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Rendez-vous festival

Carícias a uma elite desamparada. Setúbal, 12 e 13 de Novembro.

Realizou-se nos passados dias 12, 13 e 14 de Novembro, a 3ª edição do certame de música e cinema, Rendez-Vous Festival, no Clube Setubalende em Setúbal. A Rua de Baixo foi à cidade do Sado, medir a pulsação do evento, onde assistiu a diversos concertos entre os quais, Gala Drop, Tom Greenwood ou Eddie Prévost.

Logo à entrada, o Clube Setubalense remete-nos para as páginas do Eça de Queirós, na “Tragédia da rua das flores”. Soalhos em madeira que rangem sobre os pés, longos candeeiros para disfarçar uma aristocracia sonora e, claro, janelas e mais janelas, para o suicídio após a confirmação do incesto. Mas a simpatia de Ana Baliza, directora do Festival, evita a hecatombe e com um sorriso somos aviados de tinto num copo, embrulhados entre a organização e os músicos, pois lançamos amarras ao evento demasiado cedo.

Foi o tempo suficiente para nos integrarmos, trocar algumas palavras rápidas e fazer o recenseamento das agruras com que uma organização bastante verde se debate para levar a cabo, um festival ainda nos seus primeiros passos.

High Wolf

O mini festim musical começou com quarenta minutos de atraso. Um psicadelismo inerte, embrionado em Loops preguiçosos saiu então do palco. Cortesia de um conjunto de convidados: Pedro Magina dos Aquaparque nas teclas, de um saxofone numa subtil odisseia de imaginação soprado por Pedro Sousa, Aka Alfredo Carajillo, e de duas guitarras, uma delas trabalhada pelo músico anfitrião desta odisseia, High Wolf, aventureiro francês que busca nos confins da América do Sul uma razão para a sua aventura sonora.

Soavam então do palco laivos sonoros, registo natural da evolução humana contada com a bênção, do dedilhar de cordas à Vinny Reilly, o mesmo dos Durutti Colom que o francês tão bem homenageou.

Mais distraído no tempo, a introspecção da outra guitarra a cargo de Guilherme Gonçalves dos Gala Drop, brincava com a sua congénere e sentia-se um estado de invulgar paz no auditório, que prendia a magra plateia (cerca de meia centena de pessoas) ao espectáculo.

Um longo cortinado azul, que servia de fundo de palco, afigurava-se como a densa selva amazónica, os músicos esvaneciam-se e transformavam-se na respiração da selva. O ruído nocturno da fauna gritava dos seus instrumentos, entoando também as ancestrais vozes das tribos amazónicas, e os seus rituais de transe após o sucesso das suas caçadas. Enquanto despojados do frio e da austeridade política que se passeava lá fora, nos prendíamos a esta realidade.

E se o Chico Buarque cantou “E o rio Amazonas que corre Trás-os-Montes, e numa pororoca deságua no Tejo…” naquele momento, a densa selva amazónica, tornou-se perene e mediterrânica ali no sopé da serra da Arrábida.

Gala Drop

Após uma longa pausa e ainda com os primordiais gritos da selva entranhados nos tímpanos, os Gala Drop, que ousaram abrir o último concerto dos Sonic Youth em Lisboa sem ferir a sensibilidade a ninguém, avançaram para a sua caçada no palco. E logo atacaram-nos com um frenético som dançável. Mas o vácuo que se sentia na sala, não ajudou muito à festa, apesar da música chover do palco e nos molhar na plateia com pingos de genialidade.

Tudo fazia sentido, a Amazónia acordara! Desabrochara uma alvorada sonora e convidava-nos a dançar, de repente ficamos enleados num bolero psicadélico. Uma guitarra arrastava-se numa luta com uma percussão epiléptica e suava do palco um sinal de alarme. Á direita um pequeno aglomerado começava finalmente a dançar, mas à esquerda uma pequena plateia sentada absorvia tudo numa roupagem de encalhados de baile de Agosto no profundo interior do país, e não sentia mesmo o apelo ao movimento.

