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Werner Herzog

A linguagem da condição humana.

Para além da mitologia criada à sua volta, Werner Herzog tem uma história cheia de peripécias. É um contador de histórias experiente, o que advém, segundo o próprio, de ter começado a viajar a pé aos catorze anos. Na sua extensa e variada filmografia (mais de cinquenta filmes), também a realidade e a ficção se misturam.

Herzog é autodidacta. Produziu todos os seus filmes e foi genuinamente independente, nunca associado a nada, pelo que recusou toda uma gama de convites. Portanto, apesar de ter nascido em 1942 e de ter feito parte da geração responsável pelo revivalismo do cinema alemão, não se inscreve politicamente no movimento do “Novo Cinema Alemão”, de Alexander Kluge, Rainer W. Fassbinder (recusou produzir este e instigou-o a produzir os seus próprios filmes), Wim Wenders e Volker Schlöndorff, et al. Ele é um realizador alemão do pós-guerra, apesar da maior parte dos filmes serem filmados fora da Alemanha e de nunca ter recebido o reconhecimento devido no seu país. Exemplo disso, a sua recente nomeação para Óscar de Melhor Documentário para o seu último filme “Encounters At The End Of The World” (2007) só foi noticiada em dois jornais alemães, facto apontado pelo seu irmão, produtor da maioria dos seus filmes numa conferência na última edição do IndieLisboa. Sente-se na sua obra o peso da filosofia alemã, do pós-guerra, da língua, da música, literatura e do cinema. Na verdade, não é nem romântico nem expressionista, mesmo considerando figuras como “Aguirre: The Wrath of God” (1972) , “Fitzcarraldo” (1982) ou “Nosferatu: Phantom of the Night” (1979) (numa homenagem a Murnau). Hoje, com 65 anos, vive perto do artificial de Hollywood, mas tem saudades da cerveja espessa alemã.

Há vários temas que se mantêm ao longo da sua obra. A violência está desde logo presente em “Signs Of Life” (1968), a sua primeira longa-metragem, com o escalar da loucura de Stroszek a funcionar como uma crítica à colocação de armas nas mãos de indivíduos, mesmo durante tempos de guerra. No mesmo ano, com a curta-metragem “Last Words”, Herzog levanta questões sobre e em torno de linguagem que ainda não cessaram. Com efeito, a problemática mais nuclear da sua obra, presente em todos os filmes aqui referidos, é a comunicação – sua dificuldade ou ausência. “Land Of Silence And Darkness” (1971) documenta os encontros de uma cega-surda com seus semelhantes da sua comunidade. Este filme trata do expoente ontológico da matéria, tal é a dimensão da solidão de não se ser compreendido que nos provoca medo e sofrimento. Surgiu no seguimento de “Handicapped Future” (1971), com o fim de criar a tomada de consciência da necessidade de melhorar as condições dos invisuais na Alemanha. O filme “The Enigma Of Kaspar Hauser” (1974) é sobre um miúdo pacífico (Bruno S. ficou perfeito no papel) que, depois de 16 anos de isolamento, é posto na praça de uma cidade com uma carta na mão e sabendo somente uma frase. A sociedade força a sua civilização e ele vai-se esforçando por corresponder, sofrendo com as suas limitações mas, contudo, rejeita a explicação científica e a religião. Em “Lessons Of Darkness” (1992), filmado no Kuwait, após a Guerra do Golfo, entre as paisagens avassaladoras, encontramos uma mulher que tenta comunicar mas que perdeu a capacidade de falar ao ver os seus filhos torturados e uma criança que não quer voltar a falar. A este tema transversal à sua obra, articula-se um grande interesse na diversidade de línguas, sua transformação e morte, que Herzog está de momento a registar para um dos seus projectos futuros.

Há no cinema deste autor a procura pela autenticidade. A isto liga-se o facto que usou muitos habitantes dos locais onde filmou, interessado no seu comportamento. Também para tal rodeou-se de vários actores de estimação (sendo Klaus Kinski o mais referido). Denote-se que é raro as mulheres serem protagonistas, representam o sexo, são por vezes traiçoeiras, ou como acontece em “Cobra Verde” (1987), tornam-se elementos de um exército de rebelião. A maioria das suas personagens surgem em estado bruto, sem história e tentam alcançar um sonho, o que os leva aos limites do humano e à subsequente destruição dos que os rodeam e auto-destruição.

Embora os filmes partam de argumentos, escritos intensivamente pelo próprio, a acção e o seu ritmo desenvolvem-se na produção, num processo orgânico a partir de factores externos (como o clima ou os estados de fúria/loucura de Klaus Kinski), e não na montagem. Dá-se tempo para a espontaneidade se revelar, ou então é colocada em cena com a obsessiva presença de animais. Tanto tempo dedicado logo na pré-produção a toda uma panóplia de criaturas: do pássaro domesticado que comunica, a galinha dançarina e pianista, o pato baterista, o coelho bombeiro em “Stroszek” (1977), o camelo no final de “Even Dwarfs Started Small” (1971), até ao momento tragi-cómico de “Encounters At The End Of The World” com um pinguim que se separa dos seus para ir em direcção à morte nas montanhas, e aos muitos outros que representam medo, a estupidez natural e que reforçam a espontaneidade.

A escolha musical é variada, desde a música clássica alemã até aos Popol Vuh (pertencentes ao movimento krautrock, que dominou a música pop alemã na década de 70) e assume um papel importantíssimo nos seus filmes, envolve a narrativa, concedendo espaço a uma espécie de linguagem meta-cinema, pela construção de paisagens circulares que a música nos seus filmes oferece.

É difícil encontrar um cinema de autor tão verdadeiro, virgem, destituído de formatações, que se tenha aventurado contra as forças da natureza. Para preservar a pureza do seu cinema, rejeitou recorrer a efeitos especiais, a adição de publicidade aos seus filmes, evitando o contágio das imagens consumistas que tanto critica. Certo é que retrata a organização e falhas das sociedades, tendo a audácia de ridicularizar a revolução feita por anões débeis em “Even Dwarfs Started Small”, uma comédia negra niilista. O seu cinema compõe-se essencialmente de amplos exteriores, planos demorados, lindíssimos, como um dos raros abstractos, do reflexo num jarro no início de “Stroszek” (1977), ou o final retardado de “Woyzek” (1979). As paisagens magníficas representam estados-de-espírito, como na pintura de Caspar David Friedrich. Herzog foi o único a filmar em todos os sete continentes, indo até ao fim do mundo -à Antártica em “Encounters At The End Of The World” conexo à ficção científica “The Wild Blue Yonder” (2005)-, para deixar como herança um fabuloso arquivo de imagens. Essa é a força motivadora da sua profissão, restituir ao mundo as suas imagens, a sua memória.



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