Roda Gigante

“Roda Gigante”, de Woody Allen

Um dia estamos em “alta”, noutro com saudades do dia em que estávamos em “alta”.

Coney Island. Península fetiche da cultura pop norte americana. Parques de diversão enchem as noites com risos e luzes de néon, veraneantes ocupam as praias e os restaurantes de marisco. Referenciada por F. Scott Fitzgerald no “O Grande Gatsby”, inspirou músicos, telediscos e capas de álbuns e até foi cenário escolhido por muitos realizadores pelo passeio de madeira ao longo da praia. Este é o cenário para o 53º filme de Woody Allen, “Wonder Wheel”, o mesmo nome da roda gigante que aí existe desde 1920.

“Wonder Wheel” não conta uma história de deslumbramento, mas de sonhos perdidos, uma espécie de “fim de festa”. O realizador e argumentista centra a narrativa nos anos 50 do século XX, altura em que Coney Island começava a perder o glamour que a tinha caracterizado até então e o crime organizado tomava conta das suas ruas. Woody Allen apresenta-nos Ginny, interpretada por Kate Winslet, uma mulher de meia idade, presa ao sonho de juventude de ser actriz. Inconformada com a vida que leva, a sua solução é recorrer aos seus talentos e “representar” o papel trágico-cómico de mãe falhada de um filho pirómano, esposa dedicada de um alcoólico em recuperação e empregada de um restaurante de marisco onde trabalha mais de oito horas por dia.

Um dia Ginny conhece o jovem Mickey de 20 e poucos anos, interpretado por Justin Timberlake, nadador-salvador em part-time, estudante de teatro com um apartamento no bairro nova-iorquino de Greenwich Village. Mickey encanta-se pela segurança que uma mulher mais velha como Ginny lhe oferece e assim começam uma relação clandestina. A vida de Ginny ganha o fôlego dos grandes romances. Mickey resgatou-a do avental sujo de molho e do apartamento exíguo por cima da banca de tiro ao prato. Ginny é agora a verdadeira Ginny, tem penteado novo, vestidos rodados e discute os grandes autores de literatura e de peças de teatro. Ginny vai fazendo planos para escapar ao marido e ficar com o amante, até ao dia em que Mickey conhece a sua enteada Carolina, interpretada por Juno Temple, 20 anos mais nova que ela. Ao perceber o perigo que Carolina constitui, Ginny faz de tudo para não perder o seu nadador-salvador.

Kate Winslet tem uma interpretação assombrosa. Encontramos nela o desencantamento, a melancolia e o desespero de uma mulher que nunca irá valer-se por si mesma, precisará sempre do amparo de um homem.

O tema deste filme deixou-me a pensar sobre os últimos tempos da industria do entretenimento norte-americano, que tal Coney Island dos anos 50 e Ginny anda a viver dias de desencantamento. Assistimos a notícias que falam sobre a falta de igualdade de oportunidades e de salários, a necessidade da industria reconhecer a multiculturalidade e as denuncias de vítimas de assédio. Há poucas semanas, na 75ª cerimónia dos Globos de Ouro as mulheres vestiram-se de preto como forma de apoiar publicamente as vítimas de assédio sexual e algumas levaram como suas convidadas importantes activistas dos direitos das mulheres. Sendo uma indústria que inspira e atrai tantas pessoas chegou a hora de uma mudança paradigma, mesmo que demore alguns anos. É importante que passemos a ter mulheres que valem por si mesmas, respeitadas, devidamente reconhecidas pelo seu talento e remuneradas pelo seu trabalho.



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