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“Pés de barro” de Nuno Duarte

Heróis imperfeitos

O período do Estado Novo é profícuo em histórias, mitos e relatos da luta entre quem professava a liberdade e queria atingi-la e outros que a tinham como refém, assumindo-se donos da mesma. Foram mais de quatro décadas onde a tirania de um governo fascista oprimia tudo e todos, principalmente as classes sociais mais desfavorecidas, subjugando-as a um papel secundário, sob o lema “Deus, Pátria, Família”, uma trilogia que, segundo António de Oliveira Salazar, era apregoada como base da educação nacional.

É nesse contexto que nasce Pés de barro (Leya, 2025), estreia literária de Nuno Duarte e vencedor do Prémio LeYa 2024, um magnífico retrato de um Portugal que não se quer repetido, que ficou “lá atrás”, apesar de o contexto politico e social atual ameaçar seriamente a presença de ecos desse tempo de trevas.

A narrativa estende-se entre 1962 e 1966 e tem como foco a construção da ponte sobre o Tejo, outrora Salazar, hoje 25 de abril, e reflete sobre um país “orgulhosamente só”, nas palavras do ditador nascido em Santa Comba Dão, dividido entre a aposta na modernidade e a manutenção de um império colonial à beira do colapso. Mas, para levar essa obra avante, a qual iria mudar a paisagem da capital, especialmente para quem vivia em Alcântara, eram precisos três mil pares de braços.

Victor Alves Lima Tirapicos, protagonista deste livro e nascido a 1 de maio, algo que gostava de manter em segredo, foi um dos jovens que tentou a sua sorte em Lisboa, como serralheiro nas obras da ponte, após ter cumprido dois anos no Linhó, o que destruiu a sua relação com o pai, por roubar batatas na mercearia da terra, mais precisamente na “Ilha das Cobras”, uma aldeia sublinhada com os traços do Castelo dos Mouros, em Sintra.   

Com apenas 22 anos e já marcado pelas malhas da prisão, Victor assenta arraiais na casa dos tios em Alcântara, e, todos os dias, faz o percurso até às obras da ponte, de onde tem vista privilegiada para o cais de onde partiam navios cheios de jovens para a guerra do Ultramar, donde muitos voltarão num caixão, outros estropiados e alguns inteiros, mas sem o juízo.

Enquanto para uns tanto a construção da ponte, que orgulhará todos os portugueses e fará Portugal maior por esse mundo fora, como as lutas armadas em África, significam a evolução e modernidade, para outros, como os residentes do Pátio do Cabrinha, em Alcântara, tal era sinónimo de preocupação, perda de identidade e mais miséria.  

 

Entre essas figuras desgostosas, mas inesquecíveis, estão, por exemplo, o tio Artur, marido da tia Ema, irmã da mãe de Victor, mestre sapateiro que fazia as chuteiras para os jogadores do seu amado Atlético Clube de Portugal; Ângelo, um velho culto que ensinou Victor, «surdo de palavras escritas», a compreender as letras, mas que a velhice acabou por condená-lo a aprender a «desler»; o Lúcio da tasca, que dizia as coisas duas vezes; a Odete peixeira, cuja língua afiada se fazia ouvir no Estádio da Tapadinha; o desprezível Josué, dono do ferro-velho; Quim Tirapicos, irmão de Victor, cujo sonho era ir para a Universidade; e Dália, a muda que trabalha com a tia Ema na fábrica da Regina, que «cheirava a chocolate» e tinha «a capacidade de ouvir o mundo», pressentindo as tragédias, e dona do coração de Victor. 

É através dessas (e de outras…) pessoas que ganharam vida na cabeça de Nuno Duarte que vamos conhecendo o quotidiano de um bairro ameaçado pela miséria e abafado pelos efeitos da construção da ponte, mas que também representava a vontade de lutar por um país melhor, mais junto e livre – apesar da omnipresença das malhas apertadas da PIDE que boicotava qualquer tentativa de insubordinação dita comunista em nome da estabilidade de uma pátria pobre governada por um hipócrita líder que apregoava vitórias em África sem lá pôr os pés, como cobarde que sempre foi –, servindo este romance para explorar os contornos da fragilidade moral e ética de algumas figuras que, erradamente ou não, admiramos, sejam elas públicas, familiares ou até simbólicas.

Para a conceção desta narrativa, Nuno Duarte apostou, certeiramente, na exploração de uma premissa assente na provocação direta, questionado a bravura, com ou sem aspas, de alguns heróis que tanto moram no nosso bairro, como aqueles que apenas ouvimos na rádio, sendo o título deste romance nada mais nada menos do que o questionar a valentia heroína de gente que, afinal, tem os pés enterrados em solo instável, vulnerável. Daí resulta também um confronto constante face à falência de uma ideologia bacoca, que, por via de um brilhante domínio da língua portuguesa, que resulta numa escrita ágil e envolvente, com destaque para uma pontuação disruptiva e a edificação de frases longas, dinâmicas, onde se sublinha o “poder” das vírgulas, leva Nuno Duarte a construir personagens “reais”, imperfeitas, com dilemas que ecoam as tensões de uma sociedade a contas com lutas operárias, ameaças de greve e o serviço militar obrigatório e a quase consequente chamada para o Ultramar.

O enredo, ainda que sempre à espreita de momentos de maior ação e intensidade, não estivéssemos a falar de um contexto operário subjugado ao poder das hierarquias, acaba por dar primazia à reflexão. Isso porque estamos perante uma trama que não se limita a julgar ou absolver os seus protagonistas, mergulhando-nos nos seus conflitos internos, mas sim permitir que o leitor “sinta” o peso das suas escolhas e atos. Para isso, muito ajuda o estilo direto e sem concessões de Nuno Duarte que tem o condão de conferir ao texto um tom cru e, muitas vezes desconfortável, elementos que conferem mais força e coesão a este romance.

Tudo é feito, escrito e lido, em prol de uma inteligente “exploração” de temas como a integridade, o poder, a corrupção do idealismo e a inevitável colisão entre o que se espera de alguém e aquilo que essa pessoa realmente é, sem nunca esquecer uma crítica subtil, mas persistente, aos mecanismos sociais e mediáticos que constroem e destroem reputações ao sabor das conveniências. Para que essa mescla temática se mostre segura, Nuno Duarte apoia-se numa escrita madura que equilibra momentos de introspeção com outros de maior ritmo e que nunca nos “arrasta” ou passa a sensação de enfado.

Assumindo-se como um dos retratos mais fiéis da sociedade portuguesa durante o Antigo Regime, explorando com sentido de humor as peculiaridades do desenrascanço e a chico-espertice “tuga”, Pés de Barro é um livro obrigatório, uma leitura que desafia a olhar além do que está à tona, mas também uma obra sobre o desencanto e a aceitação da imperfeição como um traço universal nascido nas zonas mais sombrias da condição humana e que dá lugar a heróis sem capa, pejados de defeitos, que, entre a procura e a perda da esperança, lutam pela merecida redenção. Mesmo que isso, neste romance, signifique um final inesperado com laivos de uma vingança que abre portas a uma revolução que deu nome a uma ponte, muitas ruas e largos, como também a monumentos que vestem Portugal de norte a sul e que servem como um constante lembrete para salvaguardar o presente e o futuro que se querem livre de ditadores de pacotilha ou regimes de braço em riste. 



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