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:papercutz, a pop ambiental e Tóquio

2009, o ano do disco “Lylac”; o ano do prémio “Off The Beaten Track” para o single “Ultravioleta”; o ano do galardão “Ones to Watch” pelo Myspace Internacional e a Vodafone. Mas porque é que Portugal ainda não reparou neles?

A resposta é simples: não há opinion makers que se interessem por projectos conceptuais/experimentais, mais ainda se forem feitos em Portugal, mais ainda se estiverem longe de um grande centro social como é Lisboa, mais ainda se forem esses projectos forem do norte do país. “Para chegares ao grande público tens que ter opinions makers que se interessem pela tua música, tens que ter uma grande força a trabalhar contigo, e nós não temos”. Assim começa uma reflexão sobre os caminhos que a música leva (ou não leva!) nos dias que correm, com a chuva a bater na janela, o rio a encontrar o mar ali tão perto (estamos em plena baixa de Vila do Conde, ao lado do Auditório Municipal, onde outrora as melhores curtas metragens eram servidas em tranches diárias, uma vez por ano…), as luzes coloridas a confundirem a luz da noite. E com Tóquio a olhar-nos, pixel a pixel, num quadro que ocupa grande parte da parede do estúdio de design/gravação, que Bruno Miguel, músico/mentor da banda, partilha com a namorada, designer gráfica. “Sei que daqui a um ou dois anos vou estar feliz pelas coisas terem sido assim. Começamos totalmente desconhecidos, comecei do zero e já estou a conseguir chegar a alguns espaços. E acho que foi merecido”. Bruno Miguel é o tipo que se revolta com o estado das coisas. Não tem medo em apontar nomes e publicações que o ignoraram nos últimos meses (não publicaremos neste artigo qualquer nome de jornalista, crítico ou publicação, mas ele diz que “as pessoas atentas sabem quais são!”).

(“- Aquele quadro, de Tóquio, tem uma designação qualquer na sua construção. Acho que se chama “pixel design”. Acho que os Datarock tinham um álbum com uma capa assim… Os !!! também”)

Os :papercutz – assim mesmo, com dois pontos e um “z” no final, “de cortar e colar”, técnica muito usada na música experimental e electrónica; o “z” foi “uma questão de sintaxe; os dois pontos no início “foram acrescentados pela designer, para estragar mais a coisa” – nasceram em 2005 e destacam-se pelas sonoridades eminentemente electrónicas, em jeito pop experimental. “Na designação do género do grupo, eu diria que é pop. Eu vejo três campos: a pop, a música erudita e a música experimental. A Apegenine Records (editora estrangeira que editou “Lylac”, o álbum) diz que é pop. Bem, experimental não é. Erudito também não, porque o meu professor de piano ria-se se ouvisse as minhas composições. É pop, não é puramente comercial, mas é mais experimental”. Entramos pelos campos da pop, que não tem que ser comercial, que fazer uma música pop é coisa difícil, que é coisa que não está ao alcance de todos. “Fui ver David Sylvian ao Theatro Circo, em Braga, há uns anos. Ele tem um álbum que gosto muito, o ‘Secrets of the Beehive’. Um dos melhores álbuns pop que conheço. Lembro-me que dizia, no cartaz, que era ‘pop inteligente’. A pop não tem mesmo que ser má”. Faz pop, experimental, não comercial, mas tenta ser inteligente.

(“- Tóquio é dos meus sítios de eleição. – Por causa da cultura das gueixas? – (risos) Não, não. Esteticamente é uma sítio muito interessante. Por exemplo, quanto mais desenvolvido é o país, mais sentes que preservam a sua história. Quanto mais culta é uma pessoa, mais ele preserva as tradições em casa, como as cenas do chá… É muito diferente de Portugal.”)

