mês, pode ser a prova que faltava dar.

O auditório da Casa da Comédia, em Lisboa, já é pequeno para tanta gente. Já não são raras as vezes em que alguém tem mesmo de ficar à porta. Os cerca de cinquenta espectadores que conseguem um lugar esta noite vão avançando para o auditório, mas não sem antes receberem uma rosa de plástico, símbolo da interactividade que pauta este tipo de espectáculo. A filosofia da utilização deste objecto é simples: sempre que alguém considerar uma cena ou uma fala particularmente divertida, pode e deve lançar para o palco uma rosa, em sinal de contentamento. Os actores só agradecem.

Lá dentro o grupo de cinco actores – Telmo Ramalho, Pedro Borges, Marta Borges, João Pinto Dias e Mário Bomba – está a postos para fazer aquilo que melhor sabe fazer: arrancar sorrisos ao público através da improvisação. Mas desenganem-se aqueles que pensam que esta forma de teatro não requer muito trabalho prévio. Como refere a actriz Marta Borges, “sei que é estranho dizer que ensaiamos muito, mas é a verdade. A interacção, as relações no palco, tudo isso tem de ser ensaiado, porque depois ao fim de um tempo já sabemos com o que podemos contar dos outros colegas: um é mais físico, outro é mais emotivo, etc. O segredo está em saber ouvir e acrescentar”. Ouvir e ouvir bem, porque senão corre-se o risco de bloquear em palco, como aconteceu ainda há pouco tempo com o actor Telmo Ramalho. “Fiquei sem inspiração, num espaço de segundos esqueci-me do que ia fazer e depois, depois aí sim, tive mesmo de improvisar no momento! Devemos sempre fazer, não a primeira nem a segunda coisa que nos vem à cabeça, mas só a terceira coisa em que pensamos”, conta Telmo Ramalho.

Mas nem os ensaios conseguem controlar a ocorrência de puros imprevistos de vez em quando. “Houve um espectáculo que começava com um jogo de super heróis e eu entrei e fiz a espargata. Como estava de calças de ganga, fiz um enorme rasgão até ao joelho”, conta divertido, o actor João Pinto Dias. Talvez por isso o grupo agora alinhe sempre em palco com uniforme mais confortável e a rigor: calça larga e escura, t-shirt colorida e ténis a condizer.

O palco, esse, prima pela decoração simples. Quatro cadeiras, uma pequena mesa e um cabide com alguns adereços que compõem o cenário. O resto imagina-se em conjunto com o público: as personagens, os lugares, as situações e mesmo os objectos. Para ajudar a criar a fantasia, também o músico Ian Carlo Mendonza vai improvisando algumas melodias, recorrendo a instrumentos de percussão. Sem textos decorados e sem qualquer previsão de como se vai desenrolar a peça, os actores vão puxando pelo público… e o público pelos actores.

Os jogos sucedem-se no palco, alimentados pelas palavras sem sentido que vão saindo instintivamente da boca do público. Os actores lá vão tendo de se sujeitar a este veredicto para criarem as situações mais hilariantes, mas não sem antes haver um escrutínio por parte do “juiz”. É um dos actores que assume esse papel e, alternadamente, vai ficando de fora para controlar o tempo das cenas e para filtrar as palavras que vêm do auditório.

O teatro de desporto ou de improvisação ainda está a dar os primeiros passos em Portugal. Os grupos de improviso contam-se pelos dedos e, à excepção da stand-up comedy, não se conhecem muitos profissionais desta área. Mas os (ainda) poucos portugueses que conhecem “Os Improváveis”, já estão a receber muito bem esta forma de representação, em que os actores improvisam cenas através de jogos pré-definidos, com a ajuda do público, que dá as palavras-chave.

Há quem volte vezes sem conta, porque cada peça de teatro é única. Os jogos, as falas, as personagens, os adereços, tudo muda em consonância com o público. É o auditório que encena e comanda a noite. André Mendes, 20 anos, já cá está pela quarta vez e não se cansa. “Todas as noites o espectáculo é diferente. Mesmo que os jogos sejam os mesmos, o público dá outras sugestões e acaba por ser sempre diferente”, conta. Miguel Roxo, 19 anos, veio hoje assistir pela segunda vez, mas confessa ter gostado mais do primeiro espectáculo. “Tem a ver com as sugestões do público. Da outra vez participaram mais, foi mais divertido”, explica. Daí que a peça deva continuar a subir ao palco em salas pequenas, mesmo que à custa disso se percam alguns espectadores. Como reforça Marta Borges, “este tipo de espectáculos deve ser intimista, para ouvirmos e vermos quem participa”.

Desde já aqui ficam dados os parabéns ao público português que, comparado ao holandês e ao norte-americano, se tem portado muito bem, pelo menos segundo refere a encenadora da peça, Sanne Leijenaar. “Os portugueses gostam de participar, mas são ainda um pouco tímidos. Há alguns jogos em que precisamos de voluntários e às vezes é difícil convencer alguém a ir”. Como reforça o actor Pedro Borges, “o público português quando é para a risota está sempre preparado. Depois há quem se ria mais com uma careta e quem sorria apenas com um detalhe de movimento. Mas nós temos jogos e histórias para todos os gostos”.

De 19 a 25 de Abril, o improviso faz-se em Chicago. Os Improváveis vão participar no maior festival deste género de representação e estar em contacto com os maiores profissionais deste meio. Como refere o actor Pedro Borges, sem disfarçar o orgulho, “estamos super contentes, até porque somos o primeiro grupo português a estar presente na capital do improviso”.



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