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doclisboa 2009

Alguns dos filmes que por lá passaram.

Na sétima edição do DocLisboa, à semelhança das anteriores, o número de espectadores cresceu. As actividades pedagógicas, profissionais e paralelas melhoraram. Na programação dos filmes, mantiveram-se as secções Riscos, seleccionada por Augusto Seabra, e Heart beat, apareceram as secções Balcãs em foco, comissariada por Jurij Meden, Foot doc, Love stories, houve uma homenagem a Pina Bausch e uma retrospectiva de Jonas Mekas.

Não perguntei quantos foram ver os filmes de Jonas Mekas (sobre o qual já falei na Rua de Baixo – ver links), não contava com tanta gente nas sessões às quais fui. Ao reparar nas que esgotaram as minhas sobrancelhas ganharam balanço. Acima disto adorei ver tanta gente que se manteve durante os 180 minutos de “Lost, lost, lost”, de 1976, num sábado de manhã no Grande Auditório da Culturgest, bem menos irrequieta. Palmas para o público dos 290 minutos de “As I was moving ahead, occasionaly I saw brief glimpses of beauty”, de 2000. Tomo a liberdade para fazer este tipo de observações para comparar as experiências díspares de se ser espectador de filmes de longa-duração cheios de cortes com, por exemplo “Lunch Break” (do qual vou falar a seguir), filme de plano único cujo tempo foi esticado.

No dia anterior à exibição de “Lost, lost, lost” quase que fui para a saída do Pequeno Auditório fazer vénias no fim dos 80 minutos do único filme que não é um plano fixo da fotógrafa norte-americana Sharon Lockhart “Lunch break”, de 2008. O filme consiste em um tracking / dolly in (travelling frontal) ao longo dum corredor extenso dum estaleiro durante a pausa de almoço dos trabalhadores. O plano lento foi posteriormente desacelerado, ao invés da edição sonora do ambiente do complexo industrial em que se ouvem as conversas quando as pessoas estão fora de campo. Depois de uns minutos de reparar nos pormenores do espaço, adivinhar o que as pessoas estão a comer, reflectir sobre a imagem em movimento, indagar que pensamentos se cruzam dentro da sala. Para não olhar para o relógio bastou-me a ideia de ser daqueles poucos filmes em que se partilham muitas reflexões, eventualmente fartei-me de dar à corda. A dado momento vê-se um poste no qual fixei a atenção com a expectiva que se tornasse um obstáculo mas a câmara passa pela coluna quase sem se desviar. Não aguentei muito mais. Saí de lá com a sensação que tinha corrido o corredor dum lado ao outro em câmara lenta.

Ainda na mesma sessão, “A letter to uncle boonmee”, de 2009, é como o título indica, uma vídeo-carta para um tio falecido, num ambiente muito próprio a Apichatpong Weerasethakul. Este diz no filme que isto é “projecto sobre as reincarnações do tio”. Filmado na Tailândia, num sítio semelhante ao imaginado no argumento como é dito no filme de 18 minutos. A voz-off do narrador é ensaiada cerca de três vezes com lentos travellings e pans (panorâmicas) da esquerda para a direita.

“Agrarian utopia” de Uruphong Raksasad, de 2008, é uma ficção que se centra em duas famílias pobres que cultivam arroz no terreno de outrem. São sugeridas as dicotomias tradição / novos métodos de cultivo e mão-de-obra rural / urbana, a diferença de ter uma terra para cultivar e de não ter nada e só trabalhar. É através da fotografia fenomenal que se subtrai parte da dureza da narrativa e da sobrevivência das famílias. Não há nada que revele que é um falso-documentário.

“L’épine dans le coeur”
de Michel Gondry, foca-se na sua tia percorrendo várias das escolas onde foi professora de crianças e adolescentes na França rural. Vai filmando outros familiares com os quais conversa. Descobrimos donde vem parte do imaginário dos seus filmes. O tio tinha uma Super 8 e o primo, que também teve fase em que fazia pequenos documentários sobre a família, dedicou-se à construção de uma aldeia em maquete rodeada por uma linha de comboio miniatura. Comboio esse que vai aparecendo como separador situando as diferentes localidades das escolas. Teriam sido 86 minutos menos aborrecidos se o filme tivesse recheado dos artifícios que fazem o estilo de Gondry, sem a música repetitiva com entoações de nostalgia barata.