Juntamo-nos então aos que aderiram à festa, por baixo de uma luzes que nos fumegavam de volta aos anos oitenta, ali ressuscitamos enlatados entre o “Abraxas” do Santana e o “Grace Wastelands” do Paul Simon. Foi impossível não adorar e idolatrar o momento, ficamos ali entorpecidos pela vontade. Após a banda terminar o concerto, ficamos na espera vã de um encore, que não veio à superfície, e de ombros encolhidos estacionamos as mãos nos bolsos e saímos dali assobiando a espera do segundo dia, que se adivinhava mais calmo.

Tom Grenwood e Dahdahisque

No segundo dia, o mote de arranque, foi dado ao som da Folk algo experimentalista de Tom Grenwood e DahDahisque. O norte-americano Grenwood que já se tornou um culto vivo da música Folk embrionada em Portrland com a sua banda Jackie o` Motherfucker juntou-se à francesa em 2009 e desde daí tem levado uma aventura sonora impar, transportando a Folk a cenários completamente improváveis e inexplorados.

No auditório as cadeiras encontravam-se alinhadas em frente ao palco, formando uma plateia sentada e deixando antever uma noite bastante mais serena que a do dia anterior.

Em palco, os sons desalinhados e ainda tímidos da guitarra eléctrica de Tom, davam as boas vindas a quem se sentava. Em posição fetal, debruçado sobre a sua guitarra saudou cerca de 20 convivas, audiência que gradualmente durante o concerto foi crescendo, apesar da chuva e do vento lá fora não serem um bom pronuncio para a noite.

Tom saudou então a plateia -«Good evening, thanks for coming» – e começou a alinhar os acordes que evoluíram para os terrenos de uma Folk triste. Ruídos distantes e uma esporádica harmónica de DahDahisque acompanhavam o balanço dorido de Grenwood, que se torturava encurralado entre a cadeira e a sua guitarra. No palco sofria-se, na plateia estarrecidos testemunhávamos a sublimação sonora e tornávamo-nos cúmplices da arte do duo.

O lamento da Folk dava então as boas vindas a um serão lúdico, com um reportório quase tão vasto quanto o da possibilidade da improvisação. O músico norte-americano, que acolheu no seu seio musical a francesa que no exercício de fazer soar o som parecia que dançava, deixaram em Setúbal mais que as suas agruras Folk, deixaram mesmo a sua alma.

Orangotango Project

Deixando o duo no seu mundo, e os clichés para trás, fizemos um intervalo que nos ajudou a acordar. Foi o tempo para se constatar que o velho palacete já se encontrava mais composto de pessoas. Voltamos ao auditório com Orangotango Project que, em pé e de costas para o público, nos introduziu e apresentou o seu universo sonoro. Um mundo que vem construindo à mais de trinta anos com os seus invulgares sintetizadores analógicos.

E o vento já não soprava só lá fora. Soava também agora das colunas, de onde também escorria água em loops que nos transportavam até aos cenários futuristas e caóticos do “Blade Runner” do Ridley Scott. Mas não se tratava de Vangelis, este altivo e calmo ancião é de longe mais comedido no seu discurso musical. Introduziu então no concerto algum ritmo, algo medieval retirado da placenta Kraftwerkiana dos anos 70 e do mundo electrónico dos Tangerine Dream.

Grenwood juntou-se também à plateia, para absorto fazer a viagem atrás no tempo, e imaginar um planeta super povoado num futuro próximo. Ou simplesmente imaginar como funcionaria a sua Folk, embutida no universo de Orangotango Project. Seja como for, e a avaliar pelo seu estado de introspecção, ali concebeu um mundo novo!