Tudo começou com uma banda de rock electrónico (ou electro-rock), os Oxygen. No meio, sozinho, ia experimentando novos sons, novas texturas, novos ambientes. “Refinei o meu gosto musical com este projecto (:papercutz). Sinto que evoluí para integrar instrumentos acústicos (na música). Uma mistura de texturas electrónicas sintetizadas e instrumentos acústicos”, desvenda Bruno Miguel. Daí até ao álbum, “Lylac”, foi um passo. “Todo o álbum que faço é conceptual, tem ser ouvido como um todo, não o penso isoladamente. ‘Lylac’ foi uma trabalho que incidiu mais no ‘eu’, no indivíduo”. Música que não é de festa, mas também não é triste. “Um concerto dos :papercutz é como o álbum, sobe e desce, não é constante. Mas há explosões de euforia”. Um dos últimos concertos, no Passos Manuel, no Porto, provou isso. Outra das oportunidades será no próximo dia 19 de Dezembro, no Musicbox, em Lisboa. “É uma música para as pessoas se perderem lá para o meio, como num bom filme”. A música e o cinema sempre juntos.


(“- Há um filme japonês fantástico que se chama ‘Dolls’, não sei se conheces. Começa com a representação de um teatro japonês, baseado nas história de dois amantes, em que um deixa a mulher para casar com outra ‘gaja’ e assim poder subir na escala social. Mas acaba por se arrepender porque depois a nova amante tenta o suicídio e fica em estado vegetativo. Ele tem de ficar com ela e assegurar o bem-estar dela. Ela não reage, não tem qualquer reacção. É o carácter simbólico que me agrada. A cena estética, o cuidado que têm com os seus trabalhos, as histórias…”)

O próximo ano traz álbum novo, um álbum reintepretado e um novo capítulo. “’Lylac’ vai ter uma nova edição, com reinterpretações dos temas por artistas de música ambiental, a sair no próximo ano, na editora Inglesa Audiobulb com remisturas de artistas como Taylor Deupree, Helios, Simon Scott”. Já antes tinha saído, pela editora canadiana Apegenine Records, o single “Ultravioleta” com remisturas de artistas “de dança, virados para a electrónica”. Mas começa agora uma nova fase. “É um novo capítulo. Há ideias que queria experimentar que se encerram com este trabalho, e outras que vão, a partir de agora, ser exploradas. Num próximo álbum vai haver mais espaço para os instrumentos, para o xilofone, guitarra, mais espaço para a voz. As pessoas vão sentir, realmente, que somos um grupo, um núcleo”. Um núcleo que já vai na segunda formação, depois da saída da vocalista original e de um dos músicos da primeira formação. Hoje, os :paperctuz contam hoje, para além de Bruno Miguel, com a voz de Marcela Freitas e a mestria de Bruno Ribeiro; três forças vivas que se transfirguram em palco. “Se tudo correr bem, o disco novo sairá no final de 2010. Tenho interesse em descobrir novas editoras e pondero trabalhar com mais que uma editora. Uma para o território norte-americano e outra para território europeu”. Dentro da tónica da música ambiental, ou “ambient”, tal como as cidades.

(“- Tóquio tem ainda outra coisa que me agrada muito. Apesar daqueles prédios todos, apesar do consumismo desenfreado, é uma cidade sempre exótica. Tens mesmo a ideia de uma cultura própria, única. Por norma evito sítios com muita pobreza, a minha namorada não gosta de ver esses cenários. E eu detesto ir a um sítio e sentir-me um turista rico”.)

Mas porque é que Portugal não presta mais atenção a este grupo, com dois prémios e a presença num dos mais influentes festivais do mundo, o SXSW, em Março de 2010? “A nossa música não é fácil. É preciso perder tempo a ouvir e interpretar. Acho que existem alguns sujeitos que têm alguma coisa contra nós”, diz Bruno Miguel. “Acho que sofremos sempre pelo facto de sermos do norte, mas é um problema que se consegue ultrapassar com o tempo”. E continua: “Se fosse de Lisboa as coisas eram mais fáceis, se conhecesse pessoas do meio era tudo mais fácil. Acho que já merecíamos atenção dos grandes meios de comunicação”. Já foram criticados no Expresso e na Blitz, “referenciados no Câmara Clara (RTP2)”. Mas, por agora, quem arrisca um nome que encaixe na frase “há sujeitos que têm alguma coisa contra nós”?



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