“Quase Gigolo” de John Turturro

“Quase Gigolo”

Paixão e comédia com sabor a pistácio.

Woody Allen. Brooklyn, Nova Iorque. John Turturro. Outono. Jazz. Estas são algumas das palavras-chave que ajudam a entender “Quase Gigolo”, a mais recente aventura de John Turturro enquanto realizador, e também ator, que junta no mesmo filme gente ilustre como o já referido realizador de “Annie Hall”, assim como Sharon Stone, Vanessa Paradis e Sofía Vergara.

Mas vamos aos factos. Fioravante (Turturro) e Murray (Allen) são amigos de longa data. O primeiro trabalha na livraria do segundo, negócio à beira da rutura, e faz também um part-time numa florista. Ambos lutam contra dificuldades financeiras graves.

Numa das consultas de Murray com a Drª Parker (Sharon Stone), a sua dermatologista, constata que a belíssima médica tem um sonho: fazer uma ménage à trois na companhia da sua amiga “caliente” Selima (Sofía Vergara). A única coisa que precisam é de um homem que queira entrar na cena.

Murray pensa imediatamente em Fioravante para o cargo que, ainda que de forma hesitante, acaba por aceitar a demanda. Assim, nasce a dupla “Virgil & Bongo”, prostituto e proxeneta, sócios de um negócio lucrativo e onde o prazer é o objetivo.

Altamente convicto da atividade que agora abraça, Murray procura potenciais clientes e de forma inesperada vê em Avigal (Vanessa Paradis) a senhora que se segue a juntar-se ao rol de Fioravante. Mas Avigal é uma pessoa diferente, especial. Viúva de um rabino e mãe de seis filhos vive em uma comunidade avessa a intrusões, fechada sob as fortes grades da religião judaica.

Ainda assim, Murray consegue convencer Avigal a requisitar os serviços do seu sócio e desse encontro nasce uma estranha e emotiva relação. Desconfiados das recentes saídas de Avigal, os responsáveis pela patrulha do bairro – conhecidos como Shomrim –, na pessoa de Dovi (Liev Scheriber), iniciam uma manobra de espionagem de forma a descobrir o destino de Avigal.

Ao conhecer a trama de “Quase Gigolo” surge logo à partida a ideia de “Midnight Cowboy”, um filme da autoria de John Schlesinger que data de 1969 e contava com a participação de John Voigt e Dustin Hofman nos papéis de alguém que quer ganhar dinheiro na troca de favores sexuais e outro que trata de fornecer clientes ao primeiro. Coincidência? Mais do que isso, garante Turturro que afirma ter-se inspirado em personagens como Joe Buck e “Ratso” Rizzo para chegar a Fioravante e Murray.

O resultado é um delicioso filme urbano com o cenário outonal de Nova Iorque a encaixar que nem uma luva nos diálogos neuróticos e bem-dispostos entre os dois personagens principais cujos temas versam sobre a mortalidade, a vida, a solidão, a moralidade, a autoestima.

Com um leque de atores de excelência, Turturro consegue pegar naquilo que os mesmos têm de melhor para oferecer. Vejamos, Allen faz de si mesmo mas de uma forma que não o víamos há muitos filmes: cómico, livre, espontâneo, autêntico. Já Sharon Stone mantém o perfil de bomba sexual herdado de “Atração Fatal” mas em versão madura, enquanto Sofía Vergara destila charme e sensualidade latina. Por fim, Paradis é aos 41 anos a imagem da eterna menina doce, envolta de uma beleza natural e desarmante.

Ver “Quase Gigolo” é passar hora e meia com o sorriso no rosto ainda que a gargalhada não seja para aqui chamada. John Turturro dá ao seu próprio personagem, e camaradas de tela, uma personalidade vincada, uma paixão característica que em cenas como a volta de carrossel entre Avigal e Fioravante explodem na direção de quem está na sala de cinema. Particularmente, Fioravante foge ao estereótipo do galã, do sedutor nato. É um homem comum que tem a particularidade de atrair a atenção de mulheres belas e sensuais e através de um especial sentimento de solidariedade carnal assume-se com um antídoto contra a depressão relacional e uma forma de quebrar a monotonia emocional.

O filme é um puro exercício de combate ao estereótipo e serve-se do elemento-surpresa para garantir essa filosofia. Murray é dos personagens mais acutilantes e possui uma argumentação difícil de combater. Um exemplo disso é quando se refere a Fioravante como: “um homem nojento mas de forma atraente”.

“Quase Gigolo” foi idealizado para uma audiência madura e centra-se na exploração direta e, podemos dizer honesta, de personagens que não conseguem ultrapassar fragilidades embora tenham as mesmas presentes no seu íntimo ainda que tal seja um absurdo. Convenhamos que é preciso uma imaginação fértil para conseguir transformar um velho dono de uma livraria num chulo e o seu recatado colaborador num gigolô, ainda para mais capaz de seduzir deusas como Stone e Vergara.

Com tal, podíamos até afirmar que o argumento perde alguma lucidez entrando num oceano onírico mas a argumentação de Murray consegue levar para longe esse pensamento. Nem mesmo a incerteza relacional de “Papa Mo” (Murray) no seu contexto familiar chega para colocar em cheque a pertinência deste filme. Sinceramente, não precisamos de saber que tipo de relacionamento existe entre Murray e Othella (Tonya Pinkins) ou quais os laços entre o “casal” e os pequenos membros da família. Aquilo que nos enche a alma são os magníficos diálogos deste filme que tem na sua banda sonora um precioso aliado na própria construção e apresentação da estória. “Quase Gigolo” é, acima de tudo, uma comédia “romântica” que foge a sete pés do entretenimento gratuito servindo-se do seu inato charme para afastas as suas próprias idiossincrasias.

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