Deixando a parte foleira de armar alguém em Deus e definitivamente os clichés no fundo das minis de abertura fácil, embrenhamo-nos no espectáculo. No palco, o músico trabalhava o “Voltage Controlled Sounds”, emaranhado nas centenas de botões dos seus aparelhómetros e no seu sintetizador analógico. Mais parecia um atarefado operador de rádio a estabelecer contacto entre o passado e o futuro.

Era como se os Leftfield tivessem remisturado um “western spaghetti” originalmente composto por Ennio Morricone. A água continuava a ecoar das colunas e a atmosfera adensou-se, ficou algo turva. Dessa neblina surgiu um pesadelo electro, transportando a audiência para uma galáxia de ácidos alucinantes, com seres a tripar numa uma Rave a 33 retoções. O operador lá cumpriu bem o seu trabalho, e arrancou um sincero coro de palmas, talvez o maior do festival.

Eddie Prévost e Sebastian Lexer

Na pausa entre concertos, numa sala com altas portadas entre fumo de tabaco e conversas de ocasião, mentes mais esclarecidas e debruçadas sobre o universo da música experimental alarmaram-nos para o estatuto e a importância que o freguês que se seguia, Eddie Prévost acompanhado por Sebastian Lexer, tem nessa vertente sonora. Mais de quarenta anos de experiência, diversos discos históricos, uma vasta experiencia e “Blah blah blah”.

Não sabemos se nos chegou para elucidar, isto porque esta, aparentemente, é uma arte que todos podemos dominar. A de fazer soar dos instrumentos algumas notas sem arrumação melódica ou rítmica. Mas podemos não ter o mérito e a capacidade de o tornar numa viagem interessante. Do alto na nossa ignorância, entramos no auditório para nos debruçarmos sobre este assunto. Com os leigos traseiros acomodados na cadeira, começamos a degustar a arte de uma música que, tal como no Free Jazz, quem tira mais prazer dela é quem a interpreta, ou assim pesávamos nós.

Com a actuação a decorrer fora do palco, Eddie arrepiava o povo com um arco de cerdas de violino, friccionado num bombo metálico, enquanto Sebastian tinha a displicência de tratar um piano de cauda como um talhante. Sentíamo-nos como personagens perdidas na confusa e rudimentar banda desenhada da animação de leste, que o falecido Vasco Granja nos metia na sala através do televisor. Éramos então acossados por uma matilha de cães em fúria e por hordas de insectos alienígenas, desenhados a lápis de carvão sobre papel cavalinho.

Por vezes era o silêncio que aleijava, ao menor movimento sentíamo-nos parte integrante do espectáculo. Como um cirurgião, Sebastian confundia as cordas do piano com um coração humano e operava-as com um objecto indescritível. Eddie continuava a serrar o bombo metálico, que gemia como um animal a pedir para ser abatido mortalmente. Respirava-se o legado do extinto “E.M.E” Encontros de Musica Experimental” que deixou primeiro em Setúbal e mais tarde em Palmela, muitos adeptos desta música órfãos.

O resultado palpável do concerto foi, o de termos assistido a dois músicos como se estivessem meticulosamente a sacudir parasitas dos instrumentos, ritmos desintegrados, melodias sem nexo, que cada espectador recebeu individualmente, com uma visão dispare do vizinho do lado. Na plateia, as reacções eram variadas: uns tapavam os ouvidos enquanto que outros fechavam os olhos para sentir mais a música e serem levados naquela viagem. Alguns adoraram o incómodo sonoro, outros ainda coçavam-se na cadeira, absortos do conteúdo da coisa. Mas uma coisa é certa. Ninguém ficou indiferente a esta fuga à realidade, a este passo de gigante para fora da música convencional.

Concluindo, estas iniciativa isoladas, servem de torniquete à evasão da cultura do município de Setúbal, cidade que já deixou fugir das margens do Sado um importante festival de Jazz, e um outro certame que foi provavelmente o primeiro festival de World Music, nos anos 80, e mais recentemente o “E.M.E.”



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