Pir (Cassete Pirata) | Entrevista
Os Cassete Pirata lançaram, em Maio do presente ano, o seu terceiro álbum, intitulado “A Família”. Pir, Joana Espadinha, Margarida Campelo, João Pinheiro e António Quintino formam este grupo que, nos dias de hoje, celebra oito anos de existência.
Este novo disco é cheio de possibilidades e de contornos, numa busca por uma identidade una e aprimorada a partir da qual cada canção (a ser explorada) é uma referência musical inesquecível. Reúne um conjunto de dez músicas que conversam com quem as escuta, mediante uma instrospecção que não se quer anulada – mas, sim, que se quer sentida e vivida. Surge como uma meditação que se quer partilhada de mãos dadas. É uma roda-viva de delicadeza e de suavidade – afinal, neste movimento contínuo e sinuoso que é a vida, bastásse-nos o amor e seríamos mais crescidos. Obrigada por este disco-viagem, Cassete Pirata.
Dia 22 e 23 de Novembro apresentar-se-ão no Musicbox, em Lisboa, pelas 22HOO. Ainda há bilhetes para dia 22, sexta-feira.
Boas escutas!
Rua de Baixo (RDB): Porquê A Família?
Pir (Cassete Pirata): Desde os meus discos de jazz, que foi acontecendo terem títulos femininos. Depois, com os Cassete Pirata, o primeiro foi A Montra, de seguida A Semente e, de repente, quase que se tornou obrigatório para mim tentar manter essa ligação entre os discos, até que surgiu A Família. Além disso, nestes oito anos de Cassete, a vida foi mudando bastante. A maioria de nós foi pais, estamos mais maduros… passámos pelo confinamento e por todo o peso que isso trouxe nas relações que temos, seja com os outros, seja connosco. Então, basicamente, foi um disco que, quando eu comecei a compor, era esse o assunto mais urgente que eu tinha para falar, era esse o assunto que eu tinha mais à flor da pele, digamos assim. Via A Família nas histórias que aconteciam comigo e com os meus – as separações, as dificuldades nas relações, os filhos, a relação com a profissão, a relação com a vida, a dificuldade em comprar casa, entre outras coisas. Ou seja, mudanças complexas que exigem um olhar atento e com as quais temos muito que aprender; é quase um disco-terapia.
Rua de Baixo (RDB): Gosto muito da capa do álbum. Parece uma tela por secar, com cores e sombras muito intensas e demarcadas. Tem uma casa imponente, mas ao mesmo tempo parece frágil, é cheia de janelas (abertas e fechadas). Parece Primavera e Outono. É muito sublime. Para ti, para os Cassete Pirata, como é que a concepção de Casa se coaduna com a ideia de Família?
Pir (Cassete Pirata): Foi um bonito processo o de pensar a capa. É uma ilustração do Franscisco (ilustrador e designer do Porto) com uma Casa que é, simultaneamente, bonita e pitoresca. E a família é assim, com os seus problemas e não problemas. Eu acho que o disco, neste sentido, e até mesmo musicalmente, tem esse tom mais interior, seja de autoanálise, seja de espaço físico. Porque é isso – é dentro de casa que nós sentimos os dias difíceis e o cansaço da profissão, é dentro de casa que sentimos tantas vezes o isolamento e a falta de “família” no sentido mais lato. E é dentro de casa que também temos as nossas discussões e as nossas frustrações e os nossos momentos sozinhos. E, enquanto, se calhar, A Semente, feita em pandemia, era um disco mais urgente, mais assustado e mais ansioso; eu acho que este disco já é o sarar das feridas, a transformação e a adaptação. É esse processo interior que envolve o espaço físico e a autoanálise e que nos impende a tirar o melhor das experiências que vivemos e a crescer. E crescer é uma coisa muito feliz e uma dádiva, mas também traz as suas dores.
Rua de Baixo (RDB): Como foi o processo criativo? Como é escrever música nova, sobretudo quando já se tem um background de repertório consolidado? O que foi mais desafiante no processo de construção destas dez canções?
Pir (Cassete Pirata): Eu acho que este foi o disco que mais gostei de fazer, a nível pessoal, no sentido do conforto com o qual o pude fazer. A verdade é que eu nunca páro de compor, é a parte da profissão que não tem nem um início nem um fim, digamos. Eu componho, acima de tudo, porque é uma coisa que eu preciso. Depois, e um bocado por causa do covid, habituámo-nos a trabalhar à distância, e isso permitiu uma outra organização das músicas. Para ir a estúdio, gravávamos o que precisávamos, um a um. Foi um processo diferente, não quer dizer que seja melhor ou pior. Então, para mim, foi super confortável. Fizemos as coisas com mais calma. Houve mais tempo. E houve tempo para ouvir, mudar e melhorar. Tentámos que as coisas ganhassem o espaço que precisavam. E num mundo louco como o de hoje, em que as músicas têm um prazo de validade, é preciso sermos bastante conscientes e não nos deixarmos influenciar por esse ritmo ofegante de consumo. Tive o tempo de ponderar e, portanto, sei que o que fiz é o melhor que pude fazer. E, musicalmente, quando findámos o álbum, não me senti cansado. E a vontade de continuar a compor estava lá. O mais desafiante e que é sempre um processo emocional difícil é fechar as últimas letras. Eu preciso de ter um fio condutor a cada disco – é mais fácil se, para mim, houver uma temática geral. O problema é quando se chega às últimas letras e parece que não há mais nada para dizer – é como se fossem as últimas peças do puzzle e têm mesmo de encaixar. Também foi desafiante a possibilidade de arriscar mais, a fazer o que gostamos e nos apetece. Foi uma aprendizagem muito positiva.