Tanto os quatro filmes anteriores como “Madam Butterly”, de Tsai-Ming Liang, de 2008, foram inseridos na secção “Riscos” do festival. Este segue uma senhora por uma estação rodoviária, sem dinheiro suficiente para comprar o bilhete por causa do seu amante de fim-de-semana, que quando ela lhe liga não parece preocupado em a ajudar. Fica a vaguear pela estação, os seus lábios grandes carnudos comem a banana que comprou, bebe àgua e tosse porque lhe dói a garganta que acaba por desimpedir ao tirar o pêlo que tinha na boca. Fez-me impressão. O filme acaba com ela a acordar nesse dia sozinha.

Em competição internacional de longas-metragens esteve “Below sea level”, de Gianfranco Rosi que conviveu com sete pessoas que fugiram da sociedade para uma zona desértica, abaixo do nível do mar, na Califórnia e a interacção entre elas. Se por um lado não se fica a saber razões suficientes (directa ou indirectamente) para viverem ali, por outro há cenas com duas pessoas que têm, sem sombra de dúvida, distúrbios mentais, em que a câmara está fisicamente próxima das pessoas e o seu ponto de vista é omnisciente, destacando-se uma cena de sexo. Se o filme transpira exploração gratuita, a naturalidade dos diálogos hilariantes salva-o de alguma vulgaridade.

Não há nenhuma ligação entre “Below sea level” e o primeiro filme deste realizador italiano, de 1993, que passou nas secções especiais. “Boatman” percorre o rio sagrado Gandes da Índia no barco dum rapaz que contribui com parte do que o rio representa e dos rituais de sacralização que ocorrem nele, entre outras histórias religiosas que a longa-metragem compreende. O facto de ter sido filmado a preto-e-branco torna a presença da morte mais notória. Toda uma variedade de matérias jaz naquelas águas e também nesse sentido parece haver algo de divino ali latente.

Nas sessões especiais, uma pérola, “Loin du Vietnam”, de 1967, recentemente restaurado, produzido por Chris Marker, é uma colaboração deste com Joris Ivens, William Klein, Claude Lelouch, Agnès Varda, Jean-Luc Godard e Alain Resnais, constituído por segmentos de cada realizador, cujas abordagens se unem numa voz contra o envolvimento dos EUA na guerra do Vietname.

Em competição internacional de médias-metragens estavam os quatro seguintes filmes que deixaram algo a desejar.

“Hinterland”, de Marie Voignier, explora várias dimensões de uma cúpula de metal na Alemanha que alberga um parque tropical: o que passou pelo espaço antes de se tornar um destino turístico, as memórias dos habitantes a rodeiam, as ideias duma hierarquia de pessoas (dos responsáveis ao trabalhador menor) relacionadas com o paraíso postiço até valorizações pós-modernas do projecto rebuscadas por quem lucra com o turismo.

Quem foi ver “Shadows” para ficar a saber mais sobre tratamentos de choque para perturbações mentais, saiu de lá muito desiludido, o filme fraquito de Gregos Theus, só esboça um retrato recente do que levou três pessoas a procurarem essa prática terapêutica e as consequências desta no seu estado-de-espírito.

“Les archers” de Martin Verdet, encerra-se numa casa numa ilha onde instrumentistas de música clássica ensaiam com alguns planos de comida a ser arranjada pelo meio.

“To translate” de Pier Paolo Giarolo, de 2008, para além da metáfora do trabalho de tradução de um idioma para outro com a feitura do pão, e das imagens do exterior, conseguiu alguns bons testemunhos de tradutores itanianos de várias línguas sobre o seu ofício no seu espaço de trabalho.

Finalizado este ano, “Pare, escute, olhe” de Jorge Pelicano, de 105 min, começa cheio de ritmo, telejornais do início dos anos 90 quando metade da linha do Tua foi cortada, desacelera tal como toda a zona afectada, ouve a rádio local e as queixas dos muitos idosos (dois jovens, um defensor da linha férrea, outro agricultor), reporta os acidentes recentes e denunciar a sentença final de morte de toda a vida e beleza da região e do rio Douro em particular, que resultará da construção da barragem prevista para breve. Ferve polémica à volta este documentário bem filmado, com uma causa actual, que foi premiado pela Tóbis como melhor longa-metragem, pela Avid como melhor montagem e pelo Ipj Escolas como melhor filme da competição portuguesa.

Das curtas portuguesas só vi as de comboios, ambas deste ano: “Territórios” de Mónica Baptista no trans-siberiano pergunta a dois passageiros, um checheno e um soldado russo, de onde vêm, para onde vão e qual a necessidade de haver fronteiras. “Himsagar Express” de João Chaves dirige demasiada atenção para os carris de comboio na Índia, e repete o som no final (como se ninguém fosse dar por isso). Recuso-me a acreditar que não houvesse uma melhor proposta da nova geração de viajantes.



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