Rua de Baixo (RDB): Sinto um fio condutor bastante firme e encadeado de música para música, como uma árvore de fruto que vai envelhecendo e engrandecendo de forma bela, e cujos frutos vão amadurecendo e ficando mais robustos a cada dia (neste caso, a cada nova escuta). Obrigada por isso! | O que faz de uma “rotina” (pegando na música A Rotina) algo prazeroso e confortável?
Pir (Cassete Pirata): Eu tenho um lado muito caseiro, de filho único, passei muitas horas sozinho – é um sítio confortável para mim. Estar sozinho em casa e poder ter o dia para decidir o que quero fazer. Quando eu vivo essa rotina, na verdade, é quando estou na minha melhor versão. Se eu estou nessa rotina e depois estou socialmente, sinto que estou sempre na minha melhor versão. Estar sozinho é o que eu preciso para encher o meu barril de energia boa. É um sítio de quase voltar à adolêscência, e eu tive uma adolescência muito feliz. Para mim, a condenação da adolescência é que foi tão boa, que depois eu torno-me uma pessoa nostálgica. Agora, não vale a pena romantizar a rotina. Há muita gente desenquadrada da comunidade, e eu sinto que na minha geração não se pensa em rede, em estarmos perto. É estranho, porque eu nunca ansiei tanto por uma certa rotina, e ao mesmo tempo nunca quis fugir tanto dela. E é confuso também, porque às vezes nem sabemos bem aquilo que precisamos. E é importante olharmos para dentro e estarmos atentos a isso, em vez de negarmos e sermos piores versões de nós. Temos de nos autopreservar, e se for preciso voltar a ter treze anos, e ouvir o nosso corpo e a nossa mente – temos de calar essa fome, ao invés de lidarmos com as consequências de não o fazermos, para assim vivermos uma rotina mais confortável e prazerosa.
Rua de Baixo (RDB): Olhando parte da letra da música Promessas “Ah, vamo-nos esquecendo de nós / Na fome de querer pertencer”…, como se concilia uma vontade quase voraz de ser de alguém, de algum lugar e a necessidade de sermos o nosso próprio lar?
Pir (Cassete Pirata): Isso é sempre um desafio… Por mais que vivamos num mundo de uma liberdade aparente, todos nós temos uma sensação de moralização. Eu acho que com o enorme acesso à informação e a tantos ideais, há quase uma idealização daquilo que devíamos ou não ser. E então são essas promessas. Eu vou ser isto eu vou ser aquilo, mas às vezes esse idealismo perfeccionista está tão longe da sensação de felicidade… No outro dia vi que o medo número um do ser humano é a humilhação pública e eu achei isso impressionante. Não dá para sermos esses avatares perfeitos, pois vamos-nos esquecendo daquilo que é realmente importante. É como se já vivêssemos desencontrados connosco mesmos nesta coisa de privilegiarmos uma série de coisas que meio que já nos fazem mal à partida. E tu vês isso, as pessoas conseguem viver anos aprisionadas em relações, em profissões, em rotinas tóxicas – e numa suposta civilização mais livre. Mas depois dizem-nos que é na competição que somos a nossa melhor versão. E que não podemos desistir, nem chorar. Nunca senti as pessoas tão aprisionadas e com medo da opinião alheia, e eu acho que as redes sociais estão a ter um impacto brutal nisso.
Rua de Baixo (RDB): Como surgiram os Cassete Pirata? E, tendo Tanta Vida Pra Viver, como o título da vossa música, que vida longa será essa para os Cassete?
Pir (Cassete Pirata): Os Cassete vieram, na verdade, de um sítio em que eu já tinha vivido uma data de vidas. Já tinha trinta anos. E eu acho que todo o conjunto de experiências como músico que já tinha tido fizeram com que quisesse ter a minha própria banda. Queria escrever canções, mesmo que fosse o pior letrista do mundo. Queria ter o meu núcleo duro, a minha família, e focar-me num projecto como os Cassete. E eu preferi esse modelo ao de cantautor, onde pudesse ter um sítio para viver todas as vidas que quisesse. A relação que eu tenho com os Cassete é um bocadinho como a relação que eu tenho com os meus heróis musicais. Se eles fizerem um disco completamente diferente daquilo a que eu estou habituado, eu vou adorar na mesma, porque eu admiro é a pessoa e o privilégio de estar a vê-la a criar e a concretizar. É ter essa frescura e eu sinto que enquanto conseguir fazer isso, os Cassete vão continuar a ser esse sítio onde eu quero estar.
Rua de Baixo (RDB): O que mudarias na indústria da música?
Pir (Cassete Pirata): Mudaria tudo. A indústria da música está uma estupidez. Está doente há anos. Acho que o sistema está a espremer e a esmigallhar uma data de malta talentosa que não tem estrutura para lançar música de forma independente. Acho que mesmo a indústria “maior” e dos grandes concertos esgotados está em níveis de desonestidade muito elevados. E eu não consigo arranjar culpados ou uma pessoa má, isto é o mercado a funcionar e mal. Que personagem temos de ser para ficarmos famosos? E a que custo? Exige muito sacrifício, muita precariedade, muito trabalho e muito financiamento.
Rua de Baixo (RDB): O que estarias a fazer neste momento, se não fosses músico?
Pir (Cassete Pirata): Eu provavelmente estaria no interior, no meio da natureza, a fazer trabalhos com as mãos e a montar coisas!
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